Pegada de hominini misterioso de 3,66 milhões de anos é encontrada na África

Pegada de hominini misterioso de 3,66 milhões de anos é encontrada na África

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 19 de Maio de 2022 às 17h10
McNutt et al/Nature

Cientistas da Ohio University Heritage College of Osteopathic Medicine descobriram provas de que duas espécies de hominini andaram juntas no leste africano há 3,66 milhões de anos. As pegadas ficaram preservadas na lama feita por cinzas vulcânicas, tendo sido encontradas há quase 50 anos, mas foi só agora que o trabalho de bioantropólogos revelou mais sobre elas.

As pegadas foram identificadas nos anos 1970 no sítio arqueológico de Laetoli, na Tanzânia, e são consideradas por muitos como as evidências mais antigas de ancestrais humanos bípedes. Muitas espécies deixaram marcas de suas patas no local, como elefantes, coelhos e antílopes, graças à atividade vulcânica outrora frequente.

Os hominini são ancestrais de nós, humanos modernos, e já eram primatas bípedes, como o Australopithecus afarensis (Imagem: DEA Picture Library)
Os hominini são ancestrais de nós, humanos modernos, e já eram primatas bípedes, como o Australopithecus afarensis (Imagem: DEA Picture Library)

Detetives da pré-história

No sítio arqueológico G, foram encontradas pegadas atribuídas a pelo menos três espécimes de Australopithecus afarensis, a mesma espécie do fóssil Lucy, em 1978. Uma descoberta mais recente no sítio S inclui pegadas de dois indivíduos da mesma espécie, mas no sítio A, um achado de 1976 mostra pegadas bem distintas das outras, mais largas, que até acreditou-se pertencer a um urso (Agriotherium africanum).

O mistério seguiu até que os pesquisadores do novo estudo, publicado na revista Nature, decidiram voltar ao sítio A após não conseguirem localizar os moldes das pegadas. Com a ajuda de descrições e mapas antigos, eles foram à Tanzânia em 2019, e compararam as pegadas com as de ursos juvenis de santuários britânicos para determinar que não eram dos grandes mamíferos.

As marcas também foram comparadas com as pegadas de chimpanzés, e, apesar de serem largas como a dos primatas, as proporções internas eram mais semelhantes à dos humanos modernos e das outras pegadas de Laetoli. E mais, foi descoberto que o indivíduo que deixou as marcas cruzava as pernas ao andar, como um modelo de passarela, coisa que chimpanzés e nossos ancestrais mais próximos não conseguem fazer devido ao formato da cintura e dos joelhos.

Pegada do hominini misterioso do sítio A, no topo, e do A. afarensis do sítio G, abaixo (Imagem: McNutt et al/Nature)
Pegada do hominini misterioso do sítio A, no topo, e do A. afarensis do sítio G, abaixo (Imagem: McNutt et al/Nature)

Os pesquisadores acreditam que o modo de andar tenha sido produzido por uma criança enquanto brincava, ou alguém escorregando ou caindo — talvez até uma passada única do hominini em questão. Mas, principalmente, as pegadas não se encaixam com as de A. afarensis dos outros sítios de Laetoli, tendo um dedão mais pronunciado, por exemplo.

É sabido que outras espécies de hominini andavam pelo leste africano há 3,66 milhões de anos — incluindo os Australopithecus deyiremeda e os Kenyanthropus platyops —, mas cientistas ainda não encontraram pés pertencentes a nenhum espécime destes para ter uma base de comparação. Outra possibilidade ventilada é de que as pegadas sejam de alguma espécie ainda desconhecida.

Pela análise sedimentar, conclui-se que uma camada de cinzas vulcânicas cobriu o chão de Laetoli, e foi nessa camada que os animais e hominini andaram. Após deixar as pegadas na lama das cinzas, outra camada vulcânica as enterrou, o que pode ter acontecido entre alguns dias até meses, preservando tudo.

Mais estudos são necessários, mas os cientistas estão convencidos de que isso é prova de que dois hominini andaram no mesmo local na mesma época — e não escondem a empolgação com a descoberta.

Fonte: Nature

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