Crítica | O Sono da Morte é terror falho, mas com coração quentinho
Por Laísa Trojaike |

Não é por acaso que O Sono da Morte entrou para a lista de filmes mais assistidos da Netflix. A direção é de Mike Flanagan, criador e diretor das séries A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly, além de ter dirigido também o original Netflix Jogo Perigoso. Não sabemos ainda se é uma questão de falta de opção ou se de fato esse é o gosto para terror dos assinantes da Netflix, mas uma coisa é certa: há algo na obra de Flanagan que cativa mesmo quem não aprecia tanto os roteiros que ele escreve ao lado de Jeff Howard.
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O Sono da Morte é uma ideia maravilhosa, ainda que conduzida por caminhos que nos fazem questionar constantemente qual era a declaração que estava sendo feita por trás de tudo. Pode ser que seja apenas um mau roteiro, mas pode ser também que ideias controversas possam estar espreitando os espectadores nas entrelinhas. Isso afeta o terror de O Sono da Morte no sentido de que o filme termina e, apesar do final caloroso, é difícil esclarecer o que sentimos diante da história contada.
Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.
Nem lá, nem cá
O Sono da Morte é daqueles filmes de terror que marcam um meio-termo que não é necessariamente uma virtude: nem bom o bastante para ser tão memorável, mas não ruim o suficiente para ser merecidamente detestado e esquecido. Um dos efeitos disso é a sensação de sentimentos contraditórios que vão se sucedendo ao longo do filme.
Se em algum momento estamos questionando a qualidade da obra pela falta de verossimilhança (o processo de adoção é absurdamente fácil e rápido ou, para trazer algo ainda mais comum de filmes de terror, as portas estão sempre abertas ou fechadas de acordo com o desejo e a pressa dos roteiristas), no momento seguinte podemos estar admirando alguma ideia realmente interessante, como a cena em que descobrimos que Cody (Jacob Tremblay) materializava pessoas a partir de uma vaga memória do que elas haviam sido, porque sua idade ainda não permitia refinar os detalhes.
Ainda que Residência Hill e Mansão Bly não tenham roteiros impecáveis e sem brechas, a psicologia dos personagens é muito melhor desenvolvida. Essa característica pode ser percebida com facilidade em outros filmes de Flanagan e não seria diferente com O Sono da Morte. O tempo dos filmes, no entanto, não permite desdobramentos como possibilitam as séries, que são muito mais extensas. Assim, a relação entre Cody e Jessie (Kate Bosworth) é desenvolvida de forma muito rápida e muitas das características que poderiam ser melhor exploradas acabam deixadas de lado em prol de concluir o filme dentro da forma clássica de 90 minutos.
Pedagogia
Flanagan parece ter como fundamento de suas histórias a noção de que ninguém nasce mau e que, portanto, crianças que fazem algo terrível devem ter algum motivo que as conduz a tais ações. Assim, suas produções são verdadeiros guias pedagógicos, com soluções para diversos conflitos e dicas de como dialogar com uma criança ou notar os sinais que são emitidos por ela.
Disso, nasce parte da beleza de O Sono da Morte, com a pureza de Cody sendo ao mesmo tempo o combustível das belíssimas borboletas e a fonte do mal-entendido que transformou a lembrança da sua mãe em Homem do Cancro (é curioso, inclusive, que Flanagan traga sempre papéis femininos muito fortes e que geralmente se opõem, de alguma forma, a uma figura masculina).
Tecnicamente, o filme não é baixo orçamento o suficiente para deixar explícito os defeitos, nem excelente o bastante para se fazer notar. Fotografia, direção e arte trabalham apenas o necessário para que não haja distrações da história, sendo possível notar pequenas coisas interessantes, mas o grande quadro nos mostra apenas um trabalho básico cujo intuito é inserir o espectador na história, sem grandes intenções estéticas.
Ser apenas suficiente em termos técnicos não prejudica o filme e ser mais que isso não é uma obrigação, mas é importante notar como isso nos conduz a focar nossa atenção da história. O som, por outro lado, tem um destaque negativo pela inserção de jump scares que são bastante óbvios: se tudo ficou incrivelmente silencioso, pode esperar por algum susto acompanhado de um som bastante alto.
Entre erros e acertos, O Sono da Morte é no mínimo um filme interessante e, na pior das hipóteses, a atuação de Jacob Tremblay continua sendo sempre um dos pontos mais fortes do filme. O final psicologista pode não ser do agrado de todos, claro, mas ainda assim é uma muito bem-vinda quebra de expectativa para quem está cansado dos clichês de sempre de filmes de terror medianos. O Sono da Morte (que merece muito mais o título original “Before I Wake”, “Antes de eu acordar”, em tradução livre) é, sim, uma obra interessante e com discussões bastante profundas, ainda que o próprio roteiro não faça o trabalho de aprofundar essas questões. Ignorar os erros e clichês, no entanto, pode ser uma necessidade.