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Crítica Os Fabelmans | Sobre a arte (e a necessidade) de produzir sonhos

Por| Editado por Jones Oliveira | 12 de Janeiro de 2023 às 09h59

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Universal Pictures
Universal Pictures
Steven Spielberg

O sonho, a arte e as memórias compartilham uma raiz em comum: o encantamento, o olhar mágico para nossas próprias vivências e que diferenciam um acontecimento comum daquele que vai para sempre nos acompanhar. É o modo como encaramos e absorvemos essas experiências que nos definem como indivíduos, como Os Fabelmans faz questão de ilustrar de forma bastante sensível e significativa.

Afinal, o filme nada mais é do que um recorte das memórias de Steven Spielberg, mostrando não apenas como ele se apaixonou pela arte, mas como a transformou a sua vida e a de sua família. Só que mais do que ser apenas um delírio egocêntrico, o longa entrega em belíssimo elogio ao espírito lúdico e ao poder do cinema em nosso imaginário.

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A partir de suas próprias recordações, um dos maiores diretores de todos os tempos nos fala sobre a importância de sonhar como forma de nos conhecermos melhor, uma janela mágica que nos permite ver novos mundos ao mesmo tempo em que olhamos para os sentimentos. E isso não poderia ser feito de uma forma tão delicada quanto a de um gênio expondo a sua própria história.

Uma fábula pessoal

Apesar de nenhum dos personagens existirem de verdade, Spielberg já deixou bem claro o quanto Os Fabelmans é sobre sua relação com o cinema. Só que mais do que apenas mostrar como um jovem garoto judeu se encantou pela tela grande e pelo seu poder de nos fazer sonhar, ele demonstra essa capacidade a partir da fragilidade de sua própria família.

Por isso mesmo, mais do que o próprio Sam (Gabriel LaBelle), a família Fabelman é a grande protagonista da trama. É a partir da relação do jovem e da dinâmica envolvendo seus pais que a gente passa a entender o quanto a arte é um fator fundamental não só para a vida do diretor, mas para a própria existência humana.

Isso é muito bem representado na relação entre Bart (Paul Dano) e Mitzi (Michelle Williams), os chefes da família Fableman e que representam muito bem essa imagem da família perfeita americana — exceto por um único ponto. Apesar do amor quase devocional que eles têm um pelo outro, pai e mãe enxergam o mundo de formas completamente antagônicas.

Ele é aquela figura pragmática, o homem da ciência que acredita que tudo deve ser olhado de forma literal e racional — o que faz com que toda e qualquer explicação que ele venha a dar pareça uma palestra interminável. Do outro lado, a mãe é uma pianista que largou a música para se tornar dona de casa, mas que nunca abandonou o olhar mágico e fantástico diante de qualquer coisa.

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Essa oposição que eles fazem é fundamental para que Sam encontre seu próprio caminho. E isso começa a partir da sua primeira ida ao cinema, quando ele vê a grande tela pela primeira vez e entende que o cinema nada mais é do que a capacidade de colocar o sonho na palma da sua mão — algo que o filme apresenta de forma literal em uma das cenas mais bonitas do longa.

Ao mesmo tempo, Os Fabelmans coloca na figura desses pais a importância do próprio cinema como essa válvula de escape para o fantástico. A tensão da trama não está nas dificuldades de Sam em construir sua carreira, mas em como a arte é vital em nossas vidas tanto como forma de externalizar sentimentos quanto para absorver emoções.

Isso fica bem claro na figura da própria Mitzi, que começa pouco a pouco a se degradar à medida que o fantástico desaparece de sua vida. Embora ame o marido, o cientificismo não lhe é mais suficiente e ela passa a buscar novas formas de viver essa magia que a vida comum lhe tomou. Nesse sentido, a atuação quase destoante de Michelle Williams casa muito bem com essa energia da personagem, que parece não pertencer ao mesmo mundo dos demais personagens.

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Em paralelo, o próprio Bart vai muito além de ser apenas alguém frio como uma tabela de Excel. Embora ele jamais se dobre ao olhar mágico da esposa, fica claro o quanto sua devoção por Mitzi é uma forma de completar aquilo que lhe falta. Ele sempre viveu esse encantamento por meio dela.

E é no meio desse caminho que se encontra Sam. Ou, melhor dizendo, é nesse encontro de dois mundos que reside o poder do cinema. A arte de produzir sonhos é tanto a válvula de escape dos criativos como o alimento para aqueles que têm fome de fantasia.

Não por acaso, o filme carrega essa característica em seu título. Fabelmans nada mais é do que uma brincadeira com a palavra fábula (fable, em inglês), o que já evidencia tanto a dependência desses personagens do lúdico em suas vidas como a própria capacidade de Sam de usar a arte para entender e até inspirar o mundo à sua volta.

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Isso é bem presente no ato final, quando o garoto faz um filme de despedida da escola. O que deveria ser apenas um registro de uma ida dos veteranos à praia vira um misto de diferentes emoções, empolgando alguns, sensibilizando outros e abalando um outro tanto na mesma medida — mostrando como a arte é capaz de expressar diferentes faces de nós mesmos.

Para além do cineasta

E um dos maiores feitos de Os Fabelmans é trazer esse discurso tão bonito a partir de memórias do próprio roteirista e diretor do filme sem cair em armadilhas que tornem tudo piegas ou prepotente. Embora seja um filme feito inteiramente sobre o próprio Spielberg, em nenhum momento fica a sensação de essa ser uma obra egocêntrica de um artista que se vê maior que a própria obra. Pelo contrário, o longa é feito de puro coração.

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Ainda que seja impossível fugir da impessoalidade das experiências do autor, você percebe sua genialidade quando ele transforma a própria vida em uma fábula para falar de algo que é muito maior do que ele próprio — o poder do cinema. O resultado é um dos melhores trabalhos do diretor em anos e que mostra por que ele merece ter seu nome gravado na história da arte.

Inspirador do começo ao fim, Os Fabelmans é mais do que um filme que merece ser visto no cinema. Ele é, na verdade, um belo lembrete também do porquê nós amamos tanto essa fábrica de sonhar.

Os Fabelmans está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; garanta o seu ingresso na Ingresso.com.