Quero trabalhar com jogos; por onde começo?

Por Wagner Wakka | 09 de Julho de 2018 às 10h30
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O potiguar Luiz Santos é mestre em computação gráfica e largou seu trabalho em big data para se mudar para a Irlanda, onde arrumou seu primeiro emprego com jogos. Já o americano Jonathan Harris foi bater na porta da Electronic Arts em busca de um estágio como beta tester e virou gerente de marketing da empresa no Brasil. Outro, o também norte-americano Chris Remo, é jornalista e, depois de sete de anos de site na bagagem, foi fazer jogo para a Campo Santo, empresa comprada recentemente pela Valve.

As histórias são diferentes, mas o desfecho é o mesmo: eles trabalham com o tão sonhado universo dos games. Este time todo participou do Big Careers, espaço cativo do Brazil’s Independent Games (BIG) Festival voltado a responder uma pergunta simples: como começar minha carreira em games?

As sessões e palestrantes foram selecionados pela professora do Curso de Jogos Digitais e do curso de Psicologia da PUC-SP, Ivelise Fortim. Antes de começar a entender como entrar no mercado de trabalho de jogos, é preciso primeiro conhecer o setor. “Duas coisas diferente são mercado de games e indústria de games no Brasil. A primeira coisa a se perceber é que há uma mercado muito maior do que uma indústria aqui no país. Logo, isso quer dizer que há um potencial”, aponta a professora em palestra no BIG.

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Vale entrar nesta indústria?

Fortim encabeça o 2° Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais (IBJD) realizado pela empresa da qual é sócia, a Homo Ludens, em parceria com o Ministério da Cultura. Os dados preliminares da pesquisa foram apresentados no BIG e mostram algumas características do setor. Por exemplo, o levantamento mostra que o número de empresas formalizadas na indústria de games dobrou entre 2014 e 2018, um total de 107% no período.

Fonte: 2° Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. (Imagem: Wagner Alves/Canaltech)

O espaço em crescimento é o suficiente para motivar a entrada na indústria? Quem busca responder a esta pergunta é orientadora profissional e pesquisadora no censo citado, Erica Janille Cruz. Ela ressalta que o primeiro erro é acreditar que o prazer de jogar é suficiente para criar o interesse pela indústria. “A coisa que menos se faz em um curso de games é jogar. É importante evitar escolher a carreira pensando que jogos são divertidos, logo a profissão também será. Programar e trabalhar com isso pode não ser tão prazeroso”, ela explica.

Por outro lado, ela aponta alguns atrativos para se entrar neste universo. Além do já citado mercado em crescimento, ela ressalta que trabalhar com games é trabalhar também com tecnologias futuras, fazendo com que a profissão dificilmente fique defasada.

Claro que o fator financeiro também deve pesar na hora de escolher a profissão; logo é importante ficar de olho em quanto ganham as pessoas que estão no meio. Os primeiros dados do Censo revelam que 71,2% das empresas brasileiras faturam até R$ 81 mil, mas apenas 0,3% contam com receita acima de R$ 100 milhões ao ano. Mais importante que isso é que a média salarial de um empregado da indústria dos games depois de formado é em torno de R$ 1.800.

Fonte: 2° Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. (Imagem: Wagner Alves/Canaltech)

“É importante também ter em mente que você não vai entrar entrar na indústria e ficar milionário com o seu primeiro jogo. Assim como qualquer setor, tem gente fora da curva, mas na média é muito trabalho e dedicação”, aponta Cruz.

Formação

Decidido a entrar mesmo no setor, é hora de saber o que é preciso para nadar de braçada no mar do desenvolvimento. A área é muito ampla e aceita profissionais de diversos setores. Isso quer dizer que, para a produção de jogos, é preciso não somente o game designer, mas um artista, um produtor de áudio, um roteirista e até mesmo profissionais para cuidar de setores burocráticos como marketing, financeiro, recursos humanos e a parte legal.

Chris Remo, da Campo Santo, é um destes exemplos. Ele foi um dos responsáveis pelo jogo intimista em primeira pessoa Firewatch. Com um foco forte em narrativa, ele foi peça chave como roteirista e compositor do jogo. “Eu não tinha habilidades técnicas muito fortes. Sabia programar até que ok, mas ajudei fazendo outras coisas como gerenciar a equipe, escrever roteiro e colaborar com a música. Em uma equipe pequena como a nossa, fazer várias coisas é essencial para se fazer útil”, aponta Remo.

Chris Remo, jornalista se transformou em desenvolvedor há sete anos (Foto: Divulgação)

Entretanto, no Brasil, já há cursos com foco em produção de games. Para estes, a Cruz dá algumas dicas na hora de escolher. “Para escolher o curso, uma dica boa é ficar de olho na nota do Enade. De 1 a 2, significa que eles estão em diligência, ou seja, o MEC dá um tempo para que a faculdade possa ajustar as coisas. Vale ficar de olho se a universidade tem mesmo computadores e infraestrutura para todos os alunos, pois isso é muito importante para área”, explica.

Ela ressalta também que vale ficar de olho em cursos de pós-graduação e outros técnicos para quem já é formado, mas quer se profissionalizar na área.

Além disso, um ponto ressaltado à exaustão por todo mundo do meio é estar afiado no inglês. A segunda língua é talvez a dica mais citada por todos entrevistados. “Este é, sem dúvida, o primeiro filtro para quem está contratando na área. Cansei de ver gente boa rodar só porque não tinha uma compreensão boa ou mesmo uma segurança no inglês”, aponta Luiz Santos.

Outra dica que ele dá é que, para além da formação técnica, um diploma pode abrir portas. Hoje, o especialista em programação de jogos trabalha na Paradox, uma empresa com sede em Estocolmo, na Suécia. Ao receber a oferta de emprego, foi o diploma em computação gráfica que permitiu o processo legal para a retirada do visto para o país.  

Diploma na mão, e agora?

Como em toda profissão, só o certificado de conclusão de curso não garante a famigerada vaguinha de emprego. Assim, é hora de correr atrás de uma colocação. Mas por onde começar?

As técnicas variam desde mandar para empresas currículos para vagas abertas apresentando seu trabalho, até mesmo criando um bom portfólio e se destacando no setor. Para Santos, o importante é ter um bom histórico do seu trabalho e ser “cara de pau”. “É importante pensar que você precisa se mexer. Eu tive um caso de colega que pediu um emprego pra mim. Eu disse que arrumaria, só ele me mandar o currículo. Nunca recebi. Meses depois, veio reclamar que eu não tinha ajudado. Mas, poxa, nem o primeiro passo o cara não deu”, conta.

Ele ainda conta que vale ficar de olho também nas vagas de emprego para as quais você sabe que ainda não está qualificado. Nestas, o que importa é ver o que a empresa busca para o profissional e o que falta no seu currículo para se encaixar ali. “Quando eu estava no Brasil ainda, sonhava em trabalhar na Blizzard. Então eu entrava em umas vagas no LinkedIn muito melhores do que eu poderia me inscrever. Aí, eu ficava olhando ponto por ponto o que a Blizzard queria para aquele cargo como norte para eu estudar. Porque, de verdade, não tem um curso para trabalhar na Blizzard, ou na EA ou em qualquer outra empresa. O que tem é você buscar isso”, relata.

Relacionamento

Outro ponto levantado por grande parte dos palestrantes do evento é a importância de se construir relações dentro da indústria. Para isso, eles recomendam participar de eventos como o BIG e, principalmente, game jams. Estes são encontros em que desenvolvedores precisam fazer jogos sobre um determinado tema em um intervalo de poucos dias, geralmente, um final de semana.

Santos conseguiu o emprego atual dele em um destes eventos. “Eu estava na Irlanda e um amigo chamou para uma game jam. Lá tava o pessoal da Black Shamrock Studios fazendo entrevista de emprego, sem preparo nenhum, na hora. Então, eles me chamaram de canto e eu contei toda a história, de que tinha vindo para Europa, que larguei o emprego no Brasil, todo o perrengue do visto e que queria trabalhar com games. Foi aí que o cara me disse: ‘olha se você é bom, não sei, mas você é muito determinado’. Foi o dia em que ganhei meu emprego”, lembra.

Um caminho parecido foi de Remo. Ele era jornalista do site Gamasutra, voltado a desenvolvedores de jogos. Com experiência na área, foi em eventos como a Game Developers Conference (GDC) que ele começou a flertar com a ideia de fazer seu próprio jogo. “A principal dica é participar de eventos, conhecer pessoas. Eu fui para a GDC pela primeira vez em 2004, foi lá que eu conheci o primeiro cara que me chamou para trabalhar na Campo Santo em 2011. Então, é importante fazer este contato. Não quero dizer para se aproximar das pessoas por interesse, mas mostrar interesse pelo trabalho delas e oferecer ajuda. Geralmente, as pessoas boas lembram da sua dedicação no futuro”, acredita.

No mesmo barco está o polonês Patryk Grzeszczuk. Ele é diretor de marketing da 11 bit Studios, empresa responsável pelo desenvolvimento dos jogos This War of Mine e Frostpunk, este premiado como melhor jogo do BIG. Grzeszczuk veio ao Brasil representar o time, mas conta que estava com dificuldades de encontrar um emprego na área até participar de uma game jam, mais por curiosidade do que para colaborar com o desenvolvimento de um jogo. “Foi lá que eu conheci o pessoal com quem trabalho hoje. Nós dividimos uma pizzas e um pouco da história de cada um. Eu contei que já tinha experiência com marketing, mas queria trabalhar com jogos e um deles disse: ‘bom, nós precisamos de alguém assim’. Trocamos contato e hoje eu estou aqui recebendo um prêmio. O mundo gira rápido demais”, brinca. 

O Careers aconteceu durante o BIG entre 23 e 29 de junho no Centro Cultural São Paulo, e no Rio de Janeiro no Centro Cultural Oi Futuro.

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