Como funciona o investimento em telecomunicações?

Por José Otero | 08 de Julho de 2019 às 07h31

Muitas vezes encontramos em veículos de imprensa anúncios grandiosos referentes aos grandes montantes de investimento em infraestrutura que irão destinar para as operadoras de telecomunicações suas redes nos próximos anos. Usualmente, nem sempre, os altos níveis de investimento são anunciados logo que uma empresa obtém uma nova concessão de espectro, quando decide expandir para uma nova área geográfica ou simplesmente deseja começar a oferecer serviços por meio de uma nova tecnologia.

Uma das características principais que a indústria de telecomunicações tem é que os provedores de serviços têm que investir constantemente altas somas de dinheiro para se manter na jogada, ser protagonista frente aos olhos dos consumidores. Por isto, todas as operadoras de telecomunicações do mundo desejam reportar um crescimento ou no mínimo retenção de sua massa de assinaturas, investem grandes somas na manutenção de sua rede e já desenvolve a expansão da mesma.

O anterior não leva em consideração o investimento que uma operadoras terá que realizar para conservar a quantidade de assinaturas que possui. Por exemplo, em um caso hipotético com uma taxa de deserção mensal de 3% (cerca da média latino-americana no entanto menor que de muitas operadoras), uma operadora com 100 milhões de linhas teria que investir entre U$ 960 milhões a U$ 6,4 milhões de dólares para manter sua base de assinaturas sem nenhum cambio.

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E de onde saem essas cifras? Simples, é o custo de aquisição e retenção de clientes que terá que enfrentar a operadoras regional com 100 milhões de clientes e uma taxa de deserção mensal (Churn em inglês) de 3%, já que na América Latina esses custos variam de US $ 30 a mais de US $ 200 se o cliente que é retido ou substituído exigir um forte subsídio para seu telefone de médio porte como parte do acordo.

É por isso que quando um operador menciona que está realizando fortes investimentos no mercado de telecomunicações pode determinar quanto investimento se destina para retenção de clientes, quanto se destina para publicidade e quanto realmente se destina para expandir a infraestrutura de rede da operadora. Ao que se destina a retenção e/ou aquisição de clientes, uma cifra nada depreciável, usualmente se considera como parte dos custos operativos ainda em ocasiões que inclui em outras áreas como publicidade e operadoras poderiam agregar esta soma aos totais de investimentos que são feitos nos mercados.

Como foi mencionado anteriormente, todas as operadoras de telecomunicações do mercado têm que destinar somas de dinheiro na manutenção de rede pois cada ano alguma parte da rede passa por problemas e essas peças tem que ser substituídas. Estes danos podem surgir de problemas de equipamentos utilizados, danos que surgem como resultado de fenômenos naturais, acidentes e até vandalismo. Por exemplo, em Porto Rico, após os furacões de setembro de 2017, houve uma operadora de telefonia móvel que sofreu a destruição de mais de 90% de suas antenas. Também no noticiário, ouvimos algumas vezes como, acidentalmente, um barco cortou um pedaço de fibra ótica deixando milhões de pessoas sem conexão. Finalmente, acho que todo mundo já viu como os poucos telefones públicos existentes são, na maioria, grafites, pelo menos. Todos esses exemplos servem para ilustrar e explicar por que as operadoras gastam anualmente centenas de milhões de dólares na manutenção de sua rede. Embora esse investimento passe amplamente despercebido pela mídia porque não aumenta o número de pessoas com cobertura, é necessário manter a qualidade do serviço oferecido à base de clientes estabelecida.

É por isso que quando se encontra com um artigo que faça alusão à uma operadora dizendo que é a primeira a investir em um mercado após vários anos, a reação inicial é surpresa. Tomemos como exemplo o caso do México onde se publica que após cinco ou seis anos finalmente uma operadora de telecomunicações de capital estrangeiro investe no país. Este anuncio, como foi visto, além de ser falso, desmerece todo o investimento anterior que a operadora fez no mercado.

Há quem argumente que a confusão do jornalista pode ser explicada graças às informações falsas e errôneas que as pessoas de relações públicas disfarçadas de especialistas em telecomunicações compartilham com o mercado. No entanto, esse tipo de desinformação prejudica um mercado que precisa de maior investimento e colaboração de seus participantes, se o que se deseja é promover a transformação digital da economia. Uma transformação que não pode ignorar os mais de 50 milhões de pessoas pobres no país, segundo dados do Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval).

De toda forma, os erros noticiosos sobre o investimento de telecomunicações indicam que é necessidade de uma análise séria sobre o panorama de investimento no mercado que apresenta uma metodologia clara onde se qualificam elementos idênticos, evitando “dar murros em ponta de faca".

Tampouco sou inocente e considero que uma análise seja a conclusão deste problema. Seguramente uma vez que se publiquem os resultados desta pesquisa é de esperar que os resultados não coincidam com os esboçados largamente por quem desinformavam, deixando-lhes em entredito, pelo que seguramente tentarão denunciar o estudo como manipulado. Isto forçaria novos investimentos em novos projetos de pesquisa para corroborar os resultados das primeiras pesquisas das quais chegam demasiado tarde para alterar as decisões de politica súbita do mercado.

Regressando ao tema de investimento, meu argumento é muito simples: qualquer pessoa que acuse alguma das grandes empresas que oferecem serviços de telecomunicações no México de não investir anualmente enquanto outro tema é sem a perspectiva de cada empresa, cidadão ou especialista de investimento em redes que faz cada uma é suficiente ou não. Essa é uma discussão totalmente diferentes e muito mais complexa.

Como também é outro tema quanto investimento destinam às operadoras de telecomunicações o desenvolvimento e lançamento de novas tecnologias. Até como dividem o investimento entre seus distintos provedores é um tema diferente, e como foi visto recentemente, parte do jogo econômico e geopolítico internacional. Esses são temas completamente distintos que merecem uma análise independente para poder considerar todos os dados disponíveis e dessa forma buscar informar os leitores do verdadeiro panorama de investimento que existe não apenas no México, mas em todos os países da América Latina.

Afinal de contas, o importante é que todas as empresas de telecomunicações que existem na região continuem investindo em novas tecnologias e na expansão de sua rede para assegurar que localidades que historicamente têm sido desprovidas de conectividade possam ter acesso às mesmas. Regressando ao México, talvez chegue o momento em que se possa ter uma conversa séria entre todos os membros do ecossistema local e representantes de governo para ter sugestões destinadas a acelerar a cobertura desses 5% de população (cerca de seis milhões de mexicanos) que ainda se encontram excluídos do mundo digital.

Seria um modelo que indubitavelmente atrai o interesse de governos de todos os cantos do planeta.

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