O fim do SaaS tradicional? Por que o mercado está parando de pagar por licenças
Por Especialistas Convidados |

*Cesar Sponchiado
Imagine contratar um funcionário que nunca abre um software. Ele não acessa o CRM, não entra na plataforma de mídia nem consulta dashboards de analytics. Ainda assim, prospecta clientes, cria campanhas, otimiza investimentos em anúncios, responde consumidores e atualiza sistemas automaticamente.
Essa ideia começa a ganhar forma com a ascensão dos sistemas agênticos baseados em inteligência artificial. Em vez de profissionais navegando por interfaces e ajustando parâmetros em diferentes plataformas, agentes podem receber um objetivo e coordenar automaticamente as ferramentas necessárias para alcançá-lo.
O SaaS tradicional dominou a era do software em nuvem justamente por transformar programas em serviços recorrentes e acessíveis. Em vez de comprar licenças e instalar sistemas, empresas passaram a assinar plataformas para organizar dados, automatizar processos e ampliar a produtividade das equipes. CRMs, ferramentas de analytics, plataformas de marketing e sistemas financeiros se tornaram parte da infraestrutura da economia digital.
Mas todos partiam da mesma premissa de que o software dependia de pessoas operando interfaces.
O software corporativo entra em uma nova fase
Os sistemas agênticos começam a alterar essa dinâmica. Em vez de apenas ajudar profissionais a trabalhar melhor, eles conseguem planejar e executar tarefas dentro de diferentes plataformas. Isso já começa a aparecer em áreas como marketing e publicidade, onde grande parte do trabalho ainda consiste em operar sistemas e ajustar plataformas, como configurar campanhas, redistribuir orçamento, testar criativos, monitorar métricas e gerar relatórios.
Quando parte dessas atividades passa a ser automatizada por agentes, o impacto não é apenas operacional. Ele também afeta o próprio modelo econômico do software. Por um bom tempo, o SaaS tradicional foi construído sobre uma lógica simples de cobrar por usuário. Quanto mais pessoas dentro da empresa utilizando uma plataforma, maior a receita do fornecedor. Era um modelo previsível em um mundo em que o software ampliava a capacidade humana.
Mas quando a inteligência artificial automatiza o trabalho de várias pessoas, cobrar por assento deixa de refletir o valor real gerado. Em alguns casos surge até um paradoxo: quanto mais eficiente a automação, menos usuários humanos precisam acessar o sistema.
Por isso, novos modelos de monetização começam a surgir.
Um deles é o usage-based pricing, no qual o cliente paga pelo consumo de inteligência artificial, incluindo os tokens, chamadas de API ou tarefas executadas. Outro caminho é o modelo híbrido, que combina uma assinatura base com cobrança adicional pelo uso de recursos de IA.
Mas o movimento mais relevante está nos modelos baseados em resultado. Nessa lógica, a cobrança passa a refletir o que o sistema entrega. Em marketing, por exemplo, isso pode significar pagar por campanhas otimizadas, leads gerados ou vendas atribuídas, não apenas pelo acesso à plataforma usada para operar essas atividades.
Essa mudança também ajuda a distinguir dois tipos de inteligência artificial que começam a coexistir no software corporativo. A IA assistiva, que acelera o trabalho humano, tende a ser cobrada pelo uso. Já a IA agêntica, que executa tarefas de forma autônoma, tende a ser monetizada pelo valor que entrega.
Isso não significa que as empresas de SaaS tradicional vão desaparecer. Muitas continuam em posição privilegiada porque já controlam dados, distribuição e acesso aos fluxos de trabalho corporativos. O que muda é o centro de gravidade do produto.
No software corporativo, a competição sempre esteve na interface: dashboards melhores, integrações mais amplas, relatórios mais completos. Na lógica agêntica, o diferencial passa a estar na capacidade de automatizar decisões e coordenar sistemas.
Essa mudança não é apenas tecnológica. Ela começa a redefinir o próprio papel do software dentro das empresas. É por isso que, no Vale do Silício, começa a circular um novo enquadramento para essa transformação, o Service-as-Software.
Se o SaaS tradicional vendia software como serviço, a nova geração de empresas começa a vender o próprio serviço por meio do software. Essa é a inversão do SaaS.