Crítica | Rocketman é uma biografia do fracasso de Elton John de forma honesta

Por Wagner Wakka | 29 de Maio de 2019 às 10h35
Divulgação/Paramount

Quem nasceu depois de 1980, provavelmente não teve contato com Elton John em sua pior fase. Talvez essa leva não esteja preparada para este longa. Rocketman retrata o momento em que o artista faz uma orgia com seus maiores pesadelos. A primeira cena do longa coloca o ator Taron Egerton apresentando um espalhafatoso Elton John entrando como uma diva em um grupo de assistência para viciados: “Oi, meu nome é Elton Hercules John. Eu sou viciado em álcool, drogas em geral, cocaína, maconha, sou bulímico, tenho acessos de raiva e tenho vício em sexo”. É assim, sem cerimônias que o longa traz um excelente resumo de si mesmo.

Este é um filme não sobre a história de sucesso de Elton John, mas sobre a sua trajetória de fracasso. Como o Sir que conhecemos hoje visitou um inferno pessoal. O nome de Rocketman, para além do apelido que lhe fora dado, também tem outro significado: o do artista que alçou uma trajetória tão meteórica que mal pode prever o tombo gigantesco que levaria da vida.

O longa se passa em flashback, diante da voz de próprio Elton John descrevendo a sua história, desde a infância. Isso permite que o filme seja quase que autobiográfico dentro da sua narrativa.

Vale lembrar que a produção conta com o próprio Elton John e seu marido, David Furnish, que já fizera um documentário sobre a vida do artista. Diante dessa informação, é bastante impressionante que Rocketman tenha tamanha sinceridade e abertura. Quase um Dom Casmurro, que, póstumo, se permite lavar as roupas sujas que ficaram pela vida.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers do filme.

Fantasia

Como uma narrativa de primeira pessoa, Rocketman se permite muito. Sobretudo do aspecto gráfico e fantasioso. Isso quer dizer que o filme abre mão da lógica pela beleza de cenas. Por exemplo, ao contar de sua infância, Elton John lembra de um momento em que viu em uma lanterna uma batuta imaginária. Em pé, do alto de sua cama, com o peito empostado de um maestro, começa a reger uma orquestra que aparece ali naquele cubículo.

Filme permite alguns momentos de lúdico, principalmente, nas horas de música (Foto: Divulgação/Paramount)

O filme é recheado de momentos como esse, muito simbólicos. Outro tom, também do início, é sobre a paleta de cores desbotada para mostrar a difícil e pobre infância do garoto. A relação com seus pais é motivação síntese da história do artista.

Diante de um ex-militar e músico amador, Elton John é constantemente preterido por seu velho, o qual não mede esforços para direcionar um e outro xingamento para o garoto. A grande frase que o persegue pela sua voz pueril é exatamente a do: “quando será que ele vai me abraçar”.

Um pouco menos violenta segue a mãe de Elton John. Contudo, ela culpa ao garoto pelo divórcio com o pai, um belo combustível para a tristeza e escapismo do artista.

Assim, os momentos de fantasia, geralmente aliados às canções do longa, se mostram com a fuga do pequeno inferno pessoal de Elton John. É sempre diante do piano, cantando ou relembrando a música que o filme se permite extravasar para a fantasia, quase que de musical.

Sons

É preciso tirar um elefante da sala aqui. Rocketman não é um musical. Contudo, tem traços disso. Um paralelo muito semelhante é Across The Universe, o filme que conta a história dos Beatles.

Existe uma trama, com falas, cenas e toda sorte de ferramentas narrativas típicas de um drama. Contudo, diante das músicas de Elton John, há um momento em que traços de musical aparecem. Até para representar esse escapismo do personagem principal.

Contudo, vale perceber que o foco aqui não é a música, mas o ser humano. Por isso, Rocketman acerta e muito ao renegar as principais canções de Elton John ao seu papel de mera trilha sonora. Por mais tentador que pudesse parecer a solução fácil de encher o longa e transformá-lo em uma grande sequência musical, Rocketman segura a mão e transforma essas músicas em orgânicas ferramentas de roteiro. Não à toa, as próprias letras fazem parte das falas, motivo pelo qual a versão legendada também traduz as canções.

Músicas aparecem apenas em momentos chave do longa (Foto: Divulgação/Paramount)

Outro ponto positivo que denota que a música não é protagonista nesta trama é o fato de que todos atores, vez ou outra, cantam. As apresentações estão muito bonitas, agradáveis e, mais importante, fiéis ao que faz Elton John. Há espaço para cada ator soltar uma nota, o que engrandece ainda mais os momentos em que Egerton se sobressai.

Escrita

O bonito do filme é que ele também apresenta ao espectador a figura de Bernie Taupin, o principal letrista e amigo de Elton John. Os dois se conheceram por acaso ao se inscreverem para uma vaga de compositores de uma gravadora.

Chegaram a morar juntos até o sucesso de Your Song, música escrita na casa da mãe de Elton John. A amizade dos dois e a confidencialidade entre ambos é descrita de uma forma muito bonita. Embora o filme seja sobre o Rocketman, é claro que o longa quis dedicar um espaço cativo para Taupin, indicado quase que como a única pessoa que se aproximou dele por amizade e não interesse.

Taupin é apresentado como um fiel amigo injustiçado por um Elton John imerso em drogas, álcool e depressão. O pai do artista nunca se interessou pelo filho, somente quando pede que assine um álbum para um amigo. A mãe se mostra distante quando ele abre a verdade sobre a sua homossexualidade. Seu antigo agente e primeiro grande amor, John Reid, se mostrou interessado somente em seu sucesso.

Amizade entre músico e compositor é bem retratada na trama (Foto: Divulgação/Paramount)

A figura de Taupin, portanto, funciona como o escudeiro quase que maniqueistamente bom, impenetrável pelo mal que assolava a todos que estavam perto de Elton John. Sabendo que essa é a imagem que o cantor tem do amigo, é bem bonito como esse filme é quase que um agradecimento a Taupin. Os dois ainda compõem juntos até hoje.

O não dito

Uma crítica negativa possível de Rocketman é que o filme não fala da relação do artista com outros músicos. São raros os cantores com quem ele fez um dueto aparecerem na trama. Contudo, isso é bem explicado diante do mote do filme: mais uma vez, não é sobre o sucesso, mas sobre o fracasso de Elton John.

Tudo que ele precisou superar em todos esses anos está muito bem esmiuçado na trama. O resto, apenas pincelado aqui e ali.

Isso faz de Rocketman não uma obra documental, como já produziu o marido do próprio artista. O filme é uma dramatização pessoal dos seus fantasmas e como ele lidou com aquilo. Em mais de uma hora de tela, estamos diante da confissão real de Elton John. Como se participássemos de um encontro do AA com o artista.

Filme pega Elton John em seu pior momento (Foto: Divulgação/Paramount)

O filme ainda consegue fazer isso sem cair no clichê fácil da volta por cima. Tanto que abraça exatamente o período de problemas do cantor. Ele poderia ser apenas uma trama que coloca a culpa nos pais e sucesso, descobrindo o perdão a tudo isso no final. Contudo, Rocketman não cai nessa. Elton John sabe que o inferno não são os outros e joga a responsabilidade de seus atos para si mesmo.

Mais uma vez, um nível de honestidade para um artista atual que poucas vezes vi no cinema. Rocketman é quase uma biografia póstuma em vida. De um artista que quebra barreiras sem muito medo de mostrar quem realmente é.

Rocketman estreia no Brasil no dia 30 de maio. Conta com produção da New Republic Pictures, Marv Films e Rocket Pictures, com distribuição da Paramount Pictures. O Canaltech assistiu ao filme à convite da Paramount.

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