Crítica | Vivarium nos convida a pensar sobre nossos próprios viveiros

Por Laísa Trojaike | 15 de Abril de 2020 às 09h19
Saban Films

Depois de vencer em quatro importantes categorias do Brooklyn Horror Film Festival com o filme Sem Nome (2016), o diretor Lorcan Finnegan deixou o indie um pouco mais pop, mas nem por isso menos estranho, no seu segundo longa-metragem, Vivarium. O roteiro de Garret Shanley, que também escreveu o filme anterior de Finnegan, não tem facilitadores para o espectador, que é obrigado a montar o quebra-cabeça e dar sua própria versão dos fatos.

Não subestimar a inteligência do espectador é uma característica que agrada: a liberdade interpretativa faz notar o quão importante é o que temos a pensar e que isso é tão importante quanto a obra em si e quanto o que o realizador quis transmitir (mesmo que ele jamais revele seus intuitos e decisões criativas).

Atenção! A partir daqui a crítica pode conter spoilers.

O que é, o que é?

Vivarium apresenta a história de um casal que, ao ir visitar um imóvel, acaba ficando preso em um conjunto habitacional no qual todas as casas são iguais e do qual é impossível fugir. Quem são os seres que os prenderam ali? Qual a origem deles? O que pretendem com isso? Cabe ao espectador preencher as lacunas com a própria imaginação.

Meu background me diz que são alienígenas, com conhecimento e tecnologia suficiente para lidar com múltiplas dimensões, mas ainda em estágio de compreender como funcionam os humanos. Algo como uma versão rudimentar do que viriam a ser as criaturas de Eles Vivem (1988, John Carpenter), uma versão alternativa de um ataque alienígena: ao invés de invadir a Terra com naves gigantescas e destruindo tudo, talvez seja mais proveitoso usar os humanos, ir se infiltrando aos poucos para dominar e tomar o poder.

Imagem: Saban Films

A ideia de que outras criaturas tomariam a nossa forma para viver entre nós não é nova e pode ser encontrada também em Invasores de Corpos (1978, Philip Kaufman) e até mesmo em Marte Ataca! (1996, Tim Burton). Todos esses filmes têm algo em comum: de todas as características humanas, as emoções sempre parecem ser algo genuinamente nosso e impossíveis ou difíceis de serem mimetizadas. Em Vivarium, a criatura tem aspecto humano, mas parece não se comportar como um, como se fosse incapaz de reproduzir nosso modo de sentir e reagir, precisando recorrer constantemente à imitação.

Imitar, por outro lado, é algo bastante humano, sobretudo no que diz respeito ao aprendizado: crianças aprendem imitando (por isso o cuidado necessário com as realidades às quais serão expostas durante seu período de formação). Aqui encontramos uma pista para uma crítica social: a ideia de casas idênticas, que representam um supostamente desejado estilo de vida perfeito remete a um outro nível de imitação humana. Por que não queremos ser nós mesmos e queremos ser como os outros? Onde foi parar a nossa individualidade e originalidade?

Minimalismo

Há muito a se observar justamente porque são poucos os elementos de mise-en-scène: as casas são todas idênticas, tudo parece absolutamente limpo e perfeito, inclusive o monte de terra criado por Tom (Jesse Eisenberg). O minimalismo do filme contribui para algo que raramente vemos nos filmes mais populares: contemplar uma mesma coisa por um longo tempo. Grandes diretores contornaram isso com planos contínuos e contemplativos, que tendem a deixar o ritmo do filme mais lento e enfadonho para muitos espectadores. Embora a montagem de Vivarium tenha um ritmo que não é lento nem rápido, o cenário praticamente único com apenas três personagens nos permite esse tipo de contemplação mesmo quando o corte muda a imagem. Ficamos presos aos mesmos elementos de cena, assim como os personagens são obrigados a viver naquele ambiente.

Imagem: Saban Films

O minimalismo estético do filme invoca ainda a falsidade da ideia de uma vida ideal como a que costuma ser divulgada pelas publicidades (e, aqui, Vivarium encontra Eles Vivem novamente). Dentro do viveiro, Tom e Gemma (Imogen Poots) acabam desenvolvendo uma versão bizarra da vida suburbana, em que comumente a mulher é obrigada a exercer sozinha o papel de mãe, enquanto o homem se apega a um trabalho que não lhe traz prazer algum e acaba se tornando ausente em casa, com ambos utilizando o tempo livre para atividades que não trazem um verdadeiro prazer e que sabem ter objetivo algum. Uma vida em que até mesmo a comida perde o gosto por causa do automatismo do cotidiano.

Embora Vivarium tenha muito material para discussão sobre seu próprio universo, o simples fato de o roteiro se esquivar das explicações faz acreditar que a metáfora é o verdadeiro ponto central da trama: como é a vida perfeita que desejamos? Por que queremos ela?

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