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O que aconteceria se Thanos tivesse matado metade dos seres vivos de verdade?

Por Rafael Rodrigues da Silva | 23 de Abril de 2019 às 13h17
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Um ano depois de Thanos ter matado metade das criaturas vivas do universo com um estalar de dedos em Vingadores: Guerra Infinita, finalmente saberemos o fim da história com a estreia de Vingadores: Ultimato nesta quinta-feira (25).

De acordo com Kevin Feige, presidente do Marvel Studios, a estalada de Thanos aniquilou não somente metade dos humanos, mas também metade de todas as outras formas de vida existentes na Terra — cachorros, gato, leões, hipopótamos, ratos, mosquitos, baratas, macieiras, mangueiras, jaqueiras, samambaias, cactos, bactérias, lactobacilos vivos, enfim, se é considerado como “vida” pelo seu livro de biologia, o Thanos matou metade do que existe.

Pensando nesses termos, é possível imaginar que uma aniquilação dessa magnitude significaria um enorme desastre ambiental para o planeta caso ela viesse a acontecer de verdade. Para entender as implicações que o plano de Thanos teriam no mundo real, a Earther conversou com diversos cientistas a fim de descobrir os efeitos de uma extinção repentina de metade de todas as formas de vida do planeta. E, ainda que um evento desses pudesse causar um caos ecológico e levar alguma espécies ameaçadas à extinção, de certa forma isso não faria muita diferença para a continuidade do planeta.

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You know nothing, Thanos

Antes de começar a falar sobre os sobreviventes, temos de lembrar que o massacre desejado por Thanos tinha como objetivo evitar que os seres vivos sencientes sofressem pela falta de recursos naturais — algo que ele viveu em seu planeta natal e que marcou a vida dele desde cedo.

Mas, de acordo com Ken Lacovara, paleontologista da Universidade de Rowan (EUA), o plano de Thanos não ajudaria em nada na preservação dos recursos de um planeta. Lacovara tem por objeto de estudo uma outra catástrofe que aniquilou praticamente toda a vida na Terra (o meteoro que caiu no planeta há 66 milhões de anos e iniciou os eventos que acabaram por extinguir os dinossauros) e afirma que matar metade de todos os seres vivos ajudaria a diminuir o uso de recursos naturais apenas imediatamente, mas que dentro de poucas décadas tudo já estaria de volta ao estado anterior à estalada de dedos.

Isso porque o crescimento da população humana não é constante, mas exponencial. Desde o surgimento do primeiro ser humano até 1960, a população da espécie no planeta alcançou o patamar de 3 bilhões de pessoas. A partir daí, levou apenas 40 anos para que mais 3 bilhões de pessoas fossem inseridas no planeta, com a população mundial atingindo a marca de 6 bilhões no ano 2000. Isso quer dizer que, mesmo que Thanos acabasse com metade da população humana em um estalar de dedos, em menos de meio século nós já teríamos voltado à mesma quantidade de pessoas existentes hoje, resultando em praticamente nenhuma diferença no consumo dos recursos do planeta.

Até porque, o próprio homem tem usado essa tática de aniquilar metade de uma população para aumentar os índices de crescimento. Lacovara explica que, historicamente, as empresas especializadas na caça de focas e baleias costumam aniquilar metade de toda a população daquele animal assim que chegam a uma nova área de extração, pois descobriram que, na maioria dos casos, essa aniquilação repentina de metade da população do animal eleva o ritmo de reprodução da área ao máximo da espécie, aumentando ainda mais a quantidade de animais daquela espécie existente na área.

Assim, a catástrofe proposta por Thanos, em matéria de diminuir o consumo de recursos, pode não ter o efeito esperado, pois a aniquilação repentina de metade dos seres vivos pode fazer com diversas espécies se reproduzam em ritmo acelerado, aumentando ainda mais a quantidade de seres existentes e, consequentemente, aumentando o consumo dos recursos naturais do planeta.

O mundo é dos coelhos

Isso não quer dizer que uma medida dessa não trará um desequilíbrio para os ecossistemas do planeta. De acordo com Janet Hoole, especialista em comportamento animal e evolução humana da Universidade de Keele, no Reino Unido, explica que as diferentes estratégias de sobrevivência das espécies podem, em um evento como o provocado por Thanos, dar uma larga vantagem a espécies que se reproduzem rapidamente e em larga escala sobre aquelas que se reproduzem em um ritmo mais lento.

Isso significa que praticamente todas as espécies de insetos, assim como mamíferos como ratos, cangurus e coelhos iriam se beneficiar muito dessa catástrofe, pois conseguiriam dominar ecossistemas inteiros com sua rápida capacidade de reprodução. Por exemplo, um sapo costuma botar cerca de 20 mil ovos em uma única estação, então em cerca de um ano a espécie conseguiria restaurar toda a sua população. Já os mosquitos demorariam apenas três meses caso a aniquilação aconteça próxima ao verão (estação em que a reprodução dos mosquitos está em seu auge).

Já aquelas espécies que possuem uma reprodução mais lenta, como leões, tigres, hipopótamos e basicamente todos os mamíferos de grande porte, irão demorar muito mais tempo para recuperar os seus números. Sem contar que a solução de Thanos pode ser o golpe de misericórdia para espécies que já estão em risco de extinção.

Gato-do-deserto, espécie em risco de extinção e que conta com menos de 100 exemplares vivos (Imagem: Flicker/@home_77Pascale)

Lacovara aponta para algumas espécies que a “estalada” de Thanos pode significar não a salvação, mas a extinção completa. Por exemplo, o gato-do-deserto, que vive nas regiões do norte da África e no Oriente Médio. Atualmente há menos de cem exemplares dessa espécie vivendo em seus habitats naturais, e eliminar metade deles só irá tornar ainda mais difícil o acasalamento e reprodução, pois aumentará as chances de que essas criaturas vivam a vida inteira em uma área sem nunca encontrar outra exemplar da espécie, além de torná-la mais suscetível a caçadores ou à extinção por doenças ou desastres naturais (como furacões e erupções vulcânicas). O mesmo pode ser dito para o rinoceronte-de-java, que tem apenas 50 exemplares vivendo fora de cativeiro, e o gibão-de-hainan, com apenas 23 exemplares vivos.

Assim, os habitats que hoje são ocupados por essas espécies maiores e de reprodução mais lenta seriam rapidamente dominados por aquelas que se reproduzem mais rápido, gerando um desequilíbrio ambiental que, segundo Hoole, criaria um ecossistema global onde animais raros se tornariam ainda mais raros e com uma variedade genética ainda menor.

Há ainda a chance de que essa extinção repentina bagunçasse todas as relações de presa/predador e de mutualismo (como a relação entre flores e abelhas) existentes na natureza, mas esses ciclos são tão complexos que é impossível prever com exatidão como um evento desses poderia influenciar essas relações e se ele criaria algum tipo de “vencedor” e “perdedor”.

Lacto-vacilo

Mas não foi apenas nos ecossistemas em escala macro que a estalada de Thanos criaria problemas. Afinal, o titã matou metade de TODOS os seres vivos, incluindo bactérias. De acordo com Ben Libberton, um microbiologista e jornalista científico, os micróbios existentes no corpo humano provavelmente nem sentiriam o choque — afinal, regularmente nós tomamos antibióticos que podem potencialmente matar até mais do que a metade das bactérias de nosso estômago. Apesar disso, a característica aleatória dessa aniquilação pode fazer com que algumas bactérias que normalmente têm sua reprodução suprimida consigam se reproduzir mais rapidamente, mexendo com o equilíbrio da flora intestinal e causando efeitos como azia e diarreia. Isso pode significar que um dos primeiros efeitos que você sentirá ao ver seus entes queridos e vizinhos sumindo do nada é uma baita vontade de ir ao banheiro.

Apesar disso, a maior preocupação de Libberton é com os micróbios importantes para a sobrevivência de ecossistemas fora do organismo humano, como aqueles responsáveis por reciclar os nutrientes do solo ou ainda aqueles que garantem o nitrogênio necessário para as algas e outras plantas submarinas. Se de repente metade desses micróbios simplesmente sumissem, poderia colocar a vida desses ecossistemas em risco.

Apesar disso, independentemente das implicações micro ou macro da estalada de Thanos, em uma coisa todos os cientistas concordam: esse não seria nem de longe o pior evento de extinção que já aconteceu com a Terra.

Meteoro rainha, Thanos nadinha

Alfio Alessandro Chiarenza, doutor em paleontologia do Colégio Imperial de Londres, afirma que fósseis encontrados em suas pesquisas provam que a matança causada por Thanos não é nada perto do impacto de asteróides, erupções vulcânicas e mudanças climáticas que o planeta já sofreu e que já mataram muito mais do que metade dos seres-vivos.

Chiarenza lembra da Grande Agonia (também conhecido como Extinção do Permiano-Triássico), um evento de extinção que ocorreu há 252 milhões de anos ocasionado por grandes erupções vulcânicas que induziram mudanças climáticas no planeta e que foi responsável por matar 96% de todas as espécies de vida marinhas da época.

E não podemos esquecer nos eventos causados pelo próprio homem, como a poluição dos ecossistemas, a degradação ambiental e os desastres causados por ignorar os procedimentos de segurança na extração de recursos naturais, como os derramamentos de óleo nos oceanos e a quebra das barragens em Brumadinho e Mariana, que, ao longo da existência do homem, já causaram mais mortes do que as desejadas por Thanos.

Por isso mesmo a solução de Thanos pode até ser positiva para algumas espécies, já que a diminuição drástica da espécie humana pode ajudar alguns animais selvagens e plantas silvestres a se reproduzirem melhor com a diminuição da caça ilegal e do desmatamento. Mas, claro, isso apenas em um curto prazo, já que, pensando no geral, essa aniquilação fará pouca ou quase nenhuma diferença, já que os humanos possuem a capacidade de recuperar a sua população atual em menos de 50 anos.

No fim, o plano de Thanos não ajudaria a salvar ninguém e só criaria mudanças traumáticas em diversos ecossistemas do planeta sem, exatamente, cooperar para a manutenção dos escassos recursos existentes. E é exatamente pelo fato de ele ter perdido anos viajando pelo universo para reunir seis pedrinhas mágicas com o único intuito de completar esse plano sem sentido e inútil que torcemos para que ele apanhe muito quando Vingadores: Ultimato estrear nesta semana.

Fonte: Earther

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