iTunes 20 anos: relembre o aplicativo que mudou a história da Apple

iTunes 20 anos: relembre o aplicativo que mudou a história da Apple

Por Rubens Eishima | 09 de Janeiro de 2021 às 13h00
Reprodução/Apple

O macOS Catalina pode ter encerrado a história do aplicativo iTunes no sistema da Apple, mas o programa ainda vive no Windows. Mais do que isso, o aplicativo marcou o início de uma transformação poderosa na empresa, que graças a ele acabou mudando até mesmo o seu nome.

No princípio, era a música

O iTunes não nasceu na própria Apple, ele tem origem em uma empresa externa, durante um período em que a linha Mac já começava sua transformação de computadores voltados para produção e edição em uma voltada para consumo de mídia.

Visual lembra o clássico WinAmp (Imagem: arquivo/SoundJam)

O programa é uma evolução do SoundJamMP, criado por ex-funcionários da Apple para reprodução de arquivos MP3 nos computadores com sistema MacOS 8 e 9. O visual do programa seguia a tendência de aço escovado, que seria herdado mais tarde pelo iTunes.

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Curiosamente, um dos destaques do programa era o suporte ao aparelho de MP3 Rio PMP 500, mais tarde vendido pela empresa Diamond (conhecida na época por suas placas de vídeo com chips 3Dfx, Rendition Vérité, Nvidia, S3 e até Intel). O gadget lançado em 1999 foi o primeiro compatível com os PCs Macintosh e incluía uma cópia do programa, que também era vendido à parte.

iTunes: janeiro de 2001

O SoundJamMP foi comprado pela Apple no ano 2000, e seus desenvolvedores passaram a trabalhar em um programa que seria lançado no dia 9 de janeiro de 2001: o iTunes. O iTunes original foi anunciado para o sistema Mac OS 9 durante a conferência MacWorld, ganhando uma versão para o Mac OS X — a 1.1 — em março do mesmo ano.

Outros tempos, primeiras versões eram dedicadas à música (Imagem: reprodução/GUIdebook)

As primeiras versões foram praticamente uma evolução do SoundJam, com gerenciamento de músicas, playlists, equalização gráfica e a opção de gravar CDs de áudio — os drives de CD-R e RW começavam a se popularizar na linha iMac na época.

Ecossistema

A história do iTunes (ou talvez a explicação para o seu desenvolvimento) mudou em outubro de 2001, quando a Apple Computer lançou o tocador de música iPod. Apesar de não ser o primeiro aparelho dedicado de MP3s do mercado, a simplicidade de uso e gerenciamento, além da integração com o aplicativo iTunes (na época exclusivo para Mac OS 9 e X), tornaram o iPod referência do segmento.

O programa, que recebeu uma versão 2.0 compatível como tocador, era necessário para sincronizar no aparelho as músicas baixadas no Mac — ou extraídas (“ripadas”) pelo iTunes de CDs — usando a conexão FireWire (as primeiras gerações do iPod não usavam USB).

Loja e Windows

Pouco mais de dois anos após o seu lançamento, o iTunes teve outra mudança importante, o lançamento da iTunes Store em abril de 2003 na versão 4.0 do programa. A loja de músicas e álbuns digitais aproveitou o declínio nas vendas de mídias físicas e transformou a Apple Computer na maior vendedora de música no mundo.

“Estamos orgulhosos de que o iTunes se tornou a varejista de música número um do mundo, e vender 10 bilhões de músicas é realmente impressionante”, afirmou Eddy Cue, então vice-presidente de serviços na internet da Apple, em 2010.

A atualização 4.1 em outubro do mesmo ano trouxe outra novidade, uma versão do iTunes para o sistema Windows. O lançamento expandiu não apenas o alcance da loja de música recém-lançada, como dispensou o uso de ferramentas externas para sincronização com os PCs — caso do Musicmatch, até então o programa recomendado pela Apple.

iTunes Store no programa para Windows em 2005 (Imagem: reprodução/GUIdebook)

Expansão para celulares e vídeos

Em setembro de 2005, o programa finalmente chegou aos celulares. O aguardado “iTunes Phone” foi apresentado em um evento dedicado à música, junto com o iPod Nano e a versão 5.0 do iTunes. Mas, ao invés de lançar um telefone próprio — algo que já estava em desenvolvimento na empresa —, a Apple fechou uma parceria com a (ainda norte-americana) Motorola para lançar o MOTO ROKR, com uma nomenclatura que aproveitava o sucesso da linha Razr.

O celular (ainda sem recursos smart) tinha um aplicativo iTunes integrado, com suporte à sincronização com o programa no computador usando um cabo USB, o app era acessado com um botão dedicado no celular, que interrompia a reprodução de músicas durante as chamadas telefônicas. A memória interna do aparelho era suficiente para armazenar até 100 músicas, limitação imposta pelo sistema, mesmo usando um cartão microSD de 1 GB.

“Trabalhamos em colaboração com a Motorola para oferecer a melhor experiência musical do mundo em um telefone celular”, declarou Steve Jobs, CEO da Apple Computer.

Um mês após o lançamento do iTunes 5, a Apple lançou o iTunes 6 no dia 12 de outubro de 2005. O salto no número de versão se justifica por uma importante novidade, a venda de vídeos, transformando a iTunes Store em mais do que uma loja de música.

O acervo da loja passou a contar com videoclipes, curtas-metragens da Pixar e séries de TV. Entre os destaques apontados pela Apple estavam seriados como Desperate Housewives e Lost (cuja segunda temporada acabara de estrear nos EUA).

Longas-metragens (e jogos)

Apesar de vender vídeos e alguns curtas da Pixar — que teve como um dos seus primeiros investidores o próprio Steve Jobs — ainda faltavam os longas-metragens na loja digital da Apple, o que foi resolvido com o lançamento do iTunes 7 em setembro de 2006.

O acervo inicial (nos Estados Unidos) incluía 75 filmes dos estúdios Disney, Pixar, Touchstone e Miramax, com preço fixo de 14,99 dólares para lançamentos (US$ 12,99 durante a pré-venda e a semana de estreia) e US$ 9,99 para filmes de catálogo.

“Em menos de um ano, deixamos de oferecer apenas cinco programas de TV e passamos a oferecer mais de 220 programas de TV e esperamos fazer o mesmo com os filmes. O iTunes está vendendo mais de um milhão de vídeos por semana, e esperamos alcançar isso com filmes em menos de um ano”, afirmou Steve Jobs, CEO da Apple durante o lançamento da nova seção na loja.

O comunicado de imprensa da nova versão já adiantava que os conteúdos poderiam ser vistos no futuro aparelho iTV — nome que a própria Apple destacou ser provisório, e que se transformaria no Apple TV, provavelmente por já ser usado por uma rede de TV britânica.

Praticamente um detalhe de rodapé para a história do programa, o iTunes 7 trouxe também a venda de jogos, para uso no iPod 5. Ainda sem a tela sensível ao toque — que estrearia um ano depois com o iPhone —, as opções consistiam basicamente de jogos casuais como Tetris, Pac-Man, Bejeweled e Zuma.

Apple Inc. e o iPhone (mas sem apps)

Em janeiro de 2007, a Apple apresentou seu “revolucionário e mágico produto” iPhone (nas palavras de Jobs). Apesar da primeira geração do celular não incluir uma loja de apps — o que aconteceria apenas em 2008 — o iPhone era compatível com todo o acervo da iTunes Store, que na época contava com 5.000 videoclipes, 350 séries de TV e 250 longas-metragens.

O iTunes tinha uma importante função nos primeiros anos do iPhone, sendo usado para uma série de tarefas como a ativação e instalação de atualizações de sistema — que só passaram a serem feitas de maneira independente com o iOS 5, em 2012.

O lançamento do iPhone marcou ainda a transformação da fabricante norte-americana, que 30 anos após a sua fundação deixou para trás o nome “Apple Computer, Inc.” por “Apple Inc.”, consolidando o foco em dispositivos eletrônicos no lugar de computadores.

O negócio de meio trilhão de dólares

Apesar do sucesso do primeiro iPhone, a revolução do smartphone aconteceria mesmo um ano depois, com o lançamento do iPhone 3G, além da rede de alta-velocidade (para a época), o aparelho inaugurou a App Store com o sistema iPhoneOS 2.0, também distribuído para o primeiro modelo (usando o iTunes no computador para instalar a atualização).

A loja abriu as portas com cerca de 500 aplicativos para o celular, dando os primeiros sinais de sucesso para um negócio cujo faturamento direto foi de mais de 50 bilhões de dólares em 2019. Um estudo divulgado em junho de 2020 pela Apple avaliou que o ecossistema da App Store movimentou cerca de US$ 519 bilhões no ano anterior, incluindo receitas com publicidade e venda de serviços e produtos físicos.

Valor para bens e serviços digitais considera vendas de assinaturas feitas fora da App Store (Imagem: divulgação/Apple)

Declínio e obsolescência

O ecossistema em que o iTunes foi o pontapé inicial pode ter se transformado em uma das principais fontes de faturamento da Apple, mas também ajudou a determinar o seu fim. A inclusão de cada vez mais serviços deixou o programa pesado, especialmente no Windows. Além disso, o sucesso do iPhone transformou o celular no centro das atenções da empresa, com novas atualizações do iOS reduzindo a dependência do programa para PC.

Os anos seguintes tiveram algumas novidades para o iTunes, incluindo a venda e aluguel de filmes em HD em 2009 — até então os longas eram oferecidos em resolução de DVD (480p). Outros recursos tiveram diferentes níveis de sucesso, caso do Genius (na versão 8, set/2008); iTunes DJ, iTunes LP, Extras e Home Sharing (iTunes 9, mar/2009); e Ping (iTunes 10, set/2009).

A chegada do iTunes 11, no final de 2012, já mostrava que o ritmo de atualizações do programa havia desacelerado drasticamente. O lançamento do iOS 5, em outubro de 2011, passou a dispensar o programa no PC para ativação e atualização do iPhone, que recebeu o menu para instalar novas versões do sistema diretamente na tela de configurações.

iPhone 4S e iOS 5: o começo do fim do iTunes (Imagem: divulgação/Apple)

Em 2014, a Apple lançou o iTunes 12, versão que se tornaria a última grande revisão do programa. O app adotou o estilo trazido pelo Mac OS X Yosemite (10.10), com o qual foi lançado, mas não apresentou grandes novidades até 2018, quando passou a ser oferecido na Microsoft Store para Windows 10.

A sentença de morte para o iTunes chegou, enfim, em 2019. Durante a conferência WWDC daquele ano, a Apple anunciou que o sistema mac OS Catalina substituiria o programa por apps dedicados para diferentes tipos de conteúdo:

  • Apple Music (streaming de música e videoclipes)
  • Apple TV (filmes e séries)
  • Apple Podcasts
  • Apple Books (já independente do iTunes)

Desde o lançamento do Catalina (mac OS 10.15), o iTunes continuou a receber atualizações de segurança nas versões anteriores do sistema (Yosemite, El Capitan, Sierra, High Sierra e Mojave), com drivers atualizados para os novos dispositivos.

O iTunes sobrevive no sistema operacional da Microsoft, mas a última versão do programa removeu a compatibilidade com os sistemas Windows 7 e 8.1 no final de 2020. A Apple não dá sinais de que irá substituir o programa pelos apps especializados no sistema rival, mesmo assim, parece ser o fim daquele que foi a materialização da reviravolta na empresa nos últimos 20 anos.

Fonte: MacWorld, GUIdebook, Apple (1, 2, 3, 4, 5)

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