Crítica | A Última Coisa que Ele Queria posa de malvadão, mas é baixo e tolo

Por Sihan Felix | 03 de Março de 2020 às 10h50
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O ideal é, sem dúvida, que cada um de nós tenha a chance de assistir a um filme e tirar as próprias conclusões. A crítica, assim, não precisa funcionar como uma ferramenta indicativa ou não-indicativa. O que acredito é que o texto crítico existe para abrir perspectivas, sugerir caminhos e, principalmente, para prolongar a experiência do espectador – algo defendido por André Bazin.

Mas existem raros filmes que se tiverem a experiência prolongada podem causar danos quase físicos, aqueles que o melhor é deixá-los ir se apagando da memória. Outros, porém, deveriam vir com a prescrição de um analgésico antes por prevenção, um depois por necessidade, um calmante para amenizar a raiva e muita água para a ressaca sensorial. A Última Coisa que Ele Queria (disponível na Netflix) é uma dose de dor de cabeça diluída em quase duas horas sem sentido; é caminhar tonto, sem saber para onde ir e, no fim, realmente chegar a lugar nenhum. Ou chegar: a um profundo e risível nada.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Batata doce

Histórias sobre jornalismo geralmente são atraentes. A Montanha dos 7 Abutres (de Billy Wilder, 1951), por exemplo, é uma das obras-primas do cinema. Recentemente, o vencedor do Oscar 2016, Spotlight: Segredos Revelados (de Tom McCarthy, 2015), despontou como um filme interessante nesse sentido. Talvez pelo tom investigativo, a busca por justiça por meio do jornalismo coloca o suspense como aliado da história, conduzindo expectativas, apreensões, julgamentos...

Tudo requer um roteiro que ceda envolvimento, que construa importâncias, que crie um elo, um fio condutor. Mas o texto de A Última Coisa que Ele Queria, de Marco Villalobos e Dee Rees (baseado em livro de Joan Didion), aposta no sentido oposto, enxertando o filme de elementos profissionais e pessoais da protagonista (interpretada por Anne Hathaway) sem investir em qualquer uma das informações arremessadas. É uma abordagem investigativa que prefere mostrar arbitrariamente que existe o que investigar e acaba não investigando de fato.

Deixa eu tirar uma foto perigosa aqui e depois usar pra nada? (Imagem: Netflix)

Pode ser pior, porque existe uma certa pompa no todo do filme que parece uma declaração de autossuficiência, uma pose de inteligente que demonstra uma falta de conexão total entre o que quis se passar e o resultado de tudo. Pode ser interessante, por essa perspectiva, entender essa produção como uma tentativa de inserir experimentalismo em um produto blockbuster. Rees (que também é a diretora do filme e já provou seu talento anteriormente), inclusive, até consegue construir cenas isoladas com alguma força – e algumas com referência ao citado filme de Wilder –, mas não adianta colocar um laço de fita bonito em uma batata doce crua: tem muitos nutrientes ali, mas talvez você precise cozinhar antes.

E não é a questão de ser um filme que instiga a reflexão. Trata-se de um exemplar que aparentemente acredita que tem esse poder sem o ter de fato. Essa autoconfiança sem sentido, aliás, quebra quase que uma regra da empatia fílmica: a de jamais matar um cachorrinho em vão – algo que vem de bem antes de assassinarem o amigo de John Wick. Nesse ponto, A Última Coisa que Ele Queria parece posar de malvadão inconsequente, quando na verdade está sendo aleatório, baixo e tolo.

"Ele era quem você enviava para matar o maldito Bicho-Papão." (Imagem: Netflix)

Golaço de três pontos depois do saque

A montagem de Mako Kamitsuna, que esteve com Rees no excelente Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi, é peça chave no esquema degringolado. Sequenciando as cenas como se um açougueiro bêbado estivesse cortando carne com uma faca cega, Kamitsuna tenta deixar o filme ágil ao mesmo tempo em que absolutamente nada acontece. A incompatibilidade desses fatores faz Esquadrão 6 (de Michael Bay, 2020) parecer uma obra-prima.

Felizmente – na verdade, pode nem ser algo feliz –, Hathaway se esforça com sua Elena. A personagem se divide entre a matéria de sua vida, o pai (Dick – interpretado por Willem Dafoe) envolvido em tráfico de armas e adoentado, a filha (Cat – Onata Aprile) que está em um internato, um caso tosco gratuito e com diálogos constrangedores com Treat Morrison (Ben Affleck), a relação-pura-bagunça com Jones (Edi Gathegi), a amizade com Alma (Rosie Perez), o embate com o Secretário George Shultz (Julian Gamble), as negociações com seu editor (Robert Sedgwick)... e... tem a participação solta de Toby Jones e as menções a uma campanha presidencial que, teoricamente, é parte importante. E é isso.

Toby Jones. E é isso. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A verdade é que A Última Coisa que Ele Queria tem a relevância estética e narrativa de um quebra-cabeça infantil de 10 peças que vem com falha de fábrica. As peças podem até se encaixar, mas a imagem que resulta no final é a cabeça da Peppa Pig com bico e crista da Galinha Pintadinha e corpo de Pocoyo. Se bem que esse resultado poderia fazer uma criança se divertir... e o que esse filme faz está bem longe da diversão: ele organiza as peças de um xadrez, do rei aos peões, em cima de um tabuleiro de gamão e fica rindo, torcendo falsamente para que o espectador faça um gol. E que seja um golaço de três pontos depois de um saque viagem.

De todo modo, não acredito que eu tenha o direito e muito menos o dever de contraindicar essa experiência. Continuo acreditando que o ideal é que cada um de nós tenha a chance de assistir e tirar as próprias conclusões – e nenhuma destas será a verdade absoluta. Por outro lado, para mim, prolongar a experiência de algo assim pode até conter um certo sadismo. Se foi o caso, peço desculpas.

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