Carta inédita de Albert Einstein relaciona migração dos pássaros e física; veja

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 19 de Maio de 2021 às 17h00
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Um dos maiores pensadores do século XX, Albert Einstein é, até hoje, fonte de inspiração para novos projetos e descobertas. Por exemplo, a Teoria da Relatividade Geral, proposta por ele, ainda fornece as correções necessárias para a determinação da localização através do Sistema de Posicionamento Global (GPS). Nesse sentindo, a descoberta de novos documentos e cartas do teórico alemão costumam ser objeto de análise, como uma em que ele reflete sobre os fenômenos por trás da migração das aves.

Escrita em outubro de 1949, a carta inédita de Einstein foi direcionada a um engenheiro da Marinha Real Britânica, Glyn Davys. Na primeira troca entre eles, Davys perguntou, provavelmente, se era possível aprender novos conhecimentos sobre navegação a partir do voo de aves migratórias, como se percepção animal pudesse levar a inovações na física. “É plausível que a investigação do comportamento das aves migratórias e dos pombos-correio possa, um dia, levar à compreensão de algum processo físico que ainda não é conhecido”, escreveu Einstein na resposta.

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Carta inédita de Einstein aponta para a importância da observação de aves migratórias para a físcia (Imagem: Reprodução/Andrew George/Unsplash)

Entendendo a resposta de Einstein sobre as aves migratórias 

Pode parecer banal a resposta de Einstein sobre a pergunta, mas não o é para a sua época. Isso porque aceitar a possibilidade de que alguns animais podem perceber campos magnéticos e usar essas informações para se locomover era algo bastante ousado. Na década de 1940, a maioria dos estudos presumia que os animais só eram capazes de empregar os cinco sentidos humanos, como visão, som, tato, olfato e paladar, para se integrar ao ambiente. Nesse aspecto, não era plausível aceitar que algumas espécies tivessem capacidades sensoriais diferentes e que isso pudesse ser aplicado, um dia, aos princípios da física.

Segundo os pesquisadores australianos responsáveis pela descoberta e análise do documento, embora a carta de Einstein seja breve, ela traz elementos importantes — e que só começaram a ser confirmados hoje — sobre a percepção sensorial animal. Na mensagem, o teórico alemão explica que estava "bem familiarizado com a admirável investigação do Sr. v. Frisch". Para entender: Karl von Frisch estudou, por anos, a percepção sensorial das abelhas e estabeleceu a abelha como um modelo animal chave para estudos comportamentais experimentais sobre percepção sensorial.

Carta inédita de Albert Einstein recém-descoberta (Imagem: Reprodução/Dyer et al., 2021/Journal of Comparative Physiology A)

No momento, Einstein escreveu: "Não vejo a possibilidade de utilizar esses resultados [a percepção sensorial das abelhas] na investigação sobre os fundamentos da física. Tal só poderia ser o caso se um novo tipo de percepção sensorial e de seus estímulos fosse revelado através do comportamento das abelhas”. No entanto, o teórico entendia que estudos sobre o movimento das aves pudessem ser a chave para questão.

O que a ciência descobriu desde então?

Embora Einstein não pudesse saber, o estudo do comportamento das abelhas — e de outros animais — revelou alguns fenômenos novos e interessantes sobre como o mundo pode ser "sentido" de outras maneiras e isto foi fundamental para o aperfeiçoamento de inúmeras tecnologias, como os sensores e a robótica. Isso porque muitos animais precisam, mesmo que instintivamente, saber sobre a sua própria localização em um ambiente, enquanto viajam em busca de comida, companheiros ou abrigo, por exemplo.

Neste percurso, habilidades de navegação sofisticadas são importantes para os animais e foram aperfeiçoadas ao longo da evolução. É o caso do escaravelho africano (Scarabaeus satyrus) que pode "navegar" a partir da junção de diferentes observações do ambiente, como a posição do Sol, da Lua e o padrão de polarização celeste para se moverem em linha reta. Mesmo em noites sem estrelas ou Lua no céu, estes insetos podem se mover em linha reta através de seus sensores naturais, conforme apresentaram os pesquisadores que analisaram a carta de Einstein.

De forma geral, estas são as evidências que faltavam para o pensamento da época — e de toda humanidade — dar um novo salto científico. Agora, as capacidades sensoriais, mesmo que ainda sejam objetos de investigação, já contribuem com o desenvolvimento de soluções para problemas complexos.

Vale lembrar que pesquisadores dos Arquivos Albert Einstein, da Universidade Hebraica de Jerusalém, onde foram armazenadas a maioria das notas, cartas e registros do teórico após sua morte, autenticaram a veracidade do novo documento.

Para acessar o artigo completo sobre a carta de Einstein, publicado na revista Journal of Comparative Physiology, clique aqui.

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