BGS 2019 | Final Fantasy 7 Remake tem nostalgia manchada por desequilíbrios

Por Rafael Arbulu | 16 de Outubro de 2019 às 12h13
(Imagem: Divulgação;Square Enix)

É difícil falar de Final Fantasy 7 Remake sem apelar à nostalgia: querendo ou não, foi um dos jogos mais influentes da geração do primeiro Playstation e seu remake vem fazendo o mesmo nível de barulho na indústria neste "fim de vida" do PlayStation 4. Durante a Brasil Game Show 2019, a Square Enix disponibilizou uma versão demonstrativa do título — a mesma que vimos durante a E3 2019 — e o Canaltech teve a oportunidade de brincar um pouco com os golpes de Barrett Wallace e Cloud Strife na primeira missão do jogo.

O enredo é o mesmo, ainda que a forma como ele se relaciona com o gameplay seja mais aprofundada. Você, no controle de Cloud Strife, está acompanhado de Barrett Wallace, líder do grupo ativista ambiental AVALANCHE, no que corresponde à última porção da primeira missão de Final Fantasy 7: a instalação de uma bomba para explodir o reator Mako, uma tecnologia da Shinra Company para extrair recursos naturais do planeta de forma pouco sustentável.

Aqui, temos a primeira evidência de que temos um remake bem mais expansivo do que o original de onde ele tira a sua base: se no jogo original de 1997 essa parte demorava pouco menos de cinco minutos para ser atravessada (adicione outros cinco minutos para enfrentar inimigos e chefe), aqui, estamos falando de uma quest quase completa, que demora uns bons 20 a 25 minutos — isso, se você souber o que está fazendo. Jogadores casuais e quem não conhece o original facilmente gasta bem mais.

É fácil ver que a Square Enix está tentando misturar elementos de Final Fantasy XIII e Final Fantasy XV dentro deste remake: os combates do original seguiam o padrão de “encontros aleatórios”, onde uma intervenção de tela paralisava a sua navegação, você lutava e, vencendo a batalha, retomava o trajeto. Aqui, os oponentes já estão visíveis no mapa e, ao menos pelo que dá a entender o ritmo de jogo, é possível evitá-los para acelerar a progressão.

Não nesta demo, porém: os combates ocorrem em locais apertados e corredores estreitos, então não há como você correr da briga — inicialmente, dois ou três guardas da usina e uns quatro monstros são facilmente despacháveis pela espada gigantesca de Cloud. Mas uma inovação se faz presente: alguns oponentes, como drones e câmeras armadas, ficam plantados à distância e você não pode pegá-los. Entra aqui a troca de personagens: Barrett Wallace e sua metralhadora implantada no lugar da mão direita são necessárias para atacar inimigos mais distantes.

Há um quê de exploração com alguns baús escondendo itens, o que nos passa a ideia de que, tirando uma página de Final Fantasy XV, nos dará um ambiente bastante aberto para explorarmos. Novamente, não é o caso da demo disponibilizada na BGS, já que estamos falando de uma experiência fechada e específica. Mas ainda assim, é bom saber que a opção pode chegar no futuro. A progressão ainda é um pouco estranha, haja vista que não há indicativos evidentes do caminho que você deve seguir. Mesmo em uma apresentação que já vimos antes, parecia fácil se perder no percurso e ter que parar alguns segundos para girar a câmera e procurar por sinais. Nada que incomodasse de fato, mas pareceu meio bobo.

(Imagem: Divulgação/Square Enix)

Em questão de minutos, chegamos ao final da demo, onde um conhecido chefe nos esperava: o Sentinela Escorpião, que neste remake é um bicho bem mais trabalhado do que a sua contraparte de 1997, com várias fases e formas de abordagem. Lembra-se do Stagger Mode de Final Fantasy XIII, onde você enchia um inimigo de porrada até uma barra de dano se completar, deixando-o atordoado e vulnerável a ataques massivos? Ela faz um retorno muito bem-vindo neste remake. Funciona tão bem — se não melhor — do que antes: o combate vai e volta nas vantagens, ora com você, ora com o oponente. Isso traz um ritmo interessante, especialmente considerando que o Escorpião é multifacetado: atordoe-o uma vez e ele saltará para uma parede distante e, quando voltar, o fará com novos ataques em seu arsenal. A dificuldade é agradavelmente escalada.

Mas é aqui que também começam alguns probleminhas: no aspecto da jogabilidade, essa luta contra chefe em Final Fantasy 7 Remake mostrou-se caótica demais. A câmera não colabora muito em momentos bem cruciais. Por exemplo: sempre em uma troca de fase, o Escorpião, como dissemos, salta para uma parede, mas a câmera não o acompanha. Ele não fica lá por muito tempo, mas solta alguns ataques bem duros. Quase não há tempo para trocar de personagem e fazer com que Barrett atire nele de longe.

(Imagem: Divulgação/Square Enix)

Ademais, quando ele retorna ao combate à curta distância e você tem que usar Cloud Strife e sua icônica espada, há momentos que parecem não terem sido muito bem pensados: o oponente tem um ponto fraco na parte traseira, então é lógico que você deve se movimentar de modo que pare ali, certo? Bom, há partes em que o Escorpião torna-se praticamente invulnerável à frente e se “tranca” em um canto da arena, com as costas para a parede.

Isso não nos impediu de chegar até seu ponto fraco, claro, mas todas as vezes que o fizemos, a câmera dava um close estranho e os personagens sumiam da tela. Os golpes ainda estavam sendo executados, os indicadores de dano ainda estavam saltando na tela, então o jogo em si estava funcionando. Mas parte da graça de Final Fantasy — qualquer um deles — é a de ver os golpes mais plásticos e visualmente impressionantes ocorrendo na sua frente: se a câmera “deu fim” ao personagem, então temos algo de muito bom que acaba se perdendo.

Outro problema: existe um desequilíbrio gigante entre o Escorpião e os outros inimigos. O leitor mais incauto pode pensar tratar-se de um exagero de nossa parte, mas segure a bronca um pouquinho. Somente a luta com o Escorpião durou, fácil, fácil, uns 16 ou 17 minutos. Minutos estes recheados de “bate-bate-bate-atordoa-bate mais um pouco-atira-atira”, repetidas vezes. Com uma demo que, completa, leva em torno de 20 minutos para finalizar, você dedicou mais de dois terços dela para bater um chefe cujo processo de combate torna-se evidente e repetitivo com o tempo e não conseguiu aproveitar o restante da experiência.

(Imagem: Divulgação/Square Enix)

Claro, quando o jogo for lançado, você não terá esse problema: ele será seu, afinal, e não uma demo em um estande de videogames dentro de uma feira de indústria. Mas ainda assim, é quase impossível não pensar “até que enfim” quando o monstro maquinado é derrubado. Isso porque sabíamos o que estávamos fazendo, mas muita gente na BGS disse que não conseguiu terminar a experiência.

Final Fantasy 7 Remake tem tudo para ser um dos melhores jogos de 2019. Mas estamos bem perto de seu lançamento, então é melhor a Square Enix se mexer para corrigir estes pormenores: é justamente esse detalhe que a impede de levar a franquia de RPGs que já foi a maior do mundo à sua antiga glória. O mundo está de olho, afinal.

Final Fantasy 7 Remake será lançado exclusivamente no PlayStation 4 em 3 de março de 2020.

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