Investimentos no universo das Operadoras Móveis Virtuais

Por José Otero | 15 de Agosto de 2018 às 13h26
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A indústria das telecomunicações caracteriza-se por exigir investimentos constantes de todos os provedores de serviços de acesso. Investimentos que se destinam para objetivos diversos, dos quais pode-se mencionar a manutenção de infraestrutura já desenvolvida, que por alguma razão ou outra têm sofrido fragmentação. Outra porção do investimento é destinado a expandir a cobertura geográfica da rede do provedor, aumentando assim o número de clientes em potencial que podem alcançar, cobrindo o aumento inevitável no custo médio de conexão de um usuário.

Também existem dois elementos chave na vida de qualquer provedor de serviços de telecomunicações, com um modelo de negócios centrado no mercado massivo, que requer grandes montes de investimento. Primeiro, os lançamentos de novas tecnologias que permitem a diversificação do portfólio de produtos da operadora ao criar novas fontes de entrada. Estas novas tecnologias, eventualmente, ao obter economias de escala, convertem-se em um cenário de concorrência, do qual participam diferentes players do mercado para ver quem é o primeiro a oferecer os novos serviços aos seus clientes.

Em segundo lugar, pode-se mencionar a disponibilidade de dispositivos, uma rede sem aparatos que pode conectar-se à mesma não serve para nada. No entanto, os novos dispositivos terão inicialmente um alto custo por equipamento, o que apenas torna atrativo para aquelas operadoras que contam em sua base de clientes suficientes abonados capazes de custear os novos aparelhos. Aqui, o mais importante não é a capacidade do novo dispositivo, seus conteúdos ou desempenhos, mas sua forma de desenho, o passado nos informou o fracasso do N-Gage e o triunfo do RAZR.

Tudo fica ainda mais complexo se começarmos a falar do universo móvel sem fio, agora nos custos é preciso incluir taxas pagas pelo uso de espectro radioelétrico (processo de alocação + montante anual) e prazos de lançamento de novas tecnologias muito mais curtas. Cada dois ou três anos é preciso investir em software para melhorar o desempenho da rede, esperar que cheguem novos dispositivos que possam beneficiar-se das novas velocidades, e começar a contemplar como o desenvolvimento da rede que requer uma nova tecnologia estará convivendo com aquelas que já estão operando por vários anos.

Nem todo o investimento é centrado em redes ou dispositivos. Para ter uma ideia da importância de investir no negócio móvel, imaginemos um mercado com cerca de 116 milhões de usuários com uma taxa de desistência de clientes de 3% mensal, onde o custo médio de recuperação de clientes foi apenas de US$ 20, o investimento total par reconectar todos os US$ 680 milhões. É claro que todos os especialistas do mundo real sabem que um total de US $ 20 como custo de aquisição de clientes é simplesmente risível - é muito mais alto.

O parágrafo anterior serve de preâmbulo para justificar o nascimento de modelos de negócios que buscam melhores custo-benefício em todos os sentidos. No universo das telecomunicações sem fio para serviços móveis, isto se dá na realidade com a aparição na última década do século XX das operadoras móveis virtuais (OMV). Estes revendedores de capacidade sob seu própria marca, faturamento e valor agregado geralmente não possuem infraestrutura de rede.

Contrário à desinformação que frequentemente se escuta, as OMVs não obtiveram sucesso apenas em mercados onde os serviços pré-pagos eram incipientes. Segundo as porcentagens do regulador estadunidense FCC, no ano de 2000 os serviços pré-pagos representavam 58% das linhas da Europa Ocidental, com mercados como Itália exibindo números superiores a 80% e quatro de cada cinco linhas ativas nestes países sendo pré-pagas. O sucesso varia com países como Bélgica, Holanda e Reino Unido apresentando grandes números de assinaturas móveis por meio de OMV. Este sucesso deu-se por um ambiente regulatório favorável aos MVNOs logo após estes ajudarem a Europa a se recuperar de resíduos e crises subsequentes causadas pelas chamadas frequências 3G no Reino Unido e na Alemanha.

As críticas às OMVs nunca pararam, ainda que seja nos EUA, onde observa-se que a maior OMV do planeta em números de assinantes obtém o número de assinaturas sob uma estratégia de compras e diversificação de marca, o que torna esta operadora móvel virtual a quinta maior operadora estadunidense. No entanto, como quase todo negócio de sucesso, o aumento desta OMV não se deu da noite para o dia nos EUA, foi o crescimento gradual e constante.

Segundo os dados da consultora Regiomontana Telconomia, no primeiro trimestre de 2018, o México contava com um total de 18 OMVs, representando menos de 2% do total de usuários móveis para este período. Assim, os historiadores do setor indicaram que a nível latino-americano, o México sempre se posicionou entre os líderes do setor OMV, do qual o número surpreende. A lentidão nos níveis de adoção também deve ser entendida por outros elementos importantes como níveis de penetração superiores aos enfrentados na Europa no final do século e modelos de negócios distantes de apenas oferecer telefonia ou mensagens de texto: o mundo dos conteúdos se rebela ante todo tipo de furo.

Uma das diferenças do negócio das OMV na atualidade é que não enfrentamos um modelo tão simples como o de suas origens. A criação de valor já não se fica em redução de tarifas, o usuário móvel também evolui e tem outras expectativas. A realização das mesmas em um ambiente do qual aumentou-se consideravelmente a participação dos humanos no negócio da conectividade reduz e será determinante no momento de identificar ganhadores e perdedores.

Contrastando com o passado imediato, agora existe no México uma iniciativa criada para ampliar a proliferação das OMVs ao reduzir os custos de desenvolvimento para este modelo de negócios, sobretudo aqueles que não tem foco necessariamente no mercado massivo ou enxergam a mobilidade como espinha dorsal de sua oferta. Inevitavelmente fica a pergunta: é possível aproveitar a tempo de existência a rede de atacado?

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