Crítica | Amizade Desfeita 2: Dark Web manda recado sobre segurança virtual

Por Laísa Trojaike | 27 de Agosto de 2019 às 13h45
Universal Pictures

Computadores, celulares e outros dispositivos semelhantes geralmente têm uma interface intuitiva, de utilização cada vez mais fácil, de modo que você não precisa ser um grande especialista para fazer coisas que há alguns anos eram completamente inconcebíveis. E isso é incrível. Imagine, agora, que com todas essas facilidades, passamos a expor nossas vidas, nossa segurança pessoal. Vazamentos de informações, venda de conteúdo e espionagem internacional eram escândalos que atingiam grandes personalidades ou que adicionavam emoção a enredos de filmes há não muito. Pensar que agora qualquer pessoa pode ser alvo desse tipo de coisa é assustador e os filmes de terror e/ou ficção científica costumam se alimentar desses medos que nos ameaçam pessoalmente.

Amizade Desfeita 2: Dark Web (disponível no catálogo do Telecine Play) é mais um de uma grande safra de filmes que exploram o terror da vulnerabilidade virtual e acerta em cheio ao colocar em xeque o mundo que conhecemos, expondo o quão despreparados estamos para lidar com qualquer tipo de ameaça virtual.

A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Exigências de um gênero

Stephen Susco, que estreou como roteirista com o remake O Grito (de Takashi Shimizu, 2004), cria a sequência de Amizade Desfeita (de Levan Gabriadze, 2014), que não é bem uma sequência, mas um novo filme que utiliza o mesmo formato narrativo do filme de 2014. Embora pareça, Amizade Desfeita 2: Dark Web não pode ser classificado como found footage, como o clássico A Bruxa de Blair (1999), simplesmente porque não há material encontrado (como indica o nome do gênero em inglês). Tampouco é um falso documentário. Trata-se do ainda pouco comentado screen life (ou computer screen film ou ainda desktop film), um gênero barato e que utiliza quase que exclusivamente recursos virtuais, como aplicativos de videochamadas. Capaz de servir a qualquer gênero cinematográfico, o screen life já permitiu a produção de obras como o excelente Buscando... (de Aneesh Chaganty, 2018), que é, por enquanto, o maior expoente do gênero.

Como em todo bom filme, detalhes não estão lá por acaso e, quando há a construção de ambientes virtuais, não se exclui de forma alguma o trabalho de direção de arte: ainda que cenários, figurinos e maquiagem estejam restritos ao que a webcam mostra, para além do trabalho de construção do universo real, temos a criação do universo virtual do personagem, que vai desde o papel de parede utilizado até a disposição das janelas de aplicativos na área de trabalho. Tendo isso em mente, tudo o que é mostrado importa. Buscando... chegou ao Brasil completamente traduzido para o português, mas, infelizmente, obras de menor apelo comercial, como Amizade Desfeita 2: Dark Web, não receberam a mesma atenção ao serem distribuídas no Brasil.

Ao embarcar em um gênero como o screen life, um diretor precisa compreender que o ritmo é essencial para que o espectador não fique confuso: muitas informações simultâneas na tela precisam de tempo para serem processadas pelo espectador. Amizade Desfeita 2: Dark Web tem um bom (ainda que não excelente) desempenho nesse quesito e é possível ver tudo que está acontecendo, ainda que não seja possível ler tudo. O espectador mais prejudicado será aquele que não compreende a língua inglesa e que acabará, por vezes, sendo exposto a legendas quase simultâneas, que lembram a legendagem não oficial feita por fãs de animes que tentam explicar da melhor forma possível tudo que está acontecendo na tela: a intenção é ótima, mas nem todos os leitores são rápidos. Já que estamos em uma plataforma de streaming, é possível voltar e ler novamente (o que atrapalha a experiência do filme), mas vale lembrar que esse é um recurso indisponível nos cinemas.

Se estivesse tudo traduzido, não precisaríamos de legendas (Imagem: Universal Pictures)

Para ajudar o espectador mais leigo com relação ao funcionamento de algumas tecnologias, o roteiro insere um personagem que é capaz de ajudar o amigo a resolver os problemas do “novo” computador e, posteriormente, fazer algumas descobertas. A inserção desse personagem soa natural e nada expositiva, o que ajuda a comprar a noção de que é uma situação real.

Realidade

Amizade Desfeita 2: Dark Web consegue gerar tensão mesmo quando se torna previsível e isso acontece justamente pela estética de realidade que o gênero life screen fornece: sabemos que os personagens irão morrer, mas as imagens parecem tão cruas que mesmo assim causam algum impacto (e, se não causam, talvez seja o caso de discutirmos mais sobre a banalização da violência).

Por outro lado, a trama nos revela que, desde o princípio, todos os personagens eram parte um jogo macabro em que todos morreriam e a vida do último seria decidida através de uma votação (que soma o terrível número de 23.257 usuários, indicando que não são poucos os predadores virtuais). É bastante difícil acreditar que o jogo tenha saído exatamente como o previsto e que todos os personagens tenham feito as escolhas necessárias para o jogo da Dark Web. Isso é revelado pelas inúmeras vezes em que os personagens tomam atitudes que os colocam em risco sem motivo aparente, por uma curiosidade que se sobrepõe à sobrevivência sem justificativa plausível.

Talvez o número seja ainda mais assustador... (Imagem: Universal Pictures)

É bastante comum que nos consideremos mais inteligentes que a maioria dos personagens dos filmes de terror. Claro que, se fôssemos os personagens, talvez não tomássemos as melhores decisões, mas algumas coisas são realmente óbvias: entendendo que se trata de (pelo menos) um hacker assassino, que tudo vê e tudo ouve, quantos de nós realmente continuaria insistindo em lutar contra alguém nitidamente muito mais poderoso? Talvez a mensagem, aqui, seja de que a confiança no nosso ego juntamente com o não reconhecimento da nossa ignorância seja, de fato, o maior dos perigos.

Você confia nas suas redes sociais? (Imagem: Universal Pictures)

Sob essa perspectiva, o filme ganha uma nova roupagem e, ao invés de julgarmos os personagens por sua estupidez, talvez devêssemos entender em que medida foram criados à nossa imagem e semelhança. Pode não haver um círculo secreto de assassinos tentando nos matar, mas reflita sobre o seguinte: Em quantos links de promoções inacreditáveis você já clicou? A quantos sites suspeitos você já forneceu informações do seu cartão de crédito? Quantos vírus você já instalou sem saber ao clicar naquele banner superinteressante em um site que não era confiável? Quantas atualizações de segurança do seu celular você ignorou? Isso sem contar os sites pornôs e os contatos aparentemente confiáveis que temos nos sites de relacionamento. E esses são apenas alguns pequenos pontos de uma infinidade de atitudes erradas que tomamos nos meios virtuais.

Ainda somos tão idiotas diante dos nossos dispositivos e da internet quanto os personagens de um filme B de terror seriam na realidade. Somos ignorantes no nível de não ouvir o caminhão que está prestes a nos atropelar (o que funciona perfeitamente como metáfora, mas é um enorme furo como roteiro e final de um filme).

Amizade Desfeita 2: Dark Web está disponível para os assinantes do Telecine Play.

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