Crítica | Indústria Americana é necessário, mas tem tom quase institucional

Por Sihan Felix | 17 de Fevereiro de 2020 às 13h22
Netflix

A abertura de Indústria Americana (disponível na Netflix), vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2020, parece ser um resumo do que é visto a seguir. O frio que toma conta do local (Dayton, em Ohio) contorna o fechamento de uma fábrica da General Motors e, com ele, vem o desemprego de 10 mil funcionários. Em um salto elíptico, vê-se a fábrica de vidros em funcionamento, o título do filme surge em inglês e em mandarim e, logo depois, um casal chinês observando a cidade ao longe, de costas. Esse casal, além de comentar sobre o frio, diz sobre a impossibilidade de as casas que veem por ali terem 200 anos, visto que o país fora fundado somente há pouco mais que isso.

"Quantos anos essas casas têm?" (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Um valor caloroso

É justamente a dinâmica da relação entre a cultura americana e a chinesa que passa a tomar conta do filme a partir desse ponto – com direito a uma aula do american way of life para os funcionários chineses que chegam para trabalhar na filial da gigante de vidros Fuyao, que substitui a fábrica de carros. Nesse sentido, por mais que exista uma intensa personificação da consciência de classe, esta vem de uma maneira inusitada: se a China fora demonizada por Donald Trump em sua campanha rumo à presidência, vê-se uma inversão de valores e uma absorção de fatos gradativa e contrárias às ideias trumpistas. Por esse lado, o teor político do documentário ganha ainda mais força por ter sido distribuído por Michelle e Barack Obama.

Se não tivesse o peso da necessidade para o mundo atual, seria quase tragicômico perceber que, em Indústria Americana, os nativos estão à mercê dos imigrantes. E há comentários que parecem corroborar a ideia de oposição – quando, na verdade, o que a montagem de Lindsay Utz (do pouco conhecido e excepcional Buoy) começa a fazer é ir na direção de uma união a partir das culturas e, acima disso, do humano.

Nesse ponto, a direção de Steven Bognar e Julia Reichert (que concorreram ao Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem por The Last Truck: Closing of a GM Plant – filme que traça um panorama justamente sobre o fechamento da fábrica da GM em Dayton) – é inteligente ao equilibrar a formalidade industrial do filme com um interesse sincero pelas vidas. Assim, vê-se os trabalhadores americanos fora do ambiente de trabalho, toma-se conhecimento da vida deles para que, então, exista alguma aproximação que ceda um valor mais caloroso a tudo que se vê.

Fora do ambiente de trabalho... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A melancolia do capitalismo

Talvez seja fundamental, ainda, a percepção de que Indústria Americana é um filme, de algum modo, universal, mas que alcança isso por vias inteiramente americanas. É uma visão – válida, claro – sobre os fatos, mas que vez ou outra pode cair em um perigoso jogo mais rasteiro e atirar no próprio pé. Seria necessário, por exemplo, um filme à parte para que a relação entre empregadores chineses e empregados nativos não tivesse a chance de causar uma interpretação às avessas, como se, dentro daquele microcosmo da fábrica, os americanos estivessem se sentindo recolonizados.

Esse fato pode ser, infelizmente, reforçado pela bondade e até ingenuidade dos trabalhadores locais, simbolizada pelo criador de cavalos que comenta sobre considerar o chinês – já exposto como calculista – seu irmão. Não faltam trechos que condensam essa exposição: o trabalhador que se expõe a altas temperaturas de maneira completamente indevida, os tantos que surgem pingando de suor enquanto, lá fora, o frio toma conta...

Pingando de suor... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Dentro dessa perspectiva, pode ser fundamental entender os preceitos com capacidade de alcançar muito mais do que os fundamentos de um país tão capitaneado pelo capitalismo. O mal-estar quase melancólico de cada personagem é reforçado de forma crescente por decisões controversas e cada arco é finalizado com impacto, seja por um acontecimento (como um acidente de trabalho) ou por alguma conclusão sincera. Pode ser, novamente, tragicômico (para não dizer hipócrita) o receio dos chineses para com os trabalhadores que trabalham pensando em dinheiro – prejudicando a produção – enquanto pensam na produção para não perder (e ganhar)... dinheiro.

Um coliseu institucional

É, portanto, uma pena que esse debate em Indústria Americana seja importante, válido e necessário, mas que seja tratado sem muita complexidade. Não que esta não exista. É uma profundidade que está intrínseca, pronta para ser resgatada para debates. Mas o filme de Bognar e Reichert parece mais preocupado em informar os seus do que construir uma ponte. Quem é a China afinal? Por que os chineses se tornaram tão... americanos? Como uma civilização de milhares de anos foi engolida pelo sistema de uma com menos de três séculos? Tudo parece ali, mas, ao mesmo tempo, não há nada que consiga se soltar do formato didático e quase institucional.

"Quando em Roma, faça como os romanos." (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Como diz Cho Tak Wong – fundador e CEO da Fuyao: “Quando em Roma, faça como os romanos”. Deve ser a frase que, assim como a abertura, sintetiza Indústria Americana.

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