Fósseis raros revelam que ancestrais humanos comiam carne de elefante
Por Júlia Putini • Editado por Luciana Zaramela |

Em um estudo publicado neste mês, pesquisadores descobriram o que pode ser o primeiro caso de ingestão de carne de animais pela espécie humana. A lógica primitiva do que hoje é a prática açougueira foi revelada por meio do crânio de um elefante já extinto, encontrado na Índia.
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A pesquisa foi publicada no periódico científico Journal of Vertebrate Paleontology, e é a continuação de estudos feitos quando o fóssil foi descoberto, em 2000, na cidade de Parampore.
Agora foram identificadas a espécie do animal, a causa de sua morte e evidências de intervenção humana. Junto ao crânio, considerado um fóssil raro, foram encontradas 87 ferramentas de pedra feitas pelos ancestrais dos humanos modernos.
A equipe envolvida na exploração tem cientistas indianos e britânicos e descreve que “evidências convincentes de exploração de elefantes têm sido raras, com poucas evidências de caça, em oposição à coleta de alimentos”.
A ossada é a mais completa já encontrada e pertence a um macho adulto de um gênero extinto de elefantes chamado Palaeoloxodon turkmenicus, que tinha mais que o dobro do peso dos elefantes africanos de hoje. O achado é datado da época do Pleistoceno Médio, um período que corresponde a um momento-chave na história evolutiva humana.
De acordo com uma pesquisa do Núcleo de Pesquisa e Divulgação em Evolução Humana da Universidade de São Paulo (USP), o Pleistoceno Médio foi quando se deu o surgimento do Homo sapiens no planeta, algo entre 300 mil e 400 mil anos atrás.
Além disso, foi uma época em que ocorreram várias inovações tecnológicas, como se verifica nos achados da pesquisa indo-britânica, devido à presença de lascas de ossos de elefante.
Esse material sugere que os primeiros humanos golpearam os ossos para extrair medula, o popular tutano, um tecido gorduroso cuja ingestão fornece bastante energia ao organismo.
“Então, a questão é, quem são esses hominídeos? O que eles estão fazendo na paisagem e estão indo atrás de caça grande ou não?”, questionou Advait Jukar, um dos autores dos estudos sobre o crânio animal e curador de paleontologia de vertebrados no Museu de História Natural da Flórida.
“Agora sabemos com certeza, pelo menos no Vale da Caxemira, que esses hominídeos estão comendo elefantes”, concluiu o pesquisador.
No entanto, não há evidências de caça ou abate do animal, apenas do consumo de sua carne. A hipótese é de que o elefante morreu de causas naturais, uma vez que análise do crânio revelou o crescimento anormal de estruturas ósseas nos seios da face, o que indica que o animal sofria de sinusite.
A descoberta em 2000
Os restos mortais do elefante foram descobertos no final de agosto de 2000, no Vale da Caxemira, em uma região onde fica uma pedreira. Para escavar o grande crânio foram necessárias várias semanas de trabalho.
Ao todo, foram encontrados ossos de três elefantes, sendo um deles o crânio do macho adulto, outro de um indivíduo jovem e um terceiro não identificado por falta de material. Além do crânio mais completo já encontrado na Índia, foram recuperadas também ambas as mandíbulas, parte das vértebras do tórax, costelas e outros fragmentos.
O Palaeoloxodon se originou na África há cerca de um milhão de anos e depois se dispersou na Eurásia. Muitas espécies do gênero são conhecidas por terem uma testa anormalmente grande, diferente de qualquer espécie de elefante viva, com uma crista que se projeta sobre suas narinas.