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Crítica | Cemitério Maldito na Montanha da Perdição

Por Sihan Felix | 14 de Maio de 2019 às 15h12
Paramount Pictures

Foram 30 anos entre a adaptação original e essa nova produção. De 1989 até hoje, o mundo mudou loucamente – por mais que nunca tenha deixado de flertar com o passado. Até porque mudanças só existem quando há a consciência do que já passou. Por essa perspectiva, Cemitério Maldito (esse de 2019) demonstra, sim, ter racionalizado o anterior e, por isso, busca outros caminhos.

Há formas de ir atrás de melhorias, de revigorar durante uma requentada, mas construir uma crítica comparativa pode não ser o melhor caminho. Afinal, são três décadas: outro mundo, outras realidades e, inclusive, outro cinema. Por que não, então, deixar o filme em questão tomar conta da escrita e, caso haja comparativos, que eles sejam pontuais? Adaptar é uma tarefa ingrata (ou não) de agradar.

Esse Cemitério Maldito, assim, tem alguns muitos méritos diluídos em um roteiro preguiçoso (escrito por Jeff Buhler, de Maligno). É como se alguém cedesse um litro de água para dissolver meio comprimido efervescente – sendo a água o roteiro (aquilo que vem antes) e o comprido os méritos. No final das contas, o gostinho fica ali, mas a sensação é totalmente de placebo. E o resultado em si é, no máximo, comum.

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Cuidado! A partir daqui esta crítica pode conter spoilers!

Nasce um filme sério

Inicialmente, há alguma inventividade. Por mais que não seja uma novidade iniciar com um breve flashforward (aquilo que é mostrado, mas que, de fato, acontecerá depois), essa escolha é essencial para que o filme seja logo compreendido como terror. A tensão é exposta em meio a uma estética fria com o sangue em contraponto. Ali, nasce uma obra séria, balanceada entre a frieza do que é a morte e uma violência vermelha.

O primeiro jump scare, igualmente, parece comprovar a competência dos diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer – ambos parceiros em alguns episódios de Pânico: A Série de TV. Assim como em seus trabalhos anteriores, a dupla dá preferência aos sustos orgânicos, sem a utilização da música ou de outros elementos externos. Dessa forma, enquanto o primeiro é vindo do barulho estranhamente repentino de um caminhão, a maior parte do que se segue é alicerçada nessa forma de assustar. Assustam-se, então, o público e os personagens, causando uma imersão curiosa.

O placebo

O problema é que o roteiro tem algumas sementinhas do mal que podem contaminar o trabalho de Kölsch e Widmyer. E não vale, aqui, entrar na conta a discussão sobre o clichê ciência versus religião, até porque é uma discussão que perdura e vem ganhando contornos bem obscuros recentemente. Se Louis (Jason Clarke) é um homem da ciência e – por isso – é ateu, tudo bem. Vida que segue. O problema que acaba maculando boa parte do filme é que ele (Louis) é totalmente susceptível a argumentos frágeis, a palavras ao vento.

(Imagem: Paramount Pictures)

E ele poderia ser assim. Sem dúvida. Mas nada no texto desenvolve o personagem a um ponto crível. Às vezes é como além de beber um copo daquele citado placebo ele, sendo médico, acreditasse que o líquido ingerido fosse curar um câncer. Nessas circunstâncias, Jud (John Lithgow) faz o papel de meio comprimido efervescente. Ele se dissolve com tanta facilidade e poder de persuasão que é capaz de fazer Louis ir enterrar um gato morto na Montanha da Perdição utilizando praticamente nenhuma justificativa sóbria. Em resumo, é mais ou menos dessa maneira:

– Você ama sua filha? Então venha comigo enterrar o gatinho atropelado em um local distante, passando por essa barreira suspeita, entrando nesse pântano, ouvindo criaturas uivando e gritando e subindo essas escadarias misteriosas. Melhor do que enterrar nesse cemitério de... animais.

– Jud, o que tem a ver o amor que sinto por minha filha com ir enterrar o gato lá onde o Um Anel foi forjado?

– Não posso dizer. Apenas venha.

– Então eu vou. Porque “é o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim.”

(Imagem: Paramount Pictures)

Renasce o filme sério

Mas, de todo jeito, Cemitério Maldito tem seus dons. E, por incrível que pareça, o amor é um deles. Sabe-se que Stephen King é especialista em trabalhar com os medos, tanto que It: A Coisa (2017) traz a personificação desse sentimento (como bem o faz o livro que o origina) e, por variar de pessoa a pessoa, ele (o medo) transforma-se. Pennywise é o medo para quem tem coulrofobia (aversão a palhaços) por exemplo. Então, no filme em questão, o medo é tratado como ferramenta dramática. Só que, ao mesmo tempo em que tudo é trauma e tensão para os personagens, o pavor respinga nos espectadores, sendo o terror de perder um filho o ponto alto da história.

O momento é realmente sofrido e vale muito pela cena de choro silencioso de Louis enquanto consola Rachel (Amy Seimetz). O close no rosto daquele homem que sente a dor de dar adeus à filha pode machucar. Jason Clarke – que é um ator de muita competência – talvez esteja, ali, em uma de suas melhores cenas dos últimos anos. A dor ultrapassa seus olhos e, em meio a tantos alívios cômicos com o gato renascido do inferno (alguns de tristes comédias involuntárias), há esse lapso de drama válido, com poder de atingir uma parcela considerável de quem assiste.

É interessante, também, a semelhança sobreposta entre medo e trauma, como ambos estão tão ligados. Rachel, por exemplo, que nutre uma perturbação por ter visto sua irmã morrer e por ter culpa indireta no fato – assim como Louis com Ellie (a filha, Jeté Laurence) –, pode promover um debate proveitoso: Será que ela (Rachel) tem suas lembranças tão traumáticas porque passou por tudo aquilo enquanto era criança? Ou os eventos passados por aquela menina, em uma fase da vida longe de estar preparada para tal, não tiveram influência em sua memória?

(Imagem: Paramount Pictures)

É um assunto difícil de lidar, de debater. Apagar o que já passou pode ser um dos piores males, mas fingir que nada aconteceu e seguir sem entender o passado talvez seja muito mais assustador. Ainda assim, não deve haver respostas para a dor de perder um filho, especialmente se há amor nessa relação. Por mais que se evoque a obra original de King, o primeiro filme (roteirizado pelo próprio) ou separe-se esse atual de tudo, somente quem teve um trauma do tipo pode explicar como é o sofrimento, o baque... e o medo resultante.

Mas, "às vezes, morto é melhor"

Uma pena que um filme com tanto potencial tenha se perdido naquilo que é o mais básico, na construção da história, e tenha se erguido sobre bases pantanosas. Todo o seu discurso afunda com o texto e fica escondido pela fumaça de gelo seco. A direção ainda tenta jogar uma corda para salvar o conjunto da obra, mas é tarde. A frase icônica de qualquer versão de Cemitério Maldito pode resumir bem: “Às vezes, morto é melhor.”

(Imagem: Paramount Pictures)

*Crítica dedicada a Igor Bruxão

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