Terminou? Entenda se bloquear o ex nas redes sociais é a melhor escolha

Por Nathan Vieira | 30 de Janeiro de 2020 às 17h40

Se tem uma coisa que todos nós temos percebido, é a mudança que a era digital trouxe para os relacionamentos pessoais, principalmente quando se trata de redes sociais e aplicativos. Recentemente, fizemos uma matéria justamente para apontar o modo como essa era impactou as relações. Mas, infelizmente, tudo o que é bom um dia acaba. E aí, como é que faz? Em meio a um mundo tão conectado, em que as pessoas têm cada vez mais facilidade de ver o que o outro está fazendo, com quem está conversando, a questão que fica é: deve-se excluir o ex das redes sociais ou não?

Para responder a essa pergunta tão complexa e subjetiva — afinal, estamos falando de sentimentos e de toda uma relação que pode ter durado anos, gerado filhos, etc — o Canaltech conversou com um poderoso time de especialistas no assunto. É claro que depende muito de como o término ocorreu, quem terminou com quem, como, por qual motivo, se o ex ou você já começaram a sair com outras pessoas. Mas, de um modo geral, segundo o consenso das doutoras entrevistadas pelo Canaltech, se você é da turma dos que insistem, saiba que manter o ex nas redes sociais pode trazer mais malefícios que benefícios.

Para Adriana Nunan, doutora em Psicologia Clínica e co-autora da obra Relacionamentos Amorosos na Era Digital, todo término de relacionamento é um luto e deve ser experienciado como tal. “Precisamos de tempo para refletir sobre o que deu certo, o que deu errado, o que não queremos repetir em relacionamentos futuros. E para fazer isso precisamos ter um certo distanciamento do outro, coisa que a rede social não nos permite”.

Adriana ressalta que as imagens do Instagram, por exemplo, são muito pouco realistas e a tendência do ser humano é se comparar com os outros, principalmente quando nos sentimos “para baixo”. Ou seja, você acaba tendo a sensação de que o(a) outro(a) está muito bem e só você está sofrendo. Vale lembrar que o Canaltech já trouxe à tona esse assunto na matéria Tecnologia e redes sociais: qual é o impacto para nossa autoestima?

Seria muito legal se desse para bater o martelo e falar “Pare de seguir o seu ex” ou “Não exclua o seu ex”, mas acontece que não é tão fácil assim. As pessoas são diferentes e cada relacionamento tem sua história, afinal. A própria Adriana diz que não há certo e nem errado, e orienta a fazer aquilo que te deixa mais confortável. Pode, por exemplo, em vez de excluir, apenas restringir o acesso da pessoa às suas redes. O problema maior surge quando o(a) ex tem muitos amigos (ou, pior, parentes) em comum com você. Porque as outras pessoas podem postar fotos onde você aparece, o(a) ex vai ver e você não tem como controlar isso.

E em caso de divórcio?

Obviamente, terminar um namoro não é fácil, independente do tempo dessa relação. No entanto, existe uma coisa ainda mais delicada: o divórcio. Quando se trata de um ex-marido, e não um ex-namorado, a situação é elevada a outro patamar, principalmente quando o casal teve filhos. Adriana aponta uma questão que condiz muito com a realidade: essa talvez seja a parte mais difícil de lidar. Primeiro porque você pode ser o tipo de pessoa que preza pela privacidade e não posta fotos de crianças nas redes, meus seu (sua) ex pode estar postando mil fotos do seu filho, e você não sabe quem está vendo.

Além disso, bate aquela curiosidade de saber onde o ex estava com a criança. O que estavam fazendo? Estavam se divertindo? Quem mais estava lá? Não bastasse o término do relacionamento, agora você também passa a ter a sensação de que está perdendo momentos preciosos da vida do seu filho. A situação piora quando o(a) ex começa a se relacionar com outra pessoa, porque você passa a sentir ciúme da relação do seu filho com esta nova figura, caso o novo casal faça programas “em família” com a criança e poste fotos nas redes sociais.

“Uma dica se você tiver um bom relacionamento com o(a) ex é combinar de mandar por WhatsApp para o outro as fotos que você tirar da criança e vice-versa. Assim, ambos ficam a par da vida do filho sem necessariamente ter que monitorar redes sociais. Mas cuidado para a foto retratar apenas a criança e não você com seu ‘novo amor’”, aponta a psicóloga.

Também conversamos com Denise Figueiredo, psicóloga e sócia-diretora do Instituto do Casal, organização que se dedica a pesquisas e educação em relacionamentos e sexualidade humana. Ela aponta que, se a rede social for um problema para o casal, o ideal é deixar de seguir. “Deixando de seguir, a pessoa não precisa ver o que a outra está fazendo, mas caso precise de algo com urgência em relação aos filhos continuará a ter acesso. Como as redes sociais têm o intuito de deixar a vida como um “livro aberto”, a decisão de não participar desse livro é totalmente plausível”, afirma.

Denise reitera que existem casais que se dão bem com o/a ex e não se importam com isso, e tem outros com mais dificuldades em razão dos problemas que tiveram e desencadearam o fim do relacionamento: “No Instituto do Casal, a gente acredita que a autoestima está atrelada ao indivíduo e isso independente de seu relacionamento com o outro. Ele deve ser trabalhado primeiramente de forma individual, para depois colocar nas questões afetivas”.

Bloquear, excluir, deixar de seguir

Quando termina um relacionamento, há algumas opções do que fazer. Além de poder excluir, bloquear (para que ele não veja nada do que você está fazendo) ou deixar de seguir o ex apenas para não acompanhar as publicações dele, você pode simplesmente não fazer nada. Não é uma regra. O importante é perceber que há uma escolha a ser feita, e que essa escolha é apenas sua.

Para Cristian Cesar, de 21 anos, independente do que foi vivido, de como tudo acabou, há toda uma história por trás, o que faz com que ele evite bloquear a pessoa em questão. "Mas alguns não evitam e eu me sinto um pouco mal por ter sido bloqueado", conta. De quatro relacionamentos passados, três deles bloquearam-no em todas as redes sociais. "E às vezes eu queria fazer as pazes — fazer as pazes, que eu digo, é literalmente estar em paz com a pessoa — e eu estou bloqueado. Tem um ex meu que eu não tenho notícias há três anos”.

Entretanto, o próprio Cristian já viveu um relacionamento em que sua única saída foi bloquear. "Me frustra quando eu quero fazer as pazes, não quando eu não quero. Nesse caso específico foi uma pessoa que me machucou muito, e eu deixo no limbo até hoje porque guardo mágoas. Mas gostaria de ter todos os meus ex por perto, porque querendo ou não, eles me conhecem mais do que alguns amigos”.

Denise aponta que o fato de optar por excluir a pessoa das redes sociais após o término não é um problema. Se se sentir mais confortável em eliminar os vestígios da relação, isso é totalmente aceitável. Esse desejo depende de como esse casal lidava com esse relacionamento. Alguns optam por seguir adiante sem que as redes sociais sejam um problema e outros acham melhor essa exclusão. O que vale é estar feliz com essa escolha.

Adriana tem um ponto de vista semelhante. A doutora pondera que essa decisão é muito individual, e você pode restringir o acesso em vez de bloquear totalmente, por exemplo, mas depende muito do que cada rede social permite fazer em termos de privacidade e também do tipo de conteúdo que você costuma postar. Se você posta apenas fotos de comidas, por exemplo, não há motivos para bloquear o(a) ex, mas se tem o hábito de postar sua vida inteira talvez a melhor opção seja um "block bem dado", mesmo.

Quanto a desbloquear, com o passar do tempo você pode ou não mudar de opinião. No entanto, Denise alerta: “O problema de bloquear é que se há arrependimento depois fica uma situação chata para ser contornada. Já, caso o ex-casal opte por deixar de seguir na rede social e siga evitando stalkear um ao outro já é suficiente”.

O sentimento de posse

Stalkers

Uma coisa muito perigosa em um relacionamento (capaz de torná-lo abusivo) que pode inclusive continuar depois do término é o sentimento de posse, que acaba se fazendo presente por aquele ímpeto de ver, a todo momento, o que o(a) ex está fazendo. Maria Amélia Penido – Doutora em Psicologia Clínica e professora da PUC-Rio (e, por sua vez, a outra co-autora da obra Relacionamentos Amorosos na Era Digital) — reconhece que mesmo querendo sair de uma relação é difícil cortar o vínculo e a internet pode ser usada para monitorar a vida do outro, tornando-se uma ferramenta que alimenta um ciclo negativo.

A especialista pondera que não saber de nada, de fato, gera angústia. Assim, é tentador poder aliviar essa angústia por um simples clique, mas isso acaba se tornando negativo, pois cada vez que a pessoa sente a perda e a falta de controle sobre o outro, busca a Internet e alivia a emoção desagradável. Dessa forma, evita entrar em contato com a angústia por muito tempo, mas fica refém de continuar presa a uma relação que já acabou.

“O sentimento de posse só vai aumentar se continuar alimentando-o e é preciso aceitar que a relação acabou e que o outro não faz mais parte da sua vida. O importante é entender que esse comportamento precisa acabar. Ao tornar isso uma meta, vá gradualmente aprendendo a lidar com a angústia de outra forma, em vez de buscar na Internet informações do ex como primeira opção”, aconselha a doutora em psicologia.

Maria Amélia também orienta que, para aliviar a angústia, é bom tentar outras estratégias de regulação emocional. Na prática, ao invés de olhar a Internet, ligue para um amigo e peça ajuda para falar sobre seu sofrimento e receber apoio. Tente se distrair com outros interesses e busque lembrar o motivo do término e as razões pelas quais essa pessoa não deve estar mais em sua vida. Pode criar um cartão de enfrentamento para ler nesses momentos, resumindo os motivos para deixar o outro ir. Busque também focar na sua própria vida, distanciando-se cada vez mais da relação que acabou.

Denise diz que esse é um processo que deve ser modificado aos poucos. “Se a pessoa é muito curiosa e tende a querer controlar o parceiro ou parceira mesmo após o término, há medidas interessantes como deixar de seguir na rede, deletar da rede social e, o mais importante: se policiar para não stalkear o/a ex. Essa é uma escolha pessoal em que devem ser medidos os prós e contras”, aponta a profissional do Instituto do Casal.

No entanto, esse sentimento de posse pode não surgir de você, mas sim do outro, e é aí que mora o perigo. Há casos em que você exclui em todos os lugares possíveis, mas ele sempre te procura por outros meios, como SMS, por exemplo. Se esse for o caso, Denise aconselha: “Esse tipo de comportamento pode ser considerado abusivo. Caso isso aconteça e o diálogo não resolva com o/a ex, vale tomar medidas legais se for algo que esteja incomodando muito”.

Maria Amélia acrescenta que, se decidiu que a melhor maneira de lidar com o término do relacionamento é não se comunicar mais com o ex, foque em seu comportamento, uma vez que não pode controlar o outro. Se ele te procurar por um canal que não consegue bloquear, mantenha sua posição e não responda. Dessa forma, você passa uma mensagem clara e coerente de que não quer mais contato.

Redes sociais são vilãs?

É claro que as redes sociais são responsáveis por muitas mudanças na dinâmica das relações, tanto durante quanto depois do término. No entanto, não é justo atribuir toda a culpa às redes. Segundo o ponto de vista da Denise, as redes sociais e a tecnologia não vieram para estragar relacionamentos e, sim, para facilitar esses processos. Mas como muitas coisas que temos na vida, acabamos por usar o que é para o “bem” para o “mal”. O uso das redes sociais também exige certas condutas. Em um relacionamento, o casal pode avaliar a melhor forma de usar as redes sociais sem que comprometa questões afetivas, de confiança e que cause problemas.

Tanto é que você pode aproveitar as redes sociais para justamente superar o seu ex. Muitas pessoas, depois que terminam um relacionamento, costumam explorar mais hobbies pessoais, e por meio das redes sociais é possível encontrar cursos online, workshops diversos e, claro, explorar um conteúdo amplo que pode ser muito útil no processo. "Caso a pessoa queira pensar em se relacionar novamente, tem os sites e aplicativos de relacionamento que estão ganhando cada vez mais adeptos, e facilitam em razão da busca por perfis e afinidades", acrescenta Denise.

Para finalizar, Adriana diz que tudo depende de como é que as redes sociais são usadas. Se você usa a tecnologia e as redes sociais para ficar monitorando o(a) a ex, acompanhando todos os detalhes da vida do outro e se comparando constantemente, pare: é nocivo. Mas se usa as redes sociais para fazer novos amigos ou se reconectar com pessoas que você não vê a muito tempo, isso pode te ajudar a reduzir a sensação de solidão e perda. "A tecnologia de um modo geral também pode ser muito interessante para se dedicar a novos hobbies, fazendo cursos online, por exemplo, e desenvolvendo novos interesses", conclui a doutora.

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