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Ataques à instalação nuclear de Fordow, no Irã, podem liberar gás tóxico

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Reprodução/Maxar Technologies
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A ofensiva de IsraelEstados Unidos contra instalações nucleares no Irã causaram um temor relacionado a acidentes químicos nos locais. Foram atingidas instalações iranianas como de Natanz, Isfahan e Fordow — com essa última atraindo bastante atenção das autoridades. 

Fordow é a principal instalação iraniana de enriquecimento de urânio a 60%. Segundo Rafael Mariano Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o ataque no local causou crateras e danos significativos às estruturas. 

“Dada a carga explosiva utilizada e a extrema sensibilidade das centrífugas à vibração, espera-se que tenham ocorrido danos muito significativos”, informou Grossi, em declaração na segunda-feira (23). 

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Um dos principais riscos dos ataques a Fordow é a possibilidade de vazamento do gás hexafluoreto de urânio (UF₆), substância tóxica gerada no processo de enriquecimento de urânio. 

“Por ser um elemento químico altamente tóxico, pode causar danos à saúde respiratória e contaminação do meio ambiente”, destaca Aquilino Senra, físico e professor do Programa de Energia Nuclear da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ.

Hexafluoreto e U-235

O processo de enriquecimento de urânio na instalação nuclear de Fordow tem como função principal aumentar a concentração do isótopo U-235, o mais importante para a energia nuclear. O método usado é a ultracentrifugação, onde o mineral é transformado no hexafluoreto de urânio e inserido em centrífugas.

Várias dessas centrífugas são conectadas para alcançar o nível de pureza desejado do U-235, fazendo com que o gás passe por essas etapas para ser progressivamente enriquecido. Logo, um ataque à estrutura onde estão localizadas essas centrífugas pode causar danos muito sérios. 

“O hexafluoreto de urânio é sólido à temperatura ambiente, mas se transforma em gás quando aquecido. Essa substância é altamente tóxica, uma vez que, em contato com a umidade do ar, forma ácido fluorídrico e oxifluoreto de urânio, que são perigosos para a saúde respiratória e com riscos ambientais locais consideráveis”, ressalta o docente da UFRJ. 

Os relatórios mais recentes da AIEA dão conta de que a instalação iraniana conta com 2,7 mil centrífugas contendo UF₆, enriquecendo urânio a até 60% de pureza. A título de comparação, é necessária uma concentração de 90% de U-235 para o desenvolvimento de armas nucleares

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Diferença entre acidente químico e nuclear

Um eventual acidente em uma instalação de enriquecimento de urânio como Fordow seria classificado como químico, e não nuclear. Isso porque, nesse caso, não haveria liberação de radiação ionizante, mas sim a emissão de substâncias tóxicas, com risco de contaminação do ar, da água e do solo.

Já um acidente nuclear envolve a liberação de radiação decorrente de reações nucleares, como fissão ou fusão do urânio enriquecido. Os impactos são mais graves e duradouros, incluindo aumento na incidência de câncer e contaminação de grandes áreas.

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Medidas de segurança

Fordow é uma instalação subterrânea, localizada a cerca de 90 metros de profundidade. Sua construção segue o conceito de “defesa em profundidade”, que consiste na criação de múltiplas camadas independentes e redundantes de proteção, além de sistemas de resposta a falhas e acidentes.

“Essa abordagem visa prevenir e mitigar acidentes que possam liberar materiais perigosos no meio ambiente. As camadas de proteção funcionam de forma integrada para compensar eventuais falhas humanas ou técnicas, sem depender exclusivamente de uma única barreira”, detalha Senra.

O físico ressalta, no entanto, que instalações como Fordow não são projetadas para resistir a ataques com mísseis. Seus sistemas de defesa são voltados a acidentes como quedas de aeronaves ou explosões externas de menor escala.

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Além das barreiras físicas e operacionais, países que utilizam o enriquecimento de urânio para fins pacíficos devem seguir normas estabelecidas por tratados internacionais, como o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). O documento define diretrizes técnicas e obrigações legais para garantir o uso seguro e transparente do material nuclear.

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Fonte: Boletim dos Cientistas Atômicos; Associação Nuclear Mundial; AIEA