Fim das bolsas do CNPq pode defasar ciência brasileira, alerta Nature

Por Rafael Rodrigues da Silva | 20 de Agosto de 2019 às 15h50
Depositphotos

O Brasil está prestes a sofrer um dos maiores golpes já dados contra a ciência do país, e até mesmo as publicações internacionais têm se mostrado preocupadas com um cenário o qual possivelmente já não há mais como contornar.

Na última segunda-feira (19), a Nature, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo, publicou um artigo no qual mostra preocupação com a suspensão das mais de 80 mil bolsas de pesquisa pagas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o maior fomentador da pesquisa nacional em todos os ramos do conhecimento.

No dia 15 de agosto, o CNPq confirmou que, a partir de setembro, não irá mais pagar para nenhum dos mais de 80 mil pesquisadores que recebem bolsas do órgão, sejam eles do nível da graduação, pós-graduação, mestrado ou doutorado. A medida ocorre por conta da recusa do governo brasileiro de liberar os R$ 330 milhões que foram “congelados” em março no orçamento do órgão, impedindo que esse dinheiro seja usado e fazendo então que o CNPq não tenha dinheiro em caixa para continuar mantendo o pagamento dos pesquisadores brasileiros. Caso o dinheiro seja liberado nas próximas semanas, o órgão pode manter a agenda de pagamentos dos pesquisadores até o fim do ano, mas por enquanto ainda não há nenhuma movimentação que indique que essa liberação deverá acontecer.

De acordo com Paulo Artaxo, pesquisador de física da Universidade de São Paulo, essa decisão do governo colocará em risco o futuro de toda uma geração de cientistas, e o cancelamento das bolsas trará um impacto negativo muito grande para a ciência do país, já que quase a totalidade das pesquisas que ocorrem no Brasil acontecem dentro das Universidades, onde os cientistas são pagos por bolsas disponibilizadas por órgãos como o CNPq — que, por ser o maior e conceder a maior quantidade de bolsas, é o que atingirá um número maior de pessoas.

Isso acontecerá porque, para receber essas bolsas de pesquisa do CNPq, os pesquisadores não podem possuir nenhum outro tipo de emprego, seja formal ou informal, e devem se dedicar exclusivamente à função de pesquisadores. Assim, em um país que já possui mais de 13 milhões de desempregados (segundo dados do IBGE divulgados em maio), o fim do pagamento dessas bolsas fará com que, da noite para o dia, mais de 80 mil pessoas fiquem sem uma renda própria, ampliando não somente as estatísticas de desemprego como também obrigando muitos desses pesquisadores — principalmente aqueles que não possuem uma família com condições de sustentá-los — a abandonar seus estudos, que podem estar sendo desenvolvidos há anos, e procurar outro trabalho remunerado.

E é por isso que, em 13 de agosto, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, junto com outras 97 entidades de pesquisa e instituições acadêmicas, lançou uma petição online exigindo que o governo descongele a verba para o CNPq e mantenha o investimento que já havia sido definido para o ano de 2019 para o órgão. Disponível na plataforma Change.org, a petição já possuía mais de 315 mil assinaturas às 13h da tarde desta terça-feira (20).

Também nesta terça (20), a Sociedade Astronômica Brasileira divulgou um comunicado onde demonstra contrariedade ao congelamento da verba do CNPq, lembrando que bolsas de pesquisa não são auxílios sociais, mas sim o salário pago a cientistas que permitem que esses profissionais possam se dedicar exclusivamente à pesquisa, permitindo que eles não só paguem suas contas, mas também mantenham funcionando seus laboratórios com os equipamentos necessários para a prática da ciência.

O comunicado, que foi publicado na página do Facebook da Sociedade Astronômica Brasileira, pode ser lido na íntegra logo abaixo:

Futuro incerto

A ciência brasileira está vivendo sob uma nuvem de incerteza desde que, em março deste ano, o governo anunciou o congelamento de 42% da verba destinada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) — e é nesses 42% que estão inclusos os R$ 330 milhões que seriam destinados ao CNPq e que não podem mais ser acessados. Desde então, muitos pesquisadores já deixaram o país e tentam concluir suas pesquisas no exterior, mas vários outros não possuem esse poder de escolha e precisam lidar com o fato de que, a qualquer momento, podem não ter mais condições de continuar atuando como pesquisadores aqui no Brasil.

Para Marcos Buckeridge, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, as decisões do governo têm feito a ciência no Brasil andar para trás. E uma das preocupações do Instituto — que possui 31 laboratórios, divididos entre cinco estados do país, especializados em desenvolver combustíveis a partir de plantas e dejetos animais — é de que, caso o CNPq não consiga mais pagar as bolsas dos pesquisadores em 2019, a debandada seja tão grande que o Instituto não terá mais pessoal suficiente para continuar com seus experimentos.

Até o momento, o CNPq e o MCTIC continuam em negociações com o Ministério da Economia para a liberação de verba adicional para ao menos continuar o pagamento das bolsas já existentes. No entanto, ninguém sabe se essa liberação ocorrerá em tempo de evitar uma debandada dos pesquisadores para outras áreas do mercado, ou para outros países onde há mais incentivo à atividade científica.

Fonte: Nature

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.