O paradoxo da agilidade: quando acelerar demais pode aumentar o risco em cibersegurança
Por Especialistas Convidados | •
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*Por Marcelo Mussi
A pressão por acelerar entregas nunca foi tão intensa nas áreas de tecnologia. Inovar continuamente, reduzir o time to market e digitalizar produtos deixaram de ser diferenciais e se tornaram exigência mínima para continuar competindo. O que raramente aparece com a mesma clareza é o efeito colateral desse movimento. À medida que a velocidade aumenta, o risco cresce junto, e quase sempre em silêncio.
Dados recentes do World Economic Forum mostram que mais de 70% das organizações perceberam aumento no risco cibernético, enquanto mais de 40% relataram ataques bem-sucedidos em um único ano. O ponto central não está apenas na evolução das ameaças, mas na forma como as empresas aceleram seus processos sem fortalecer suas bases.
A busca por entregas mais rápidas é legítima, mas frequentemente surge num contexto em que as iniciativas digitais já não entregam o valor esperado. Segundo o Gartner, cerca de 40% dessas iniciativas não atingem seus objetivos de negócio. O efeito é o acúmulo de débitos técnicos não resolvidos antes do deploy. O Forrester aponta que 79% dos líderes de tecnologia convivem com esse cenário, parte em níveis críticos. Em cibersegurança, esse acúmulo se manifesta em padrões conflitantes, janelas de correção menores e exceções que corroem controles e a capacidade de resposta.
Inteligência artificial, microsserviços, cloud híbrida e APIs abertas trouxeram ganhos reais de escala, mas fragmentaram o controle e expandiram a superfície de ataque.
O modelo tradicional de perímetro já não responde sozinho aos desafios atuais. Em seu lugar, surge um ecossistema distribuído, no qual a responsabilidade é compartilhada entre equipes internas, fornecedores e plataformas. Cada nova integração adiciona valor, mas também introduz novos pontos de vulnerabilidade.
Sob pressão por entregas, decisões passam a favorecer a velocidade, muitas vezes à custa de ajustes técnicos e validações de segurança. Os impactos desse cenário vão além da tecnologia. Eles afetam diretamente a estrutura da organização.
APIs expostas, containers efêmeros e integrações com terceiros ampliam significativamente as possibilidades de ataque. Segundo a organização internacional Open Worldwide Application Security Project (OWASP), falhas em controle de acesso e exposição de APIs estão entre as principais causas de incidentes críticos em aplicações modernas.
A descentralização exige uma nova governança de segurança
Esse cenário também reflete mudanças na governança. Modelos ágeis descentralizam decisões e aumentam a autonomia dos times. Embora isso acelere entregas, reduz o controle sobre padrões de segurança. Diretrizes passam a ser vistas como barreiras, levando a uma aplicação inconsistente de controles. A dependência de terceiros amplifica ainda mais esse desafio: o World Economic Forum aponta que 65% das grandes empresas consideram vulnerabilidades na cadeia de suprimentos seu principal obstáculo para alcançar resiliência. Quando a entrega depende de múltiplos parceiros, a discussão deixa de ser operacional. Ela se torna estratégica.
O risco cibernético já não é tema restrito à área técnica, ele influencia receita, reputação e valor de mercado. O custo médio global de incidentes ultrapassa 4 milhões de dólares por evento.
Em setores altamente digitalizados, como o financeiro, essa exposição se torna ainda mais evidente. A expansão do open banking acelerou a inovação, mas também ampliou os pontos de vulnerabilidade. Integrações com fintechs e terceiros frequentemente se tornam portas de entrada para ataques mais amplos.
Dados do National Institute of Standards and Technology (NIST) mostram que mais de 60% das vulnerabilidades exploradas já eram conhecidas, mas não foram corrigidas a tempo. O problema não está apenas na tecnologia disponível, mas nas decisões de priorização.
Como equilibrar inovação, agilidade e resiliência
Diante desse cenário, a forma de tratar cibersegurança precisa evoluir. Não se trata mais de adicionar controles ao final do processo. O desafio está em integrar segurança desde a concepção das soluções. Os conceitos de security e privacy by design deixam de ser uma recomendação e passam a ser uma necessidade estrutural.
Para a liderança, as perguntas tornam-se centrais: a organização conhece, de fato, sua superfície de ataque? O risco acumulado é compreendido ou apenas presumido? A velocidade atual está sustentada por uma base resiliente?
Em uma realidade em que a transformação digital é irreversível, a maturidade em segurança se torna um indicador direto da sustentabilidade do negócio. A agilidade continuará sendo essencial. Mas, sem uma base sólida, pode se tornar exatamente o oposto do que se busca: um fator de risco.
O Podcast Canaltech já tratou deste tema em um dos seus episódios. Confira como empresas e usuários devem se proteger de ameaças digitais.