Crítica | Shaft: de revolucionário a fora de tom

Por Laísa Trojaike | 09 de Julho de 2019 às 10h43
Netflix

Nos anos 1970, os filmes do movimento blacksploitation foram muito além de representativos. São filmes que inovaram o cinema do gênero policial, como reconhece Quentin Tarantino ao reviver Pam Grier em Jackie Brown (1997), e que levantaram na arte uma bandeira política que era arriscada demais para a vida real, viés revivido e ressignificado em todos os aspectos de Infiltrado na Klan (de Spike Lee, 2018).

Shaft (de Gordon Parks, 1971) é um dos maiores representantes desse movimento, trazendo um personagem que lida com o crime de um jeito próprio, um herói incorruptível (porque os fins justificam os meios) e que se recusa a agir segundo ordens de um estado corrupto e branco. Fruto de seu tempo, esse primeiro Shaft é revolucionário, importante, jamais deve ser esquecido, mas é datado. Seu modo de agir, seu trato com as mulheres e sua irreverência não podem simplesmente serem transplantados para os nossos dias.

Depois de 1971, Shaft ganhou duas sequências, O Grande Golpe de Shaft (também de Parks, 1972) e Shaft na África (de John Guillermin, 1973), além de uma série para TV. Em 2000, Samuel L. Jackson deu um novo rosto ao nome como sobrinho de John Shaft. Quase vinte anos depois, o mesmo Samuel L. Jackson retorna como pai de J.J. ou Shaft Jr. ou Shaft III (Jessie T. Usher). Reviver uma personalidade como Shaft, no entanto, não é suficiente, e é preciso ressignificá-lo de acordo com o mundo que o cerca e é o que Shaft (de Tim Story, 2019, disponível na Netflix) tenta fazer ao confrontar duas gerações opostas: pai e filho.

Atenção! A crítica abaixo pode conter spoilers.

O resgate da franquia

A sequência de abertura, que recria o Harlem dos anos 1980 e apresenta uma série de estilizações que corrigem o tom que havia se perdido na tipografia do filme de 2000, volta a gritar que Shaft é alguém fora do comum, alguém por quem devemos torcer. Em seguida, vemos Shaft Jr. crescer e a estética muda de acordo com a tecnologia de cada ano, o que, além de nos mostrar que o novo Shaft pertence a uma geração menos mano a mano, ainda aproveita a oportunidade para mostrar, com uma montagem sutilmente poderosa, memes e conquistas como a eleição de Barack Obama, o primeiro afro-americano a ocupar o cargo de presidente dos EUA.

Em termos de lugar de fala, o novo Shaft está melhor do que a primeira adaptação do universo criado por Ernest Tidyman: Tim Story dirige um roteiro de Kenya Barris e Alex Barnow. Em termos de roteiro, é necessário pensar quanto do Shaft original ainda dialoga com a plateia contemporânea, afinal, sendo o herói, é o personagem do roteiro que nos guia por todas as adversidades até o final apropriado, que é a derrota do vilão (social e pessoal) nesse caso.

Há um excelente trabalho de referências aos filmes anteriores, sobretudo no que diz respeito à sequência de abertura do primeiro Shaft, quando vemos o personagem atravessar as ruas sem medo, forçando o tráfego a se ajustar ao seu passo, uma tremenda metáfora para as reivindicações das minorias. A terceira geração Shaft recebe uma apresentação similar: apesar de não ter sido criado pelo pai, Shaft Jr. avança pela rua da mesma forma que os outros Shafts, mas o mundo mudou: enquanto Shaft I faz um táxi parar abruptamente e ainda o ofende e sinaliza o dedo médio (referência que retorna sutilmente nas últimas imagens do novo filme), o escárnio agora é dirigido a Shaft III, que recebe o mesmo gesto ao ser chamado de millennial (geração internet).

A inversão estabelece que o mundo não é mais o mesmo para as antigas gerações Shaft, mas a referência é completamente corrompida pelo ato seguinte do Júnior: utilizando seu poder como analista do FBI, ele suspende a licença do motorista que não estava errado, uma vez que Shaft III ignorou o sinal vermelho para pedestres. Esta é a apresentação do personagem que se propõe a ser a razão ética diante do retrógrado pai.

(Imagem: Captura de tela/Laísa Trojaike)
(Imagem: Captura de tela/Laísa Trojaike)

Novo, mas não tão contemporâneo

Mais do que boa vontade e oportunidade, é preciso inteligência, propósito e sagacidade para reviver um personagem como Shaft, afinal estamos ainda mais atentos do que estávamos em 2000. Em 1971, seu machismo não soava tão mal: apesar de não termos nenhuma mulher ocupando papéis de ação, há um grande respeito por elas, suas relações são consensuais e proveitosas para ambas as partes. O que parece não ser muito bem aceito no primeiro filme, a poligamia de Shaft, poderia ter encontrado uma abertura muito maior em 2019, mas, ao contrário, temos Shaft II e Shaft III inclinados à tradicional monogamia com traços de "viveram felizes para sempre".

Comparações à parte, este novo Shaft não sustenta sozinho qualquer tentativa de lidar com o feminismo, seja por recorrer a sucessivas imagens de mulheres que precisam ser salvas pela figura masculina, seja pela inserção de uma personagem forte o suficiente para ser uma vilã à altura dos Shafts, mas que é tratada como uma mulher fútil.

No primeiro caso, temos como maior exemplo a sequência do jantar de Shaft Jr. com Sasha Arias (Alexandra Shipp). Ele reconhece a presença de indivíduos hostis no ambiente e, logo em seguida, o casal, assim como todo o restaurante, está sob uma rajada de balas. Shaft Jr., que não gosta de armas, está desarmado, mas, por sorte, Sasha tem uma arma na sua bolsa, defendendo o direito de o cidadão comum cuidar da própria segurança. O roteiro coloca-se em xeque-mate nesse exato momento: como mulher, Sasha finalmente sai da posição de princesa em perigo, mas, ao mesmo tempo, não tem a habilidade de Shaft Jr., que toma a arma da mão dela e resolve a situação. A possível crítica à ideia de armar a população entra em conflito direto com a oportunidade de emancipação feminina e, como se não bastasse, a ação toda se desenrola em câmera lenta, com Sasha ficando excitada diante da amostra de um Shaft Jr. durão.

(Imagem: Captura de tela/Laísa Trojaike)

No segundo caso, temos a atriz Luna Lauren Velez como Bennie Rodriguez, uma personagem quase tão poderosa quanto o arqui-inimigo de Shaft II, o Gordito. Apesar da sua forte presença, Luna Velez, que carrega uma porção de mulheres incríveis no currículo, tem seu papel reduzido a umas poucas linhas e sua tortura psicológica direcionada aos clichês do consumismo feminino.

Também não é clara a obsessão de Shaft II com a sexualidade do filho, incluindo linhas como "Irmãos por Irmãos? Pô, filho, parece que seu amigo também gosta de salsicha." O que se segue a esse momento é um diálogo constrangedor sobre os gostos de Shaft Jr., que se vê obrigado a descrever uma genitália feminina. Esses planos só se salvam e infelizmente atingem certo grau de comicidade pela capacidade de atuação da dupla. Gostaria de poder evitar as comparações com o Shaft de 1971, mas, como a própria sequência se propõe a revisitar inúmeros momentos do original, fico mais confortável em resgatar mais uma situação do pioneiro: Shaft arma uma emboscada em um local cujo bartender é gay. Nesse momento, o roteiro insere um diálogo que, além de introduzir outra mulher para o protagonista, delicadamente abre espaço para o discurso de outra minoria e, em momento algum, Shaft é hostil a ele.

Responsabilidades

Quando um filme tem a opção de escolher quem são seus personagens e o que eles são, é preciso estar ciente da grande responsabilidade que se tem em mãos. O ano de 1971 nos deu um policial negro como protagonista e é covardia exigir que revoluções sejam feitas a cada produção. Em 2019, no entanto, temos um vilão negro com apelido espanhol e capangas latinos ou hispano-americanos agindo em parceria com um outro grupo de vilões, que são os soldados norte-americanos marcados pela guerra (traumatizados, viciados, deprimidos...). Tem-se nas mãos o poder de escolha, então por que escolher tais personagens? Isso sem contar como Shaft II trata o imame com desrespeito infundado para, ao final, descobrirmos que os muçulmanos estão na trama apenas para ajudar a construir um mal-entendido cujas consequências são completamente ignoradas.

O filme como um todo pode não ser desagradável e seus momentos de comédia talvez funcionem, ainda que deixem uma sensação de consciência pesada no espectador. O ponto mais alto da produção faz quase tudo valer a pena: o retorno de Richard Roundtree como Shaft I é um resgate vigoroso da velha guarda, mesmo que um pouco ofensivo para os nossos dias. Custo a acreditar que as ruas não tenham ensinado bons modos ao Shaft II, pois o Harlem não é mais o mesmo, assim como os espectadores não são mais os mesmos. Nossas demandas foram renovadas porque, ainda que a luta esteja longe de acabar, são muitas as batalhas que já foram vencidas.

(Imagem: Captura de tela/Laísa Trojaike)
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