Crítica | Os Órfãos é uma adaptação tão vazia quanto uma mansão mal-assombrada

Por Rafael Rodrigues da Silva | 03 de Fevereiro de 2020 às 09h07

As melhores histórias de terror normalmente não têm a ver com fantasmas, monstros e morte, mas com medos bem mais palpáveis que existem dentro de todos nós. O medo do abandono, da solidão, da própria mortalidade, de perder o controle sobre os próprios pensamentos... elementos como esses costumam ser a base de todas as grandes histórias de terror porque mexem diretamente com o medo que é comum a todos e que nos impede de dormir à noite.

Mas, infelizmente, conseguir tocar esse tipo de medo mais profundo não é algo que todos os filmes do gênero conseguem fazer. Uma boa parte deles se concentra em jump scares (aqueles momentos que algo aparece de surpresa na tela para assustar quem assiste), na existência do sobrenatural pelo sobrenatural (fantasmas e monstros existem, mas eles não remetem a qualquer medo mais profundo ou existencial) ou na exploração de cenas grotescas (como desmembramentos e muito sangue voando). Esses filmes podem assustar, mas não geram medo; você pode até ter pesadelos se for dormir logo depois de assisti-los, mas no dia seguinte tudo aquilo já sumiu de sua cabeça e sua vida voltou ao normal.

Isso não é algo que acontece com as histórias que conseguem tocar em um medo real. Essas histórias persistem para sempre no imaginário, não exatamente atrapalhando seu sono, mas atrapalhando a sua vida. Você está trabalhando, lavando a louça ou então brincando com seu cachorro quando, de repente, a lembrança daquela história surge e o medo real que ela despertou em seu ser faz com que você tenha calafrios mesmo a qualquer momento do dia. São raríssimas as histórias que conseguem cutucar esse medo mais profundo - e, infelizmente, Os Órfãos não é uma delas.

Clichês de fantasmas

Baseado no romance A Volta do Parafuso (ou A Outra Volta do Parafuso, já que o livro foi lançado aqui no Brasil com ambos os nomes, dependendo da edição e de quem foi o tradutor) de Henry James, a história de Os Órfãos segue a mesma premissa do livro: uma tutora contratada para cuidar de duas crianças órfãs em uma enorme mansão, mas que acaba sendo assombrada pelos fantasmas que vivem no local.

A história original de Henry James é um dos grandes clássicos da literatura de terror e usa todos os clichês das histórias de fantasmas para tocar em um ponto que atinge aquele tipo de medo mais profundo e real do ser humano: os fantasma que eu enxergo são reais, ou eles são apenas uma manifestação de um problema com a minha própria sanidade? Até hoje o livro é discutido pela crítica literária, que não consegue chegar a um consenso de se a casa da história é realmente assombrada ou se tudo aquilo que é mostrado não passa de delírios de uma pessoa com problemas mentais, já que a história é toda narrada em primeira pessoa pela própria tutora.

Infelizmente, essa dúvida não existe em Os Órfãos. Ainda que a diretora Floria Sigismondi (assinando seu segundo trabalho para o cinema, mas dona de uma longa carreira dirigindo videoclipes) utilize de maneira magistral as tomadas de cenário e a mudança de iluminação para destacar os mesmos clichês de histórias de fantasmas que Henry James usa em seu livro, ela acaba dando pouca atenção ao desenvolvimento de uma personagem que nos deixe em dúvida se está mesmo vendo fantasmas ou se não é apenas uma pessoa mentalmente instável.

Apesar de logo no começo o filme nos apresentar à mãe da protagonista trancada em um asilo e vivendo em um mundo só dela, em nenhum momento da trama é trabalhado o fato de que Kate (a tutora interpretada por Mackenzie Davis) também possa sofrer do mesmo tipo de doença. Todas as menções ao fato de que o problema da mãe possa ser genético acontece em cenas em que Kate está brigando com alguém e a outra parte claramente tenta ofendê-la, fazendo com que não seja possível levar esse fato como algo sério na construção da personagem. Isso faz com que todo o fenomenal trabalho feito em torno das crianças (interpretadas por Finn Wolfhard e Brooklyn Prince), com toda uma dualidade sobre se o fato de elas parecerem um tanto estranhas, serem traumatizadas com a morte dos pais e viverem sozinhas numa enorme casa velha e isolada de todo o mundo, ou se porque conseguem enxergar e interagir com fantasmas, acabe sendo perdido no panorama do filme. Ainda que haja dúvida sobre o que de fato está acontecendo com as crianças, nenhuma é criada sobre a governanta, e em nenhum momento nos perguntamos se o que ela está presenciando é real: se ela viu um fantasma, temos certeza de que foi um fantasma, e se ela se sente insegura com uma das crianças, temos certeza de que ela está mesmo insegura — mesmo que não saibamos ao certo se essa ameaça é proposital ou não, temos a certeza de que ela existe.

E essa falha em desenvolver essa desconfiança em tudo aquilo que a protagonista vivencia é o que acaba fazendo com que o filme se pareça exatamente com todos os clichês de terror que o livro no qual foi inspirado critica, fazendo perdendo a oportunidade de ser muito mais do que uma simples história para tomar uns sustos e ir dormir — e, pior ainda, fazendo com que o próprio final da trama não faça o menor sentido.

A cena final seria perfeita em um filme que constrói uma protagonista na qual não devemos confiar em nada do que ela vê ou sente, mas na versão final do filme que foi para o cinema ela se tornou apenas um enorme ponto de interrogação que fará com que as pessoas levantem de suas cadeiras sem entender porque aquela cena faz parte do filme. Pode ser que a intenção tenha sido que, ao mostrar que a mãe da protagonista tem problemas mentais, o público rapidamente já imaginasse que a protagonista também poderia ter o mesmo problema, mas, se a intenção foi essa, é preciso deixar uma coisa bem clara: esperar um preconceito do público não é a mesma coisa que desenvolver uma personagem.

E isso é uma pena, porque o Os Órfãos consegue criar essa sensação de desconfiança sobre a realidade em todos os outros elementos da trama que não são a protagonista, ficando muito perto de entregar uma obra magistral de terror - até mesmo com claras melhorias em relação ao livro. Pois, enquanto A Volta do Parafuso cita um “romance proibido” que terminou em morte como a razão de fantasmas rondarem a casa, o filme deixa claro que não houve qualquer romance nessa história e o único sentimento que ronda a casa é o de violência: a violência da quebra de privacidade, a violência do estupro, a violência de se fazer justiça com as próprias mãos... Trazendo para a história uma dimensão mais carnal de terror que simplesmente não existe no livro de Henry James.

Belo e vazio

No geral, Os Órfãos não é um filme ruim, mas é um filme vazio. Apesar de ter algumas das cenas mais belas que eu já vi em qualquer filme do gênero e garantir alguns sustos para quem assiste, o resultado final é daqueles que você já esquece logo depois de sair da sala e acaba decepcionando não tanto pelo filme em si, mas pelo potencial desperdiçado de entregar uma obra muito mais complexa e profunda com a adição de uns dez minutos de cenas dedicadas a desenvolver a protagonista como alguém mentalmente instável.

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