Pesquisadores reconstroem rosto de migrante medieval enterrado em latrina

Pesquisadores reconstroem rosto de migrante medieval enterrado em latrina

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 30 de Março de 2022 às 12h25
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Os restos mortais de nove adultos e cinco crianças, encontrados em 1975 na cidade de Cramond, perto de Edimburgo, capital da Escócia, foram alvo de estudos por arqueólogos da University of Aberdeen. Os pesquisadores utilizaram técnicas mais modernas para descobrir novos detalhes dos indivíduos, que haviam sido enterrados nas ruínas de uma latrina romana — e até mesmo reconstruiu as feições de um dos escoceses, que parece ter migrado dentro do país.

Inicialmente, se acreditava que os esqueletos datavam do século XIV, provavelmente vítimas da Peste Negra ou de um naufrágio na região. Além do local de enterro inusitado, o fato de estarem em grupo também é uma característica incomum ao achado. A recente datação por radiocarbono mostrou que os corpos eram, na verdade, 800 anos mais velhos: ou seja, datam do século VI. A pesquisa foi publicada na revista científica Archaeological and Anthropological Sciences.

O homem migrante de Cramond, em reconstrução facial, e ruínas romanas na cidade de Cramond, onde ele foi encontrado (Hayley Fisher/U. of Aberdeen; Steven Harrison/W. Commons; Montagem por Augusto Dala Costa)
O homem migrante de Cramond, em reconstrução facial, e ruínas romanas na cidade onde ele foi encontrado (Hayley Fisher/U. of Aberdeen; Steven Harrison/W. Commons; Montagem por Augusto Dala Costa/Canaltech)

Detalhes da pesquisa

Além da nova datação dos achados, os cientistas também fizeram uma análise isotópica dos dentes dos falecidos, o que revelou muitos detalhes de suas vidas, como dieta e origem geográfica. Kate Britton, uma das autoras do estudo, comentou que o esmalte dos dentes, especialmente os que nascem entre três e seis anos de idade, é como uma cápsula do tempo que traz informações químicas sobre o local onde uma pessoa cresceu. A água e o alimento consumidos pelos indivíduos deixam uma assinatura no corpo.

Os dentes de seis dos indivíduos enterrados na latrina indicam que eles nasceram e cresceram na área local de Cramond, mas uma das mulheres têm resquícios da costa oeste da Escócia, ou seja, no outro extremo do país, e um dos homens indica ter origem nas terras altas do sul, ou Loch Lomond, também no oeste. Isso indica que a migração no início do medievo escocês era mais comum do que se acreditava.

Orsolya Czére, pesquisadora pós-doutoranda e autora principal do estudo, comenta que as viagens nesse período seriam limitadas pela falta de estradas e divisões políticas da época. A análise dos corpos de Cramond, no entanto, junto a outros túmulos na Escócia, têm desafiado essa noção, mostrando que não era incomum ser enterrado longe de onde se nasceu à época.

Posição dos esqueletos do grupo enterrado em Cramond, Escócia (Imagem: City of Edinburgh Council, 2014/Reprodução)
Posição dos esqueletos do grupo enterrado em Cramond, Escócia (Imagem: City of Edinburgh Council, 2014/Reprodução)

Com a migração, desenvolvimentos culturais e trocas genéticas ocorreram, além de sangrentos conflitos de classe: Orsolya comenta que estudos anteriores sugerem que os corpos estudados eram de uma classe social elevada, talvez até mesmo da nobreza. A nova análise mostra que eram indivíduos bem conectados e com vidas que os levaram a cruzar o país — mas alguns dos corpos, como o de uma mulher e de uma criança pequena, mostram sinais de contusões fortes no crânio antes da morte. Independente da origem, o grupo de migrantes parece ter encontrado um fim pouco pacífico.

Fonte: University of Aberdeen 1, 2

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