Quem é responsável por implementar novas tecnologias: governo ou teles?

Por José Otero | 02 de Agosto de 2019 às 11h10

Normalmente, quando se fala sobre inovação no mercado das telecomunicações, um dos erros mais comuns, para a maioria dos países latinos, é responsabilizar o próprio governo pelo não lançamento de novas tecnologias. Se uma operadora em um país vizinho anuncia o lançamento de uma nova tecnologia, a ação pode ser interpretada como uma afronta à dignidade nacional. O tradicional “eles contra nós” do patriotismo nacional, que tanto dano gerou aos países latino-americanos. A este respeito, seria prudente considerar quais são as características do lançamento e as funções que ela executa. Uma vez que o ambiente de lançamento possa ser entendido, uma análise pode ser feita sobre quão próxima ou distante está a chegada da nova tecnologia ao mercado local.

É importante entender as diferenças entre as autoridades governamentais, as autoridades reguladoras e as prestadoras de serviços de telecomunicações (aquelas que fazem parte de uma estratégia de negócios). Cabe apontar que somente em casos específicos o governo pode ser questionado por seu atraso no lançamento de uma nova tecnologia, como quando possui a maioria das ações de controle de uma operadora de telecomunicações.

Outra situação em que as autoridades governamentais podem ser responsabilizadas pelo atraso da chegada de novas tecnologias é quando elas não conseguem se estabelecer no mercado porque este não possui condições ideais para o seu lançamento e posterior adoção. A ausência dessas condições pode, por um lado, impossibilitar a chegada de uma nova tecnologia, porque simplesmente não há recurso, dada a escassez de espectro radioelétrico mercado, como é atualmente observado em vários mercados da América Central. Por outro lado, um alto nível de burocracia e a falta de harmonização de processos podem aumentar os custos de lançamento, para que a operadora prefira esperar por condições mais favoráveis ​​para o lançamento de novos serviços.

Exemplos de como as autoridades governamentais podem dificultar o caminho para a chegada de novas tecnologias são abundantes e vão desde a incapacidade de alocar espectro de rádio limpo de forma eficiente, até pela manutenção de um regime fiscal sobre a importação de equipamentos que não justifica um investimento a curto prazo.

Nessa situação, as operadoras preferem esperar até que um custo mais favorável seja apresentado, geralmente alcançado quando a tecnologia atinge maturidade suficiente para garantir economias de escala. É preciso mencionar as alegações de que um governo pode desejar receber preços semelhantes aos exibidos por concessões em regiões como Nova York, Los Angeles, Londres ou Munique, embora a renda média que recebe por usuário seja inferior a um décimo do que recebem as operadoras dessas cidades, e, por fim, também impõe exigências de cobertura tão rígidas que é quase impossível encontrar uma empresa disposta a investir nessas condições.

Quando se fala em novas tecnologias, o lançamento de novas redes deve ser visto sob a perspectiva das operadoras, considerando fatores como sua estratégia de mercado, perfil do cliente e situação financeira. No mesmo mercado, uma operadora focada em oferecer serviços para clientes corporativos ou alto poder aquisitivo terá maior pressão para acelerar o lançamento de novas tecnologias em relação a um concorrente que opera principalmente em um ambiente rural que oferece serviços básicos de mensagens, Conexões de Internet e mensagens para uma O lançamento de uma tecnologia por uma operadora antes da outra não implica necessariamente que seja mais avançada, mas, simplesmente que possui outros objetivos a curto e médio prazo.

Isso não significa que o governo não possa ter ferramentas para promover o lançamento de novas tecnologias pelas operadoras. Uma das maneiras mais comuns de fazer isso é a alocação de novo espectro com a condição de que ele só possa ser usado com tecnologias que tenham desempenho mínimo para as novas tecnologias de ponta que estão sendo comercializadas globalmente. Naturalmente, se este requisito for acompanhado por muitos outros que tornam o preço final pago pela operadora mais caro, pode ser contraproducente.

Também deve ser considerado que, às vezes, as reclamações das operadoras podem resultar na falha na obtenção de ofertas para suas novas ordens de implantação de infraestrutura. Há mais de dez anos, uma operadora vinculava a contratação de sua rede UMTS para pavimentação de estradas e a instalação de redes de eletricidade para fornecer cada antena implantada, entre outros investimentos em infraestrutura básica que não existiam em muitos locais do mercado. Obviamente, muitos provedores de infraestrutura decidiram não apresentar ofertas porque o custo de aspectos não relacionados às telecomunicações excedia o preço que poderia ser obtido com a venda de uma rede 3G.

Uma vez que as diferenças nas funções dos prestadores de serviços de telecomunicações com as entidades governamentais são compreendidas, é imperativo manter um equilíbrio entre os dois. Nem as autoridades governamentais devem fazer pedidos que vão contra o senso comum, nem as operadoras devem ver na Agência Reguladora uma entidade distante com a qual não pode dialogar. O progresso do setor depende da colaboração e comunicação constantes entre operadoras e seus reguladores.

No final das contas, o objetivo de todos é aumentar a adoção e o uso de novas tecnologias para todas as vantagens que isso implica para o desenvolvimento econômico e social de um país. É por essa razão que, através do diálogo entre todos os atores do mercado, é possível determinar quais novos esquemas podem ser implementados para que os representantes do setor privado possam começar a ser protagonistas dos esforços para levar conectividade, treinamento e conhecimento a todos os habitantes do país.

O caminho não será fácil, pois envolve uma mudança na maneira de pensar de alguns e um reaprendizado para saber quais são os novos modelos de negócios que criarão oportunidades de emprego relacionadas às telecomunicações. Pensar que uma única entidade conseguirá resolver de forma isolada todos os problemas que o setor de telecomunicações tem enfrentado há décadas é simplesmente fantasioso. A solução não é simples e tem variáveis ​​que vão além da infraestrutura ou dos dispositivos. Como sempre foi, está se preparando para o futuro a partir do presente.

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