Motoristas transgêneras estão tendo seus cadastros bloqueados pela Uber nos EUA

Por Ares Saturno | 08 de Agosto de 2018 às 21h55
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A Uber tem investido em resgatar sua moral desde a contratação de Dara Khosrowshahi como CEO, sempre tocando na tecla da diversidade. Nunca se falou tanto em mudanças na cultura da empresa para a inclusão de mulheres, pessoas não brancas, LGBTQIA+, pessoas com deficiências ou de nacionalidades e crenças diversas.

Entretanto, motoristas transexuais estão encontrando problemas para trabalhar com a Uber nos Estados Unido, resultando em inúmeras contas temporariamente bloqueadas ou até mesmo permanentemente suspensas. É que um recurso de segurança do app exige que motoristas tirem uma selfie para autenticar suas identidades.

Uma ferramenta que pode significar segurança e praticidade para uns, pode representar exclusão e opressão para outras. Janey Webb, motorista parceira da Uber, começou sua transição de gênero assim que firmou a parceria com a empresa, em outubro de 2017. Com a hormonização e outros tratamentos, sua aparência foi bastante alterada, como era seu objetivo. Mas a satisfação da transição de gênero foi abalada pelo algoritmo do aplicativo, que sinalizou a drástica e desejada mudança de aparência como uma possível ameaça para os passageiros.

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A exclusão

A verificação de ID em tempo real, como é chamado o recurso, foi lançada em setembro de 2016 com o objetivo de proteger motoristas e passageiros. Ocasionalmente, é pedido que profissionais parceiros enviem uma foto de rosto que, se destoar das demais mantidas em arquivo, geram os bloqueios e exclusões de conta. A comparação é feita por meio da tecnologia Cognitive Services, da Microsoft.

O que era uma preocupação válida com a identidade das pessoas que nos carregam para cima e para baixo acabou se tornando uma ferramenta de exclusão: pessoas transexuais, que normalmente já encontram problemas para ingressar no mercado de trabalho, ficam impossibilitadas de prestar serviço até mesmo em acordos profissionais mais flexíveis, como a Uber oferece.

Webb, como toda pessoa transexual, já previa essa exclusão e tomou o cuidado de documentar cuidadosamente todas as suas mudanças físicas no app da Uber, conforme sua transição de gênero avançava. A preocupação prévia de Webb visava tanto informar à plataforma que alterações de aparência aconteceriam, como também manter a transparência com seus passageiros. Entretanto, o cuidado de Webb foi completamente vão.

"Eu estava pronta para começar a trabalhar. Eu dirigi para o centro, e a única razão pela qual eu soube que minha conta havia sido desativada foi porque não consegui ficar online", explica ela. Em contato com o suporte da Uber, ela foi informada sobre o bloqueio, que ocorreu por uma discrepância em relação à foto por ela enviada em relação à imagem que constava em sua carteira de motorista.

Foi então que Webb dirigiu por mais duas horas para ser atendida no centro de suporte presencial de Iowa. Lá, ela foi obrigada a expor sua condição de gênero — algo que por si só já é uma exigência pra lá de incômoda, pois o gênero de ninguém deveria ser um assunto profissional. Após o gasto de tempo, combustível e paciência, Webb conseguiu explicar o que havia ocorrido e concluíram que a desativação de seu cadastro era um erro. Entretanto, Webb ainda precisou lidar com a incerteza se uma próxima exigência de selfie do app não a levaria a encarar todo o desgaste uma nova vez.

"Não se pode esperar que motoristas transexuais refaçam suas carteiras de motorista a cada três meses para evitar que seus cadastros sejam desativados", disse Webb. Ela perdeu três dias de trabalho, incluindo o feriado de 4 de julho, que costuma ser proveitoso e lucrativo para motoristas da Uber. Ainda, Webb não teve nenhum tipo de ressarcimento pela inconveniência.

Segundo a assessoria de imprensa da Uber, o problema de fato ocorreu, mas poderia ter sido resolvido por telefone ou pelo próprio aplicativo, sem a necessidade de comparecer pessoalmente ao centro de suporte, o que a experiência de Webb nos prova que não faz jus à realidade.

A CNBC conversou com as vítimas da exclusão e com a assessoria de imprensa da Uber, resultando em uma vídeo-reportagem que pode ser vista na reprodução abaixo, disponível apenas em inglês:

O problema é que a barreira profissional encontrada por Webb será obstáculo para outras pessoas transexuais que trabalham com o serviço de transportes. Lindsay, uma motorista parceira da empresa que presta serviços em Michigan, também foi suspensa por suas fotos distoarem das imagens antigas que o app tinha dela. A profissional também precisou recorrer ao atendimento presencial do centro de suporte. Ela informou que foi solicitada a enviar selfies pelo menos cem vezes durante o último ano e meio — uma exigência bem mais insistente que a abordagem que profissionais cisgêneras recebem do aplicativo.

Como Lindsay não quis revelar seu nome de registro e fez questão de ser tratada exclusivamente pelo seu nome social, a assessoria da Uber não pôde dar mais detalhes sobre o caso quando questionada pela mídia. Entretanto, um porta-voz da empresa confirmou que as solicitações de envio de selfies, geralmente aleatórias, podem ser acionadas pessoalmente se houver indícios de fraude.

"Eu não acho que a Uber seja uma empresa maléfica", disse Lindsay. Ela acredita que o foco da empresa é no lucro e que a automatização dos processos é uma medida que a Uber adota para aumentar os ganhos. "Quando você tem um sistema que é excessivamente automatizado, pessoas como eu caem nas rachaduras", concluiu.

Pessoas transexuais são frequentemente impedidas de se desenvolverem profissionalmente por conta da transfobia, motivo pelo qual essa exclusão significa uma falha imensa na cultura que a Uber deseja criar. A associação de pessoas transexuais com golpes, tentativas de fraude ou informações inverídicas são parte significativa do estigma, contribuindo para a exclusão e baixa qualidade de vida. Atualmente, o Brasil é o país que mais assassina, tortura e oprime a população trans, apresentando estatísticas mais alarmantes que as encontradas em locais como o México e o Oriente Médio. A expectativa de vida de uma travesti, no Brasil, é de apenas 32 anos.

Fonte: CNBC

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