É possível bloquear o sinal da Starlink? Veja como isso já foi feito
Por André Leonardo • Editado por Léo Müller |

A Starlink sempre teve como objetivo oferecer uma internet vinda do espaço que não pudesse ser interrompida e imune à censura. Porém, a realidade vista provou o contrário. Mesmo com o serviço ativado, mais de 90% do tráfego no Irã foi derrubado sem que um único satélite fosse abatido. Entenda como o uso de engenharia militar derrubou o serviço da Starlink.
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Como os satélites da Starlink funcionam
Para entender o bloqueio, é preciso diferenciar a Starlink de outros modelos. Satélites tradicionais ficam a 36 mil km de altitude, "estacionados" no céu. O sinal é fixo e a antena aponta para um lugar só.
No sistema de satélites de órbita baixa da Starlink, os satélites voam a apenas 550 km. Eles passam pelo céu em altíssima velocidade. Para a conexão não cair, a antena precisa trocar de satélite o tempo todo.
Devido à velocidade, é impossível usar uma antena comum que gira fisicamente. Ela não conseguiria acompanhar o alvo. Por isso, o terminal da Starlink é construído de forma diferente.
As antenas usadas pela Starlink funcionam como se tivessem cerca de mil minúsculas antenas internas. Elas não se mexem, mas manipulam as ondas de rádio para criar um feixe focado que persegue os satélites eletronicamente.
Esse sistema conecta e desconecta de diferentes satélites em milésimos de segundo. É justamente essa precisão de mira que o bloqueio militar tenta cegar.
Bloqueio por ruído
O engenheiro físico Rudiger Shibuya explica que um dos métodos de censura é o "downlink jamming". Ele lembra que toda onda seja de rádio ou luz segue a "lei do inverso do quadrado": a intensidade do sinal cai drasticamente conforme a distância aumenta.
Isso significa que, após viajar centenas de quilômetros desde o espaço, o sinal do satélite chega à antena do usuário com uma potência muito baixa. É nessa fragilidade que o bloqueio atua.
“Se alguém criar uma fonte de sinal potente o suficiente na mesma frequência do satélite, a conexão desaparece nesse ruído. É como tentar ouvir alguém sussurrando em outro cômodo enquanto há uma caixa de som no volume máximo ao seu lado.”
Embora as antenas da Starlink tenham um foco muito preciso, o princípio físico de sobreposição de ondas gera "pontos focais secundários". Basicamente, a antena não é 100% blindada lateralmente.
Se o ruído gerado for forte o suficiente, ele entra por essas brechas. O receptor fica saturado e não consegue distinguir o que é o sinal do que é interferência, cortando a conexão.
No entanto, Rudiger ressalta que esse método tem limitações por agir localmente e bloquear um país inteiro exigiria milhares desses equipamentos, o que torna a operação cara e logisticamente complexa.
Ataque ao sistema GPS
Segundo o físico, existe uma tática mais eficiente, barata e de maior alcance: o ataque ao sistema de posicionamento, ou "GPS Spoofing".
Nesse método, transmissores enviam dados de GPS falsos. Como as antenas precisam saber precisamente a posição em que se encontram para realizar os cálculos e mirar nos satélites, com os dados de posicionamento falsos, elas fazem o cálculo errado, o que inutiliza o serviço de maneira eficiente.
Desta maneira o "GPS Spoofing" é relativamente mais barato que o “download jamming” e tem área de atuação maior.
Não adianta mudar de frequência
Mudar a frequência do rádio parece uma saída óbvia, mas não é tão simples. Os "jammers", bloqueadores militares modernos, se adaptam e trocam de faixa tão rápido quanto os satélites.
Além disso, a física impõe limites. Frequências mais altas têm dificuldade de atravessar a atmosfera e perdem sinal, enquanto frequências mais baixas deixariam a conexão lenta demais para ser útil.
Há também o risco de um caos aéreo. O espectro de rádio é organizado globalmente. Mudar as faixas da Starlink poderia interferir na comunicação de aviões ou canais militares de países vizinhos.
É possível evitar o bloqueio?
Segundo Rudiger, existem algumas hipóteses de como o bloqueio poderia ser feito usando a tecnologia. A primeira seria via software, ao ajustar a antena para criar "zonas surdas" na direção do ruído, anulando a interferência.
O sistema usaria a sobreposição de ondas para ignorar o sinal do bloqueador terrestre, mantendo o foco exclusivo no satélite. Contudo, isso exigiria uma atualização complexa de programação.
A outra solução futura seria o lançamento da geração Starlink V3, com satélites mais potentes, os feixes de sinal seriam mais "finos". Isso permitiria furar bloqueios mais fracos pela pura intensidade do sinal.