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Canais de irrigação? Como um erro astronômico do século 19 criou mito dos "marcianos"

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astronauta em Marte
Nicolas Lobos / Unsplash

Quando falamos sobre vida fora da Terra, é difícil não pensar em figuras como seres esverdeados e de olhos grandes no Planeta Vermelho. Mas, afinal, de onde surgiu a ideia de que poderia haver vida em Marte? Tudo começou em 1877, quando o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli começou a mapear a superfície deste nosso vizinho e identificou algo curioso.

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Em suas observações, ele percebeu que o Planeta Vermelho era coberto por contornos geométricos, com linhas longas, retas e misteriosas; claro que, na época, ele não sabia exatamente o que tinha visto, mas as chamou de “canali”, termo em italiano que, em inglês, foi equivocadamente traduzido para channels, ou canais. E eis que, 15 anos depois, o norte-americano Percival Lowell chegou a uma conclusão parecida.

Embora fosse um amador, ele entrou em contato com dois astrônomos de Harvard e adquiriu instrumentos adequados para observar Marte. Em 1895, ele concluiu que as linhas na superfície de Marte pertenciam a um sistema de irrigação para lá de sofisticado, e mais: o sistema que serviria inclusive para abastecer oásis, os quais seriam responsáveis por regar as plantações dos habitantes do planeta.

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Vida em Marte?

As observações de Schiaparelli não foram exatamente convincentes no que diz respeito à presença de vida inteligente em Marte, mas, de fato, houve sim algum ruído na imprensa. O episódio foi resgatado em um livro do jornalista David Baron, que recordou que, na época, a palavra “marcianos” nem era de uso comum. Com o tempo, Marte e os “marcianos” se tornaram ícones de publicidade e, claro, na cultura pop — afinal, quem não se lembra de “Guerra dos Mundos”, que retrata uma fictícia invasão marciana na Terra?

O mais curioso é que, mesmo neste ponto, a ideia de vida em Marte ainda não tinha conseguido muito apoio. Com o tempo, Lowell e seus colegas encontraram novas “evidências” dos supostos canais de irrigação, e aí tudo começou a ficar mais sério — tanto que até o tradicional jornal New York Times publicou um perfil do autor sob o título “Há vida no planeta Marte”.

Seria injusto torcer o nariz para as colocações de Lowell, já que ele realmente acreditava em suas alegações e, com o tempo, as dele e as de Schiaparelli se mostraram infundadas. Hoje, o cenário é outro — tanto que a ciência já conta com a astrobiologia, a área dedicada ao estudo da origem, da evolução e da distribuição da vida pelo universo.

Por isso, cientistas da NASA e de outras agências espaciais seguem, sim, investigando a possibilidade de vida em Marte, mas não esperam encontrar ser vivo nenhum lá atualmente. Na verdade, a ideia é buscar por pistas de possíveis seres que podem ter existido lá no passado, quando o planeta era mais quente e ainda tinha água.