Call of Duty: Black Ops 4 tem gameplay profundo, mas peca pela falta de carisma

Por Wagner Wakka | 15 de Outubro de 2018 às 13h32
Divulgação/Activision

O recém- lançado Call of Duty: Black Ops 4 foi um dos jogos mais disputados da Brasil Game Show 2018. As filas de boas horas e uma conversa com alguns dos que esperavam para jogar mostravam que a opção da Activision e Treyarch de apenas deixar opções multiplayers para o título não derrubou o interesse do fã pelo game. “A campanha a gente matava em umas horinhas, era só para curtir uma história, mas o game brilha mesmo é no online”, disse Rafael Santos, jogador da franquia há 5 anos e que esperava ansioso pela sua vez no estande da BGS.

O discurso é o mesmo apresentado por Jay Puryear, diretor de marca da Treyarch, que veio à feira apresentar o novo jogo. “Nós sentimos que a comunidade queria algo mais dedicado ao multiplayer, a interação que a comunidade tem com a franquia”, disse em entrevista ao Canaltech.

Pela alta demanda, o game estava disponível somente na versão multiplayer mais convencional da franquia, não no modo Blackout, o battle royale de Black Ops 4. A escolha é óbvia, já que uma partida deste modo pode durar muito mais tempo (ou fazer o jogador sair da fase muito rápido) do que o controlado modo de combate entre dois times.

O game ainda tem outras duas opções: o já citado Blackout, em estilo battle royale; e o Zombies, em que um grupo de jogadores em modo cooperativo deve seguir uma história em um universo paralelo.

Pelo que pudemos jogar na feira, Call of Duty: Black Ops 4 chega com uma pegada mais leve e um ritmo menos frenético do que o apresentado em Call of Duty: World War 2. “Esta foi uma escolha deliberada. Primeiro, porque a gente acha que combina mais com o universo em que os personagens estão inseridos, é algo mais tático. Segundo, porque isso deixa o game mais amigável para que novos jogadores possam cair de cabeça neste novo título”, acredita Puryear.

Jay Puryear, diretor de marca da Treyarch (Foto: Wagner Wakka)

De fato, a Treyarch tem apostado, até mesmo nas campanhas de divulgação do jogo, em mostrar que o jogador precisa ser mais tático que necessariamente partir para a correria com tiro, porrada e bomba.

Para aprimorar isso, a primeira grande “novidade” é o modo Pick 10. O motivo das aspas é que esta não é uma mecânica nova, mas uma opção já antiga da série, sobretudo nos últimos dois Black Ops. O Pick 10 permite que o jogador organize de forma muito mais dinâmica quais armas primárias, secundárias e acessórios serão equipados antes da partida.

Em um menu de cerca de um minuto, é possível até mesmo modificar pequenas peças de sua arma, como adicionar o uma mira tele, ou incrementar o tamanho do pente. Tudo isso de forma bastante amigável para quem já jogou um game de tiro na vida.

Aliás, esta versão está realmente mais amigável, mas ainda carrega alguns vícios da série, principalmente aqueles que atrapalham a vida de quem está entrando agora neste universo. O que mais incomoda é novamente o jogador nascer em um ponto já de cara com um inimigo. Ou seja, a turma que já está mais ligada nos locais de respawn fica de olho esperando o inimigo que surgiu para fuzilar sem dó nem piedade no segundo seguinte de sua recuperação. Resultado: aquela frustração de ser apenas um boneco a ser matado por pessoas mais experientes.

Por outro lado, quando se há espaço para começar de novo, o game flui bem. A diminuição no ritmo dá uma excelente respirada aos jogadores e permite que você ainda consiga escapar quando é pego de surpresa flanqueado. “A gente queria algo que intercalasse os momentos de tiro com outros em que você possa parar, respirar, diminuir o ritmo e seguir para uma nova tentativa de matar o adversário”, conta o executivo.

Outro motivo pelo qual Call of Duty: Black Ops 4 aparenta ser um pouco mais lento é as Especialidades. Esta é uma opção inaugurada em Black Ops 3 em que os jogadores podem escolher uma habilidade no lugar de uma arma secundária. Como nem sempre esta habilidade é tão rápida quanto uma arma, foi preciso equilibrar o ritmo para para o jogador escolher o que quer fazer.

Todas essas novidades fazem do multiplayer de Call of Duty: Black Ops 4 algo mais interessante, pensativo, tático e menos tiro sem consequência. Ou seja, o foco na gameplay permitiu um jogo mais complexo e profundo em termos de jogabilidade.

Narrativa

Um dos pontos mais polêmicos desta versão é a falta do modo história. Segundo Puryear, a ideia é que o jogador se sinta inserido em um universo que conta a sua narrativa pelos cenários e detalhes do universo no gameplay. “Não ter um modo single player, como uma história óbvia a ser vivida, de fato, não significa que o jogo não queira contar algo. A ideia é que o jogador vá, aos poucos, percebendo lugares icônicos de outros jogos da série. Ele passa por um lugar, por exemplo, e reconhece a Nuketown”, explica.

Contudo, ao menos nos poucos momentos em que tivemos acesso ao novo Call of Duty, este sentimento de imersão não fica claro. A Activision e a Treyarch tentaram fazer um trabalho semelhante ao que a Blizzard (empresa irmã) fez com Overwatch: o da convergência entre mídias.

Tal qual Overwatch, Call of Duty ganhou uma série de quadrinhos em 10 edições, para dar mais profundidade aos personagens, bem como apresentar as habilidades de cada uma das Especialidades disponíveis. Contudo, convenhamos, o preparo de meses do jogo da Blizzard e o cuidado de criar personagens mais carismáticos e realmente inovadores passa bem longe do que Black Ops 4 oferece. No jogo da Treyarch, há muitos bonecos genéricos, com aspectos militares e pouco convidativos, lembrando por vezes punks de filmes dos anos 90.

Quadrinhos disponíveis no site da Activision tentam aprofundar pesonagens (Foto: Divulgação/Activision)

Junto disso, a opção de basicamente poder modificar todas as suas armas e acessórios tira deles a sua real característica e motivação, mostrando que a Treyarch apostou tudo no gameplay, não em um universo rico ou uma narrativa para ser contada.

Por fim, Black Ops 4 parece um jogo desesperado em surfar nas ondas do momento, feito às pressas. Segundo Pruyer, o título está em desenvolvimento há três anos, mas ao menos o modo Blackout obviamente não surgiu desde o começo, já que o game que deu início à nova onda do battle royale explodiu em março de 2017.

Quando se diz portanto, que ele é feito às pressas, a referência não é à falta de polimento, já que o estúdio geralmente faz um bom trabalho neste caminho. Mas toda essa vontade de correr atrás da nova moda faz de Call of Duty: Black Ops 4 um jogo sem carisma. Talvez se a Activision tivesse aproveitado todos esses três anos para ressaltar o novo universo e explicar que tipo de história está querendo contar aqui, houvesse um apelo maior e até uma atração mais longeva como acontece com Overwatch.

Por outro lado, talvez, este só não seja o modelo de negócio da Activision. Interessa a ela que seja um produto de consumo perene mesmo, já que em abril do ano que vem deve começar a apresentar o Call of Duty de 2019.

Em suma, se você quer um jogo com foco em gameplay, totalmente orientado para o multiplayer, e que vai exigir profundidade tática, Call of Duty: Black Ops 4 pode lhe interessar. Se você quer algo mais complexo em termos de narrativa, talvez valha a pena seguir para outros títulos de FPS deste ano, ou mesmo esperar o que virá de Call of Duty para o ano que vem. Podemos esperar a volta do single player? “Ainda não há nada o que falar do próximo jogo. Agora é hora de focar nossa atenção para este novo jogo”, esconde Puryear.

Call of Duty: Black Ops 4 chegou no último dia 12 para PlayStation 4, Xbox One e PC. O Canaltech jogou o novo título da série na BGS 2018 e a análise completa sai nos próximos dias. Fique ligado!

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