Telefonefobia | Como lidar com a ansiedade de falar ao celular
Por Fidel Forato • Editado por Luciana Zaramela |

O medo de fazer ou receber ligações telefônicas recebe o nome de “telefonefobia”’. A ansiedade de falar ao telefone celular já foi observada, através de pesquisas, em escritórios comerciais e impacta especialmente os mais jovens. Em tempos de redes sociais e aplicativos de mensagem, como o WhatsApp e o Telegram, alguns usuários têm perdido a habilidade de falar em tempo real, mas especialistas explicam que a angústia pode ser trabalhada.
A ansiedade que envolve o falar ao telefone atinge as pessoas de diferentes formas, desde pedir uma pizza por delivery (sem usar o aplicativo) até agendar uma consulta médica (sem ajuda de um chatbot), passando por ligações inesperadas da família ou mesmo do trabalho.
É tentador falar que a angústia aos telefones é um problema exclusivo das novas gerações. Sim, eles podem ser mais afetados, já que quase sempre optam por conversas escritas, mas não são os únicos. Ainda em 1929, o poeta londrino Robert Graves escreveu sobre o medo associado ao uso do telefone. Para contextualizar, aquele era um tempo em que o celular nem existia.
A angústia de falar ao telefone afeta os trabalhadores
Em 2019, antes mesmo da pandemia da covid-19, a empresa Face for Business fez um pequeno estudo envolvendo 500 pessoas que trabalhavam em um escritório no Reino Unido. Dos entrevistados , 62% afirmaram sentir ansiedade antes de atender o telefone. Entre as explicações para esse sentimento, estavam:
- Não saber responder uma dúvida;
- Ficar em silêncio, sem saber o que dizer;
- Transmitir uma impressão negativa de si mesmo para o outro;
- Soar estranho ao falar.
Quando o recorte geracional é feito, a porcentagem muda bastante. Nesse momento, 76% dos millennials (os nascidos entre 1981 e 1996) relatam ansiedade, enquanto a taxa despenca para 40% com os baby boomers (entre 1945 e 1964). Apesar da discrepância, indivíduos dos dois grupos enfrentam a telefonefobia.
O que a telefonefobia causa nas pessoas?
Embora possa parecer uma angústia menor, Ilham Sebah, professora de psicologia da Royal Holloway University of London, explica que a pessoa com telefonefobia pode enfrentar diferentes sintomas emocionais ao lidar com esta situação, como se sentir extremamente nervoso ou ansioso antes, durante e depois da ligação.
A questão é que essa angústia também pode ter desdobramentos, causando manifestações no corpo do indivíduo. “Os sintomas físicos incluem náuseas, aumento da frequência cardíaca, falta de ar, tontura e tensão muscular”, explica Sebah em artigo para o site The Conversation.
Hipóteses que justificam a ansiedade ao telefone
Não existe um único conceito que justifique todos os casos desse tipo de fobia, de modo geral, são poucas as pesquisas que investigaram a questão com profundidade. Entre as hipóteses que justificam a angústia de falar ao telefone, está o medo de ser julgado.
"Na vida real, podemos ver se alguém está com uma cara de raiva ou confusa. Podemos obter essas dicas [através da visão]", afirma Alison Papadakis, professora da Johns Hopkins University, para o site Science Focus. Na hora da chamada, essa leitura corporal é impossível de ser feita.
Por outro lado, "ao telefone, você pode ouvir [sem nenhum motivo aparente] um silêncio mortal. Se você está ansioso, vai preencher esse momento [de espera] com pensamentos negativos. E isso pode ser estressante", acrescenta Papadakis.
Além disso, “muito de como nos apresentamos agora é online, então as pessoas estão acostumadas a oferecer uma versão com curadoria de si mesmas", pontua Papadakis. "Isso significa que pode ser mais difícil para os jovens perceberem que, em uma conversa telefônica, você pode não ter o controle da situação", complementa.
Aqui, também vale destacar que as ligações telefônicas estão menos usuais hoje, sendo voltadas para casos de emergência e, consequentemente, envolvem questões negativas. Se o seu gerente liga no meio da tarde, sem ter escrito um e-mail ou uma mensagem antes, é quase certeza que precisará lidar com um problema de trabalho. O mesmo vale para ligações familiares inesperadas. É possível que a pandemia da covid-19 tenha piorado ainda mais essa relação.
3 exercícios para controlar a telefonefobia
"É fácil adiar ou evitar completamente as ligações quando você está se sentindo ansioso, mas quanto mais você procrastina, pior a ansiedade tende a ficar”, afirma Sebah. Então, tente ao máximo resolver sua tarefa rápido e não enrolar (por minutos ou horas) se precisar falar ao telefone.
Para lidar com a ansiedade da telefonefobia, existem alguns exercícios práticos também. O primeiro deles é se expor ao problema, ou seja, treine e encare o medo fazendo ligações curtas para pessoas conhecidas. Assim, o indivíduo consegue trabalhar as suas angústias. Vale também treinar atendendo ligações do telemarketing — tenho certeza que deve receber algumas por dia.
Quando o medo do telefone envolve não saber o que falar, uma boa ideia é fazer algumas anotações de quais tópicos ou assuntos se deseja conversar naquela chamada. Isso vai guiar toda a conversa, podendo aliviar parte da angústia,
Por fim, é importante não se levar tão a sério. Normalmente, o ser humano superestima o quão relevante ele é. No dia a dia, ninguém tem tempo de ficar pensando “nossa, como aquela pessoa fala estranho”. Pense no que precisa ser feito, e faça, sabendo que os comportamentos “vergonhosos” são mais perceptíveis para a sua própria percepção do que para os outros. Agora, já pode tentar ligar para alguém.
Fonte: Science Focus, The Conversation e Face for Business