Conheça a Gig Economy, a economia dos 'bicos'

Por Stephanie Kohn | 25 de Setembro de 2018 às 19h06
Reprodução

A taxa de desemprego no Brasil pode ter caído a dois dígitos em junho (12,%), mas o problema ainda atinge 13 milhões de brasileiros, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa taxa é puxada pela geração de empregos informais. E, por mais que soe negativo, a informalidade também tem sido o motor do emprego no país desde 2017. O mercado informal, que ignora a CLT, gerou 1,846 milhão de postos de trabalho no quarto trimestre de 2017, 2% a mais na comparação com mesmo período do ano anterior.

Isso quer dizer que mais pessoas têm se apoiado nos famosos “bicos” para ganhar dinheiro e é aí que entra a chamada “Gig Economy”. Essa tendência, que também é conhecida como “Economia Compartilhada” ou "Economia dos Bicos", é caracterizada pela oferta de serviços por meio de plataformas digitais, como o Uber por exemplo.

A pessoa se cadastra em um determinado serviço, sem grandes burocracias ou um complexo processo seletivo, e ganha dinheiro ao realizar pequenas tarefas, seja dar carona, entregar comida ou cuidar do cachorro de alguém. É uma prática antiga, claro, mas foi potencializada nos últimos anos pelos negócios digitais.

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Neste esquema, segundo explica Matheus Queiroz, editor da Co.cada, os trabalhadores passam a ser então, como define a Uber em seu Termo de Uso, “prestadores terceiros independentes”. E essa é uma característica central da economia dos bicos, as empresas não se responsabilizam nem pelo serviço e muito menos pelo prestador.

"Empresas como essas estão crescendo tanto e se tornando tão poderosas que muitos especialistas em trabalho na economia digital, como Albert Cañigueral, alertam para o risco do surgimento de uma espécie de 'feudalismo digital'. Se no período medieval possuir terras significava riqueza e poder, hoje o poder reside na propriedade das plataformas e dos dados. E não é difícil perceber quem serão os senhores feudais e quem serão os servos nesse novo capítulo da história", escreveu Matheus.

No Brasil, os serviços mais populares dessa economia são os aplicativos de transporte, como o já citado Uber ou Cabify, além do app de serviços de beleza Singu e os de entregas - de comida a encomendas gerais: Loggi, Eu Entrego, Rappi e Uber Eats. Há ainda pessoas que ganham dinheiro com AirBNB (aluguel de espaços), GetNinjas (conecta clientes a prestadores de serviços), DogHero (hospedagem para pets), Quinto Andar (aluguel de imóveis), Grabr (compra de produtos internacionais), OLX (revenda) e muitos outros.

CLT ou não CLT, eis a questão

A advogada trabalhista reconhece na Gig Economy um risco de precarização do trabalho, já que os empregados que não se enquadram na CLT não têm resguardados os direitos garantidos pela lei. Por outro lado, ela considera que as novas tecnologias que geraram mudanças na forma como trabalhamos também trouxeram a sociedade para um patamar de autonomia.

“Trata-se de uma democratização do acesso à informação, que empodera as pessoas e traz outras capacidades de trabalho”, disse Poliana Banqueri, advogada do escritório Peixoto & Cury e especialista em direito do trabalho e direito digital, ao blog da Udacity. Para a advogada, o gerenciamento de seu próprio trabalho também pode ser visto como uma oportunidade.

“O importante não é defender esta ou aquela legislação trabalhista, mas prezar por um trabalho justo. Não dá mais para imaginar que a única forma justa e digna de trabalho é a CLT. Essa nova forma que deposta pode apontar para um avanço natural da nossa sociedade no caminho para uma economia mais empreendedora”, finalizou.

Quem embarca nessa?

Para o professor de Marketing Digital do Insper, Romeo Busarello, a Gig Economy foi a forma de ensinar seu filho adolescente a empreender. Durante as férias, ele chegou a fazer mais de R$ 1 mil entregando comidas pelo Rappi e cuidando de cachorros com a ajuda do DogHero. “Esses serviços têm a chamada ‘ditadura do review’ o que obriga a todos a oferecerem um excelente serviço", comentou durante aula no instituto. "Dessa forma, ele aprendeu cedo que é preciso fazer as coisas com qualidade", finalizou.

Já a manicure Madalena trocou o salão em que trabalhava 6 dias por semana pelo app Singu. Ela tira até 20% a mais por mês e escolhe os períodos em que quer trabalhar. "Eu tenho mais tempo pra minha família, porque trabalho em horários alternativos. É bom pras clientes e pra mim", contou em um rápido bate-papo. Esse novo cenário também é positivo para quem possui um emprego e quer aumentar a renda.

Nos Estados Unidos, o número de pessoas que ganham a vida na Gig Economy cresceu 10 vezes desde 2012 e 4% delas já trabalharam nesse sistema em algum ponto de suas vidas profissionais, segundo estudo da JP Morgan Chase Institute. A previsão é que, por lá, 40% dos trabalhadores americanos terão suas vidas profissionais na Gig Economy até 2020, de acordo com outro estudo da Intuit Research. Dá para imaginar que algo semelhante ocorra por aqui também. Vale ficar de olho.

Fonte: Medium, LoveMondays, Udacity, Valor Econômico e G1

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