Oscar 2018 | Quem vai ganhar o prêmio de Melhor Filme? O Canaltech comenta

Por Sihan Felix | 04 de Março de 2018 às 17h30
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Lá vem o Oscar 2018! Vêm com ele as apostas, os bolões, as discussões intermináveis sobre qual é o melhor entre os indicados, quais são os injustiçados e as teorias sobre as indicações daqueles filmes que acreditamos que são superestimados.

Eu, por exemplo, jamais me esqueci do Oscar de 1998, quando a atuação vazia da Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado venceu o trabalho irretocável de Fernanda Montenegro por Central do Brasil. O filme sobre (com aspas em negrito) o poeta, dramaturgo e ator inglês ainda venceu como Melhor Filme, no que foi uma noite traumática para mim. Eu, à época um adolescente amante de cinema que não imaginava que faria dessa arte o meu trabalho, fiquei com aquilo guardado na memória. Sem acesso à internet na periferia e somente com TV aberta, via o Oscar como o último grau de qualidade. O único, já que eu nem sabia da existência de outros. Ficava matutando, por exemplo, por que Mudança de Hábito não havia concorrido ao Oscar de 1993.

Se quando criança eu já havia sido apresentado a muitos dos clássicos através das superprocuradas locadoras de VHS, foi em 1998 que passei a discutir com alguma profundidade sobre o que faz um filme alcançar um status de premiável. Como um filme tão divertido, encorajador e transgressor como aquele protagonizado por Whoopi Goldberg era rechaçado e outro sem sal ou açúcar vencia “a melhor das premiações”? Uma cantora de cabaré negra que se tornava uma falsa freira para fugir dos seus algozes era a heroína de minha infância. Então, ver Viola De Lesseps (Paltrow), uma insossa, com muito mais poder fazia eu não conseguir entender quais eram os pontos qualitativos.

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A verdade é que as qualidades existem, mas premiações são políticas – especialmente quando estamos falando das mais caras delas. Transmitir o Oscar, por exemplo, só não é tão caro quanto transmitir o Super Bowl. São cifras hiperbólicas. Milhares e milhares por cada hora de transmissão. E se há muito dinheiro envolvido, é mais do que óbvio que há política. Nem falo de políticos, mas da política em si. A qualidade está em primeiro plano, mas, logo após ela, nos desempates, vencem (ou são indicados) aqueles filmes que tiverem mais fôlego: é panfletagem, propaganda, criação de hype, momento histórico-político-social – o que inclui até a relação dos EUA com outros países. Porque, claro, o Oscar é uma premiação do cinema americano – tanto é que chamamos de “filmes estrangeiros” os filmes que não são produzidos na terra do Tio Sam. Em 1998, por exemplo, Central do Brasil concorria por lá como filme estrangeiro. E, por aqui, eu via muitos colegas referindo-se ao filme como estrangeiro de fato, o que sempre me fazia estranhar.

Mas divago... Vamos ao Oscar 2018 afinal, mais especificamente à sua categoria principal: Melhor Filme. Qual é o seu preferido? E a sua aposta? Consegue separar esses dois conceitos? Confesso que às vezes torcemos tanto para algum filme que só enxergamos a possibilidade de ele vencer tudo e, quando ele perde, há algo errado no mundo.

“Vem, meteoro!”

A verdade é que decidir entre tantos bons filmes parte para questões subjetivas muitas vezes. O cinema não é uma matéria exata. Não existem artes exatas (e olhe que às vezes vejo cálculos que me fazem acreditar que essa afirmação é bem injusta). Lembro bem do Oscar de 2008 e o embate histórico entre Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez. Enquanto o primeiro é, até hoje, o melhor filme do século XXI para mim, o segundo é tão incrível que não me senti ludibriado quando levou a estatueta principal para casa. No ano passado, a loucura do final da premiação passou o prêmio de La La Land: Cantando Estações (que era meu favorito) para Moonlight: Sob a Luz do Luar, que era tão bom quanto e, ao mesmo tempo, completamente diferente. Nesse caso, uma premiação mais do que justa, visto o momento histórico-político-social.

Talvez eu esteja divagando novamente. Pois vamos, de fato, aos filmes de agora:

Três Anúncios para um Crime

A disputa parece estar centrada neste filme de Martin McDonagh e em A Forma da Água (de Guillermo del Toro). É verdade que ele surge como um filme raro de se ver: é de um humor negro brilhante, de diálogos extremamente bem escritos e de um senso de realidade tão sofrido que faz refletir. Além disso, a direção é tão contida e trabalha tanto a favor da estrutura do roteiro que seu maior mérito está em não aparecer, em não afogar a história em maneirismos ou elucubrações prepotentes. McDonagh consegue extrair atuações mais do que satisfatórias de todo o elenco, especialmente de Frances McDormand (que deve vencer como Melhor Atriz) e Sam Rockwell (que deve vencer como Melhor Ator Coadjuvante).

Aliás, o filme já levou prêmios importantes demais para serem esquecidos nessa corrida, como o Screen Actors Guild e o Critics’ Choice Awards de Melhor Elenco. Claro, além do badalado (mas menos importante na avaliação da qualidade) prêmio principal no Globo de Ouro. Se vencer, será uma ode e uma homenagem ao cinemão hollywoodiano de outrora. O que é ótimo, mas também pode atrapalhar pela necessidade de renovação e de parecer atual da Academia, o que deixaria o prêmio nas mãos do...

A Forma da Água

É um feito histórico de pequena escala vermos uma fantasia entre os indicados a Melhor Filme e de larga escala se juntarmos à noção de que é o favorito. Não é para menos. Apesar de o roteiro cometer deslizes pouco convincentes, como revelar que a criatura misteriosa fora encontrada nos confins da Amazônia e venerada como um deus pelos locais para depois construir todo o conceito de que ela não sobrevive fora da água salgada, o filme de Del Toro acerta em cheio nas ditas questões histórico-político-sociais.

Se é uma homenagem ao cinema clássico e aos filmes de monstros é, também, um grito por liberdade e igualdade entre raças diferentes e um apelo inestimável por todas as minorias. Da faxineira muda, passando por um idoso que tem a sua homossexualidade reprimida e por uma faxineira negra até chegar no homem-anfíbio, tudo é uma representação tão eficaz (por mais que seja caricata) que as falhas do roteiro são quase que zeradas e o Oscar de Melhor Diretor fica muito perto das mãos do mexicano. E, caso ele vença (o filme ou o diretor – ou ambos), será algo incrível e uma resposta política em meio a um governo que pensa em construir muros no lugar de pontes (ressaltando ainda mais a nacionalidade de Del Toro).

Tecnicamente impecável, o Oscar estaria em boas mãos, por mais que (repito) o roteiro precise ser duramente criticado (e não indicado como está). Essa questão deve passar batida, já que a ignorância quanto à nossa região parece ser normal para muitos por lá – que ainda acreditam que se fala espanhol no Brasil. Por ter vencido o Critics’ Choice Awards e o Prêmio do Sindicato dos Produtores da América (PGA) – termômetros importantes – ele tornou-se o favorito na corrida. Levando-se em consideração a temática e tudo que o envolve, pode ser a aposta mais certa.

Dunkirk

Além de ser um filme extremamente técnico, provavelmente o que melhor explora o som no cinema desde sempre, Dunkirk tem uma produção inteligente e um diretor (Christopher Nolan) que cada vez mais parece buscar um cinema que tem como arte a mente e não o coração (nem mesmo uma mescla). Lançado no verão americano, uma época incomum para obras que pretendem alçar voos altos como categorias mais badaladas no Oscar por ficar distante do período de campanha (voltamos à política), o filme reinou soberano durante meses. Foi o mais analisado, criticado, explorado e festejado até o lançamento dos concorrentes.

É, de fato, uma experiência incrivelmente bem planejada para a sala de cinema. Entra no hall dos filmes que só quem viu no cinema saberá falar sobre a real sensação (tive essa sorte). Passa a ser referência para filmes de guerra, mas perde pontos fundamentais por não construir qualquer ligação de afeto ou identificação dos personagens com o público. Deverá abocanhar especialmente as categorias de som (Edição e Mixagem). E não irá muito mais longe nesse Oscar.

Corra!

Além da fantasia de A Forma da Água, outro gênero que aparece com baixíssima frequência entre os principais indicados é o terror. De fato, Corra! tem o que há de melhor no gênero: um roteiro bem pensado que reflete no ar ambíguo e no crescente suspense. Tudo isso vem envolto em uma narrativa que questiona diversos padrões sociais, especialmente o óbvio racismo.

Impressiona, ainda, a direção eficiente de Jordan Peele – perceba (ou lembre-se) o quanto ele insiste em não cortar a cena só para que o público se alimente da tensão (reflexo da boa montagem também) –, a atuação intensa de Daniel Kaluuya (que voltou a ter um bom desempenho em Pantera Negra apesar do personagem frouxo, W’Kabi) e o baixo orçamento: US$ 4,5 milhões. Se pensarmos que Dunkirk custou US$ 100 milhões, o orçamento de Corra! é superlativamente baixíssimo. E não é o mais baixo dessa corrida. Esse título é do...

Me Chame pelo seu Nome

A sensação pós-filme causada por Me Chame Pelo Seu Nome é rara. Apesar de possivelmente causar alguma estranheza ao público acostumado com o cinema americano por ter uma linguagem diferente dos demais concorrentes (afinal, trata-se de um diretor italiano com personalidade própria), o filme tem o poder de inserir os sentimentos mais bonitos naqueles que o assistem. A partir dessa inserção, passa a depender de cada um a sua forma de agir.

Repleto de referências às heranças da arte clássica, o roteiro adaptado torna-se uma ferramenta humana e, sobretudo, política (de novo). Das esculturas militares que se debruçam no alto com ar de autoritarismo aos monumentos católicos, Luca Guadagnino fala visualmente sobre opressão. Não há, por outro lado, uma cena que não possa ser ligada a grandes clássicos do cinema europeu do século passado. E, mesmo sendo tão bem construído em cima de referências (que vão muito além do roteiro adaptado), o mais significativo do filme são suas questões internas: a maturação dos seus dois personagens principais e as emoções despertadas a partir da história deles.

A química entre Oliver (Armie Hammer) e Elio (Timothée Chalamet) é, sem dúvida, o motor que move o filme e a atuação de Chalamet é das mais sensíveis dos últimos anos. Não vencerá, mas, pessoalmente, é o meu favorito entre os indicados. Com alguma folga sobre...

Trama Fantasma

Na introdução, comentei que Sangue Negro é, para mim, o melhor filme realizado no século XXI. Também dirigido por Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma tem o mesmo ar denso e encorpado, apesar de mostrar um mundo extremamente diferente. Além de ser o filme de despedida de um dos maiores atores da história do cinema (Daniel Day-Lewis disse que entraria em uma aposentadoria definitiva após as filmagens), há a atuação impressionante Vicky Krieps (Alma – sim, pode interpretar o nome da personagem como óbvio mesmo) e a direção sempre magnética de P.T.A.. Diretor de estilo único, ele provoca (e consegue) a entrada do público na arte da alta costura. É um deleite para os olhos, outro sopro de amor da parceria P.T.A. e Day-Lewis pelo cinema e um filme que merece ser visto por mais que esteja fora de boa parte do circuito comercial.

Lady Bird: É Hora de Voar

Li de um amigo crítico há alguns dias que Lady Bird: É Hora de Voar trata-se de uma “ode ao cotidiano”. É filosoficamente impossível discordar dessa afirmação. Os que não gostaram, dizem que o filme é comum, normal, nada surpreendente, parece um dia-a-dia “sem quê” e nem “pra quê”. Os que gostaram gostam pelo mesmo motivo. É daí que a diretora Greta Gerwig parte (e acerta): identificação é fundamental no cinema.

Você dificilmente vai gostar de um filme que o diretor não consiga te causar identificação através dos seus personagens. A mesma identificação que falta em Dunkirk há de sobra por aqui. Se você não acompanha a personagem título (vivida por Saoirse Ronan – que ainda não consigo pronunciar direito), você se sentirá representado por Marion (Laurie Metcalf, a mãe). Se não se vê nelas duas, vê-se como você mesmo, alguém que poderia ser próximo a elas. São pessoas diferentes e que “soam” como comuns a todos nós. A habilidade de Gerwig está, justamente, em juntar esses nossos mundos e tentar (pelo menos tentar) nos fazer crer que nosso cotidiano merece nossa própria “ode”. Temos nosso lirismo diário e ele só é efetivo quando damos nossos voos. A cada bater de asas, uma nova satisfação.

O Destino de uma Nação

Se é um dos filmes que correm mais por fora da disputa, isso se deve à direção engessada de Joe Wright. Mas essa afirmação é tão ambígua quanto a personalidade de Winston Churchill. Enquanto o estadista era forte, um homem de impactos, Wright parece ter procurado traduzir essa personalidade em visual. Esse engessamento ideológico, por outro lado, possibilita a construção de uma fotografia repleta de luzes duras (essas que são dirigidas diretamente ao objeto desejado), que resultam em sombras tão fortes quanto, traduzindo toda a dubiedade do discurso político de Churchill e seu conservadorismo.

É um filme válido, britânico acima de qualquer coisa, que merece ser visto e que, enfim, possibilitará a Gary Oldman o seu mais do que merecido primeiro Oscar – é o que tudo indica ao menos.

The Post: A Guerra Secreta

Quando assisti, vibrei ao ver Meryl Streep surgindo para contracenar com Tom Hanks. São meus heróis de infância e adolescência dirigidos pelo diretor que contornou minha década de 1980 e 1990, o mesmo diretor que é parceiro do compositor de trilhas que mais admirei até conhecer Ennio Morricone de perto. Mesmo assim, a soma de todos os fatores não foi positiva.

Apesar de Streep e Hanks estarem competentes como sempre, Spielberg parece ter perdido a mão. Comecei a imaginar o Spielberg atual como sendo uma criança que tem tantos porquês que o próprio porquê perde o sentido. No caso do diretor, são as explicações exageradas. Spielberg deixa seu filme tão didático que acaba por construir uma obra quase válida de denúncia, mas que falha justamente como denúncia por ser tão parcial. Isso resulta em um Washington Post como mocinho irretocável e um New York Times como vilão caricato. Junta-se um irreconhecível John Williams e sua trilha genérica, dessas que trazem a sensação de termos a escutado em filmes demais, e temos um filme que só justifica a indicação por ter uma equipe tão respeitada e admirada pela Academia.

E então? Qual é o seu filme favorito? Qual você acredita que irá vencer? Por quê? Vamos debatendo porque, apesar de ser uma premiação essencialmente política (última menção), movimenta o cinema, o que a torna essencialmente válida!

O meu favorito seria este (que não está indicado a categoria alguma e custou módicos US$ 100 mil):

Ou este (que está indicado em cinco categorias e deve vencer pelo menos na de Melhor Fotografia – louvaminhado seja Roger Deakins):

Bons e ruins filmes para nós! 

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