Estudo brasileiro pode mudar tudo o que sabemos sobre a evolução humana

Por Rafael Rodrigues da Silva | 11 de Julho de 2019 às 20h19

A história do surgimento do homem moderno e o início da humanidade já é algo bastante complicado, mas cientistas brasileiros fizeram uma descoberta que pode mudar para sempre tudo o que já sabíamos sobre ela.

Isso porque pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) escavaram o vale do rio Zarqa (na Jordânia) e encontraram centenas de ferramentas de pedra lascada, produzidas por mãos humanas, que possuem entre 1,9 e 2,5 milhões de anos de idade.

O “problema” é que, de acordo com a teoria vigente para o início da humanidade, é que o primeiro homo (linhagem que deu origem aos seres humanos modernos) que deixou a África e se espalhou por outras regiões do globo foi o Homo erectus, e essa dispersão aconteceu entre 1,8 e 2 milhões de anos atrás. Assim, com a descoberta das ferramentas na Jordânia, a ideia agora é que essa dispersão já havia começado há pelo menos meio milhão de anos antes.

A nova narrativa para a evolução humana foi apresentada no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e, ainda que o trabalho não chegue a cravar quem foi o responsável por essa dispersão anterior ao Homo erectus, o pesquisador Walter Neves (professor aposentado do Instituto de Biociências da USP e pesquisador do IEA) tem convicção de que o responsável por criar aquelas ferramentas encontradas na Jordânia foi o Homo habilis. Para Neves, ele é o principal e único suspeito, pois era a única espécie que já vagava pela África há 2,5 milhões de anos.

Pedras lascadas encontradas na Jordânia, que provariam que o Homo habilis foi o primeiro hominídeo a sair da África (Imagem: Cecília Bastos/USP Imagens)

Os pesquisadores garantem que não há dúvidas sobre a idade dos artefatos e nem do fato de eles terem sido produzidos por ancestrais humanos, já que há evidências muito claras de lascamento intencional. As peças encontradas são em sua maioria núcleos e lascas de pedra, que os ancestrais mais primitivos do gênero homo usavam para quebrar objetos e cortar peles dos animais dos quais se alimentavam. Neves ainda explica que não foram encontrados fósseis porque a região escavada possui características que acabam não conservando bem os ossos, mas a quantidade de ferramentas encontradas deixa claro que diversos hominídeos viveram naquela região muito antes do que a evolução humana considerava possível.

Um dos maiores especialistas brasileiros em evolução humana e considerado como “pai da Luzia” por conta de seu trabalho com o fóssil mineiro que virou o símbolo do povoamento das Américas, Neves acredita que as ferramentas encontradas foram produzidas por uma população de Homo habilis recém-saída da África e que se dirigia à região do Cáucaso. Isso porque é naquela região que o Homo habilis daria origem ao Homo erectus, uma espécie maior e mais inteligente de hominídeo, que é considerada a precursora do homem moderno (cientificamente conhecido como Homo sapiens).

Isso explicaria também os famosos fósseis Dmanisi, na República da Geórgia, que possuíam uma grande variedade morfológica e datavam de 1,8 milhões de anos atrás. Para Neves, esses fósseis seriam um exemplo da forma transitória entre o Homo habilis e o Homo erectus, o que explicaria porque os fósseis encontrados possuem características de ambos.

Professor Walter Neves com as pedras encontradas na Jordânia (Imagem: Cecília Bastos/USP Imagens)

Os crânios de Dmanisi são o foco de um enorme discussão científica que tenta explicar o que eles seriam, e muito pesquisadores chegaram até a defender que o Homo habilis e o Homo erectus não seriam espécies diferentes de hominídeos, mas variações de uma mesma linhagem que possui diferenças anatômicas entre si, como acontece com os chimpanzés. Neves acredita que a descoberta da Jordânia e os resultados da pesquisa brasileira irão encerrar de vez essa discussão, pois mostram que a variação existente nos crânios de Dmanisi é exatamente o tipo de coisa que se espera de uma espécie transitória. Assim, o Homo erectus não teria surgido na África, mas evoluído primeiramente na região do Cáucaso e só então migrado para a África, onde as ossadas encontradas datam de 1,8 milhões de anos atrás.

A saída do Homo habilis da África também ajudaria a explicar a descoberta recente de artefatos de pedra lascada em Shangchen, no leste da China, datadas de 2,1 milhões de anos atrás — ou seja, bem anteriores ao Homo erectus. Neves também acredita que essas ferramentas encontradas no país asiático foram produzidas pelo Homo habilis, o que tornaria a espécie não apenas a primeira a sair da África, mas também a primeira a ocupar a Eurásia.

Assim, Neves é um dos primeiros pesquisadores a defender que o “grande desbravador” da história da evolução humana não foi o Homo erectus, mas sim o Homo habilis. Apesar de ser bem menor do que o Homo erectus tanto em estatura (1,20 m contra 1,75 m) quanto em volume cerebral (650 cm³ contra 850 cm³), o Homo habilis já era bípede e perfeitamente capaz de andar longas distâncias — algo que os artefatos encontrados na Jordânia e na China parecem comprovar.

Além de Neves, o trabalho também é assinado por outros seis pesquisadores: Fábio Parenti, arqueólogo do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Giancarlo Scardia, da Universidade Estadual Paulista (UNESP - Rio Claro), Astolfo Araújo, geoarqueólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Axel Gerdes, do Centro de Pesquisa de Elementos e Isótopos da Universidade Goethe de Frankfurt (Alemanha) e Daniel Miggins, do Laboratório de Geocronologia Argônica da Universidade do Estado do Oregon (Estados Unidos). O estudo foi publicado no último sábado (6) na revista Quaterly Science Reviews.

Escavação no Vale do Zarqa, onde as ferramentas foram encontradas pelos pesquisadores brasileiros (Imagem: Astolfo Araújo)

O lugar de publicação pode parecer meio estranho, já que normalmente estudos dessa importância — que podem mudar toda a narrativa sobre a evolução do ser humano — costumam ser publicados em revistas de maior impacto, como a Nature ou a Science. Mas Neves explica que nenhuma das duas publicações quis saber do que se tratava o estudo por conta de ter sido uma descoberta brasileira.

Neves afirma que ainda há muito preconceito no mundo acadêmico da paleoantropologia e que a comunidade científica internacional não acredita que existam pesquisadores sérios e inteligentes em qualquer outra universidade que não esteja nos Estados Unidos ou na Europa. Assim, além das maiores publicações do mundo não terem mostrado interesse em publicar o estudo, o pesquisador sabe que as descobertas brasileiras serão vistas com muito ceticismo pela comunidade acadêmica internacional, pois haverá um movimento muito forte de não aceitação das descobertas pelo fato de elas terem sido feitas por pesquisadores brasileiros.

Mas Neves ainda conta que sempre teve um único objetivo em mente: não se aposentar sem antes colocar o Brasil no “mapa” dos estudos da paleoantropologia mundial. E, ao fazer com o que provavelmente será o seu último grande projeto de pesquisa seja algo que prove que todo mundo estava errado não apenas em seu preconceito, mas também em sua narrativa de como se deu a evolução humana, será a versão mais próxima que teremos no mundo acadêmico de alguém indo embora chutando a porta e mostrando os dois dedos do meio em riste para todo mundo.

Fonte: Jornal USP

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