BGS 2018 | Entrevista com o produtor musical de videogames Shota Nakama

Por Jessica Pinheiro | 26 de Outubro de 2018 às 21h50

Outra grande atração da Brasil Game Show 2018 foi o japonês Shota Nakama, um figurão da indústria musical voltada para videogame music que faz jus às hiperbólicas reações com a pronúncia de seu nome. Ele é, afinal, ninguém menos do que o criador da Video Game Orchestra (VGO), que se apresenta em diversas cidades mesclando música clássica com rock, tocando canções icônicas de jogos conhecidos.

A repercussão de Nakama e seu projeto foi tamanha que eles foram convidados pela Square Enix para criar a trilha sonora de Lightning Returns: Final Fantasy XIII, além de fazerem os rearranjos de diversas outras composições, estando nessa lista games como Kingdom Hearts, God Eater, Tales of e, mais recentemente, Final Fantasy XV.

Desde 2016, porém, a Capcom fez uma parceria com a VGO e juntos, eles criaram o Capcom Live!, que, como o próprio nome sugere, é focado em músicas de jogos clássicos da empresa. Vale apontar também que a vinda de Nakama à BGS 2018 não foi a primeira, pois o produtor e músico já veio ao país em outra ocasião — mas isso será abordado mais adiante, já que a entrevista com ele rendeu bastante assunto.

“Eu amo o Brasil”, Nakama começou enquanto estávamos nos aquecendo na entrevista, perguntando se ele estava gostando de estar no país. “Eu visitei o Brasil ano passado com meus amigos, eu fiquei em São Paulo e em Manaus e amei”, complementou.

Na realidade, Nakama também esteve no país em 2017 para se apresentar no BIG Festival. “Sim, eu estive no BIG Festival [em São Paulo]”, ele afirmou. “Eu palestrei lá um pouco, fizeram piada com o meu nome, coisas assim... Mas sabe, visitar Manaus foi uma grande experiência, foi ótimo”.

(Imagem: FD Comunicação)

Mesmo com o clima quente do estado, Nakama parece ter gostado bastante de visitar a região. “Eu sou de Okinawa”, ele comparou, afirmando que sua cidade de origem também faz muito calor. “Foi normal para mim”.

E sobre as brincadeiras com seu nome, Nakama diz que achou hilário. “Sabe de uma coisa? Eu posso fazer qualquer pessoa desse país sorrir. Então, quando eu venho, o país fica um pouco mais feliz!”, ele afirma, com bastante graciosidade. Na BGS 2018, inclusive, fizeram até mesmo uma camiseta em homenagem ao produtor.

“Eu vi!”, Nakama disse. “E disseram que é a camiseta que mais vende no evento! É muito engraçado, eu amei”.

O mercado e as músicas

Partindo para o assunto de maior interessante, perguntamos a opinião de Nakama sobre o mercado brasileiro de jogos, que, apesar de pequeno se comparado aos Estados Unidos, por exemplo, ainda está em pleno crescimento e a todo vapor. O artista, inclusive discordou sobre o segmento ser pequeno por aqui.

“Eu não acho que seja [um mercado] pequeno porque vocês têm muitas pessoas aqui e, agora que a tecnologia se tornou muito mais acessível, caso você queira criar um aplicativo, tudo que precisa ter é um laptop. Você consegue fazer de tudo com um computador”. Nakama comentou também que sabe que a indústria brasileira de jogos está crescendo e, apesar de não saber falar dos jogos brasileiros que mais gosta, ele sabe que existem diversos e ótimos títulos nascendo todos os dias. “E eu mal posso esperar para jogar todos eles”, complementou. “Eu quero ver as coisas florescendo por aqui. Vocês têm meu total apoio”.

(Imagem: VGMO)

Nakama, inclusive, disse que conhece um grande amigo no Brasil, Antonio Teoli, “o compositor mais alto do Brasil e provavelmente de toda a indústria”, brincou. “Ele compõe ótimas músicas”, em suas palavras. Não apenas Teoli, aliás: o artista conheceu vários outros músicos brasileiros em algum momento de sua vida e afirmou: “todos eles são fantásticos”. Ainda assim, o convidado da BGS 2018 afirmou que tem noção sobre o mercado de jogos ainda estar caminhando no país.

E sobre os shows da Video Games Orchestra, Nakama comentou um pouco de sua agenda, afirmando que está “bem ativo” com seu trabalho, afinal, que é onde sua paixão está. “Eu amo produzir, adoro compor, arranjar, orquestrar e tudo mais, mas em show a troca de energias positivas entre você e a plateia e também entre os músicos... Não existe nada assim, é muito bom”, o produtor revelou. “É libertador, quase orgásmico. Eu nunca me canso disso, amo e é o que eu quero fazer”.

Foi um pouco difícil para Nakama se expressar durante este trecho da entrevista, inclusive, porque os sentimentos que ele tem quanto a seu trabalho e os momentos em que está no palco são únicos. “Você experimenta [essa sensação] pela primeira vez e depois pensa ‘nossa...’”.

Aproveitando a carona no assunto, perguntamos também se existem planos de ele fazer um show no Brasil e Nakama foi muito sincero sobre o assunto: “Estão acontecendo conversas muito sérias sobre isso no momento e pode acontecer em breve”.

Como já comentado por aqui, Nakama também participou da composição de Final Fantasy XV, não apenas como produtor, mas também como compositor de algumas canções, e, sabendo disso, perguntamos a ele sobre o assunto. “Eu fiz muitos arranjos. A maioria das gravações aconteceram em Boston, onde fica a minha empresa, que foi responsável por todo o processo. Nós gravamos o coral, nós gravamos a orquestra, nós gravamos praticamente tudo [lá], toda a parte com a banda, mixamos... Nós dirigimos e produzimos tudo”, ele revelou. “Nas sessões de gravação eu estava regendo. Eu fiz todo tipo de coisa”.

(Imagem: VGO/Facebook)

O Japão e o restante do mundo

Quando questionado sobre a indústria de música de videogames no Japão, Nakama nos contou que lá as coisas são um pouco diferentes. Basicamente é porque “o gosto musical para games é diferente. Muitas das composições são mais melódicas, ao contrário das trilhas ocidentais, que são mais cinematográficas”.

Isso não quer dizer, porém, que Nakama não aprecia as composições dos músicos no ocidente nos videogames — muito pelo contrário: “Eu respeito muitos compositores ocidentais como Nathan McCree e Gerard Marino. Esses caras são ótimos, são meus favoritos e as músicas deles são ótimas, são pessoas maravilhosas e extremamente talentosas”.

Quanto ao Japão, Nakama comentou que “a preferência musical é diferente, mas existem ótimos compositores por lá também”. A exemplo disso, o convidado da BGS 2018 citou a ilustre Michiru Ooshima, que trabalhou em ICO e em algumas produções mais voltadas a animes, mas que ainda assim é “incrível”, segundo ele. Nakama também citou Masashi Hamauzu, que trabalhou com a Square Enix de 1996 até 2010, apesar de ainda ser contratado para realizar algumas composições para a série Final Fantasy. “Ele é incrível”, afirmou Nakama sobre o compositor em questão.

Também comentamos com Nakama que, até então, o país só tinha recebido a Video Games Live e um piano concerto dedicado a Final Fantasy que, inclusive, contou com a presença de Nobuo Uematsu. Mais recentemente, aconteceu uma orquestra dedicada a Kingdom Hearts, e isso foi basicamente o que o Brasil recebeu de show de música de videogame.

(Imagem: Square Enix)

“Eu gosto desses concertos sinfônicos também, eles são ótimos, mas não fazem muito o meu estilo”, revelou Nakama. “Você viu nos meus vídeos, eu sou mais chegado no rock, na diversão, esse é o meu estilo. E eu sei que os brasileiros gostam mais desse tipo de coisa”. Seguindo disso, o produtor musical inclusive fez uma piada sobre o assunto. “Não sei se deveria dizer isso, mas, a minha visão do Brasil é basicamente ‘ei, vamos ficar doidões! Vamos festejar’... É a imagem que eu tenho, por isso tenho a impressão de que eu me sairia muito bem por aqui”, ele afirmou, rindo logo em seguida.

E sobre a presença de outros compositores japoneses no país, Nakama afirma que sem dúvidas eles iriam gostar de visitar o país. O único problema é enfrentar as mais de 30 horas de voo, viajando literalmente para o outro lado do planeta. Mas tirando a questão geográfica, o convidado da BGS 2018 assegura que os músicos de videogame do Japão certamente adorariam o Brasil.

Gostos pessoais, comida e bebida

Na reta final da entrevista, Nakama nos contou também que em um processo de composição, “as músicas devem ser compostas para as cenas. Nos videogames, por exemplo, você assiste a cena primeiro, visualiza as imagens primeiro e depois compõe as músicas para ela. Você compõe uma trilha que tenha relação com a aparência do jogo, ou com a sua história”. O produtor ainda acrescenta: “Por exemplo, se você tem um jogo de Super Nintendo, e então começa a ouvir um som orquestrado ultrarrealista, não parece certo, não combina. É diferente”.

Quando o questionamos se ele sentia saudade dos estilos de música de videogame mais antigos, como o chiptune ou os sons emulados, Nakama afirmou que gosta do estilo old school de músicas de games, mas também dos estilos mais recentes. “Música boa é música boa. Não tenho preferências de estilo. Claro, eu gosto mais de rock, mas não tenho uma opinião enviesada sobre música. Se é boa pra mim, então é boa. Se é ruim, é ruim”, ele explica.

(Imagem: Shota Nakama/Twitter)

Aproveitamos então para perguntar quais eram as bandas de rock brasileiro preferidas de Nakama e ele, sem cerimônias, revelou que gosta muito de Angra e Dr. Sin. “Não só no Brasil, [as duas bandas] estão entre as melhores bandas, eles são muito bons. Musicalmente falando, eles são muito bons. As músicas são ótimas, viciantes, sim, mas há muita habilidade técnica e talento por trás. Eles são ótimos, eu os amo”.

Nakama inclusive já foi em shows do Angra, em Boston, mas não aqui no Brasil. Afinal, dizem que não há show como os que são feitos por aqui, já que a plateia geralmente fica maluca quando vê os artistas favoritos no palco. “Eu adoraria [ver um show no Brasil] e é por isso que eu quero fazer shows aqui. Eu sei que nos sairíamos bem”.

E sobre as bebidas e comidas brasileiras, Nakama revelou que provou caipirinhas e o churrasco brasileiro, e achou ótimo. “Eu gosto da comida daqui”. Em seguida, ele revelou que ficou viciado em açaí. “Quando eu fui a Manaus, eu comia uma tigela de açaí todo dia, pelo menos duas vezes por dia, era muito bom”. Bom saber que ele virou fã de uma das frutas de nossa terra!

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