Crítica | Yesterday — Um mundo sem Beatles seria um mundo infinitamente pior

Por Rui Maciel | 29 de Agosto de 2019 às 10h56
Universal Pictures

Você pode até não gostar de Beatles (sim, estou te julgando por isso), mas um fato é inegável: a banda formada por Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr é a mais influente da história da música e moldou muita coisa que ouvimos até hoje — incluindo, muito provavelmente, artistas que você gosta. Logo, é até estranho notarmos que não há tantos filmes sobre o grupo mundo afora quanto deveria. Principalmente em Hollywood.

Depois do musical Across the Universe (2007), agora é a vez de Yesterday explorar o universo do quarteto britânico. E com uma premissa instigante: como seria um mundo sem os Beatles? Para responder a isso, o longa conta a história de Jack Malick (Himesh Patel), um aspirante a músico que divide seu tempo entre shows que ninguém vê e um emprego como estoquista em um supermercado. Desiludido com a carreira artística, ele está prestes a abandoná-la, quando sofre um acidente de trânsito, causado por um apagão global. Ao acordar, ele descobre que está em um mundo em que os Beatles e suas canções nunca existiram. Apenas ele conhece as letras e as melodias das músicas.

Com isso, Malick faz o que qualquer um na posição dele faria: se apropria da obra do Fab Four e, ao ser descoberto por Ed Sheeran (em uma participação divertida, interpretando ele mesmo), “suas” composições começam a explodir mundo afora. Com isso, desenrola-se uma jornada de sucesso, fama, culpa e amor.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers.

Claro que algumas pessoas podem julgar Malick por ele ter tomado para si tantas boas músicas. Mas, na realidade que se apresentou a ele, quem pode culpá-lo? E não seria mais condenável que ele simplesmente abrisse mão de tudo isso, privando o mundo de algumas das mais belas canções já feitas, como Hey, Jude (ou Hey, Dude?), I Wanna Hold Your HandLet It Be, Yesterday, Something, In My Life, The Long And Winding Road, entre tantas outras?

A partir daí o filme se envereda em dois caminhos: a jornada pelo sucesso de Malick, que nunca é completa — na verdade, é bem reticente — devido à baixa autoestima do protagonista, uma certa culpa e aquela ansiedade que alguém possa desmascará-lo e a história de amor entre o protagonista e Ellie Appleton (Lily James, com quem você quer casar em cinco minutos de filme), sua melhor amiga e empresária e que é apaixonada por ele desde sempre.

Jack Malik e a tarefa de "apresentar" os Beatles ao mundo (Imagem: Universal Studios)

No desenrolar dessas duas histórias paralelas, Yesterday apresenta sua maior fraqueza e sua maior qualidade. O ponto fraco fica por conta da ausência de um melhor desenvolvimento sobre o impacto que as músicas dos Beatles causam em quem as ouve pela primeira vez e como elas fazem do mundo um lugar melhor. Com exceção da “pesquisa” de Malick em alguns pontos de Liverpool que inspiraram algumas canções e um discursinho “má o meno” depois de um show, a aparição dos hits é rápida, rasteira e um tanto atropelada. Você não tem tempo suficiente para curtir cada uma delas e já é atropelada por outras. A principal razão dessa pressa é, talvez, o estilo acelerado de Danny Boyle, diretor do filme que está mais acostumado a um ritmo “na quinta marcha”, como ficou evidente em outras pérolas como Trainspotting, Extermínio, Quem Quer Ser um Milionário e Steve Jobs. Ainda assim, sua direção é segura o suficiente para que ele não perca a mão do longa.

No entanto, Yesterday vai muito bem, obrigado, como uma história de amor. Nessa hora, vemos que o roteiro de Richard Curtis (Simplesmente Amor, Um Lugar Chamado Notting Hill, Quatro Casamentos e Um Funeral) entra em cena e toma conta. A química entre Jack e Lily é ótima, as cenas em que eles discutem a relação são sinceras e, claro, as piadas pinçadas em pequenas situações (a cena da batata frita na estação de trem é impagável) fazem jus ao mais refinado humor britânico. E, evidentemente, não poderia haver trilha sonora mais apropriada para embalar esse romance.

Que alguém olhe para você como a Lily olha para o Jack (Imagem: Universal Studios)

No frigir dos ovos, na hora de privilegiar uma história ou outra, Yesterday opta por ser um romance. Claro que essa escolha pode frustrar aqueles que esperavam algo mais, digamos, acadêmico e apoteótico sobre o impacto das músicas dos Beatles no planeta. No entanto, o filme presta uma homenagem sincera à importância da banda mundo afora — o que inclui um encontro muito legal entre Malik e um certo personagem — e mostra que o legado de John, Paul, George e Ringo ainda tem muita lenha para queimar. E, ao escolher a história de amor, ainda assim, o longa mostra como as canções do quarteto de Liverpool tornam tudo ainda mais especial.

Sem dúvida, um mundo sem Beatles seria um mundo infinitamente pior.

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