Pesquisa aponta que a tecnologia não faz tão mal às crianças quanto pensam

Por Nathan Vieira | 27 de Janeiro de 2020 às 09h35
Southern Living/ Getty Images

Na última semana, o jornal norte-americano The New York Times chamou atenção para uma pesquisa que vai contra o que normalmente se pensa a respeito da relação entre crianças e a tecnologia — algo até mesmo debatido pelo Canaltech nesta matéria especial. O caso é que, de acordo com o senso comum (e com a opinião de muitos profissionais, é claro), muito tempo gasto em smartphones e mídias sociais é responsável pelo aumento na ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental, especialmente entre crianças e jovens.

No entanto, pesquisadores acadêmicos produziram estudos que sugerem que essa linha de pensamento está equivocada.  A pesquisa mais recente, publicada no último dia 17 de janeiro por dois professores de psicologia norte-americanos, analisa cerca de 40 estudos que examinaram a ligação entre o uso de mídias sociais e depressão e ansiedade entre crianças e jovens. De acordo com os autores da pesquisa, essa relação é quase inexistente. "Parece não haver uma base de evidências que explique o nível de pânico e consternação em torno desses problemas", afirmou Candice L. Odgers, professora da Universidade da Califórnia e principal autora do artigo.

Pesquisa aponta que a tecnologia não faz tão mal às crianças quanto pensam

Acontece que o debate sobre os danos da tecnologia e dos smartphones é geralmente baseado na suposição de que os aparelhos representam um risco significativo para a saúde mental. A intenção desses pesquisadores norte-americanos não é, necessariamente, levantar que o uso intensivo de telefones não importa - já que as crianças que passam muito tempo no telefone podem perder outras atividades valiosas para seu desenvolvimento, além da possibilidade de agravar os problemas de certos grupos vulneráveis, como crianças que já possuem saúde mental delicada -, mas sim desafiar uma crença generalizada de que as telas são responsáveis ​​por amplos problemas sociais, como o aumento das taxas de ansiedade e privação de sono. Segundo afirmações dos próprios pesquisadores, o smartphone é apenas um espelho que revela os problemas que a pessoa teria mesmo sem ele.

"O atual discurso dominante sobre telefones e bem-estar é muito exagerado e muito intimidador. Mas se você comparar os efeitos do seu telefone com uma alimentação adequada, dormir ou fumar, não chega nem perto", disse Jeff Hancock, fundador do Stanford Social Media Lab, em entrevista ao The New York Times. 

O debate sobre os danos da tecnologia e dos smartphones é geralmente baseado na suposição de que representam um risco significativo para a saúde mental

Os pesquisadores argumentam que o aumento da depressão levou os adolescentes ao uso excessivo de telefone em um momento em que havia muitas outras explicações em potencial para depressão e ansiedade. Além disso, as taxas de ansiedade e suicídio parecem não ter aumentado em grande parte da Europa, onde os telefones também se tornaram mais prevalentes. "E as mudanças climáticas? E a desigualdade de renda? Existem tantos problemas estruturais gigantes que têm um enorme impacto sobre nós, mas são invisíveis e não estamos olhando”, argumenta Hancock. Odgers acrescentou que não estava surpresa por as pessoas terem dificuldade em aceitar suas descobertas e reconheceu que estava relutante em dar mais tempo aos dois filhos nos iPads.

Fonte: The New York Times

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.