COVID-19 | HealthTech cresce 40% ao mês com testes feitos em casa

Por Stephanie Kohn | 21 de Maio de 2020 às 20h09
Canaltech

Um e-commerce de exames laboratoriais que podem ser coletados em casa e colhidos pelo próprio paciente. Esta é a ideia da Testfy, a HealthTech criada pouco antes da pandemia do COVID-19 que teve que se aprimorar durante a crise para prosperar, e hoje já contabiliza crescimento mensal de 40%.

"O processo de exame tradicional é estressante. A pessoa acorda, muitas vezes tem que ficar em jejum, e precisa aguardar o cadastro, a coleta… Nossa solução tira o fluxo e complexidade e leva tudo pro lado da sua cama. Você faz o teste no momento que for melhor pra você e você mesmo faz todo o procedimento, lacra e manda para gente", explicou Gustavo Janaudis, diretor executivo e CEO da Testfy em entrevista ao Canaltech.

Obviamente nem todo exame é possível fazer em casa e sem auxílio de um profissional, mas a startup optou pelos testes da área genética, pois a estabilidade do material coletado, seja pelo swab (aquele cotonete estéril para coleta de mucosa) ou por gotas de sangue, duram até cinco dias - tempo suficiente para o paciente enviar de volta a coleta.

COVID-19

Hoje eles possuem oito exames disponíveis: intolerância alimentar, nutrigenético, microbioma intestinal, genético ginecológico, esportivo e dermatológico, além dos testes para anticorpo e detecção do COVID-19. Os exames são feitos por PCR (coleta de material do nariz e da faringe) e sorologia (sangue). O PCR detecta a presença do vírus em tempo real, enquanto a sorologia detecta anticorpos ao vírus (se você está ou esteve antes com a Covid-19).

"Desde janeiro vínhamos fazendo testes genéticos e crescemos próximo de 35% até março, quando começou a pandemia e nossa demanda caiu 80%. Os exames que não eram de urgência ficaram em segundo plano. Trabalhamos então para fazer a autocoleta do COVID-19. Terminamos o kit e todo sistema, mas o parceiro laboratorial disse que não poderia mais nos atender. Nós já tínhamos vendido 600 testes que aguardavam resultado", contou.

Com a saída do parceiro, a empresa se viu sem saída: "tivemos que montar nosso próprio laboratório de biologia molecular. Hoje fazemos 100% das análises aqui dentro. Com isso, tivemos aumento de 40% nas vendas no último mês. E esse crescimento está relacionado à demanda e não estratégia. Ou seja, se eu conseguisse dobrar minha capacidade cresceríamos 100%. Hoje estou negando testes", disse o farmacêutico-bioquímico.

Mas, ainda que não estejam dando conta da demanda, Gustavo lembra que iniciaram os exames de COVID-19 com capacidade para 100 testes diários e hoje já conseguem entregar 890 resultados por dia, sendo que, a partir da semana que vem, chegarão a 1160. Isso porque contrataram soluções de automação para substituir procedimentos manuais por máquinas.

"Já fizemos 30 mil análises de detecção do COVID-19, sendo a maioria proveniente das parcerias que temos com 26 hospitais. Eles praticamente pedem os exames com exclusividade para gente. Já os consumidores finais acabam fazendo mais testes de anticorpo", revelou. "O método RT-PCR tem base na detecção do RNA viral e, portanto, sensibilidade próxima a 100%. Um resultado negativo indica que o material genético do vírus não foi detectado na amostra analisada. Fatores como dia da coleta e presença de sintomas influenciam diretamente no resultado do teste. O teste em microplaca ELISA tem, segundo o fabricante registrado na ANVISA, sensibilidade de 86,4% e especificidade de 96,2% que se traduz em 13,6% de chances de um falso negativo e 3,8% de chances do falso positivo", completou.

Como funciona?

O paciente compra o teste pela internet e recebe um kit em casa. Com um código QR, acessa toda a sequência de orientação do procedimento. Os vídeos explicam como se preparar para a coleta, como fazer a coleta e como fechar e lacrar o exame. Com o kit fechado, existem duas possibilidades de devolução para o laboratório: Correios e o serviço de entrega Loggi.

A empresa fechou um acordo e basta o cliente colocar o teste nas caixinhas dos Correios para que eles entreguem no laboratório da Testfy, localizado na cidade de São Paulo. O custo fica por conta da HealthTech. Em 27 cidades brasileiras há ainda a possibilidade de coleta domiciliar do kit. Já com a Loggi, a Testfy oferece ao paciente um cupom de desconto de R$ 20 para ajudar na despesa.

Alguns exames usam o swab, conforme mencionado, e outros sangue. O teste para detecção de anticorpo do COVID-19 exige que o paciente pique o dedo e coloque 5 gotas no frasco com anticoagulante. O resultado para detecção da doença demora 72 horas e o de detecção do anticorpo sai em 48h. Já os testes genéticos têm prazo de 20 dias e microbioma intestinal 15 dias.

Tecnologia

A tecnologia não está presente somente na automação dos resultados, mas também na plataforma de e-commerce, na orientação dos procedimentos via código QR e no sistema de laudos, que usa bioinformática.

"Nosso sistema, 100% desenvolvido em casa, considera algoritmos de computadores do mundo inteiro. Com isso, nossos dois geneticistas conseguem trabalhar em tempo real em qualquer interpretação nova que seja publicada em qualquer parte do mundo", explicou. "Assim, caso alguma nova variante seja descoberta em um exame que já recebeu o resultado, conseguimos oferecer a possibilidade de rodar o teste novamente por um preço menor", completou.

A respeito de parcerias com convênios, a Testfy informou que, por estar focada em exames de alta complexidade, que não compõem o ROL da ANS, não são sujeitos a credenciamento pelas operadoras de saúde. Para os exames de COVID-19, eles estão avaliando potenciais credenciamentos. No entanto, o reembolso é possível e só depende da apresentação do pedido médico e laudo pelo paciente à operadora.

Funcionamento

Atualmente o Testfy tem 48 funcionários, sendo 18 pessoas na programação, quatro no setor de design e criação, e três nas áreas administrativas e comerciais. No início do projeto, os três sócios, Gustavo, Victor e Antoine, investiram capital próprio, cerca de R$ 2,8 milhões, mas já aportaram mais R$ 2 milhões de investidores-anjo e cerca de R$ 380 mil apenas para o projeto do COVID-19.

"O breakeven do laboratório já foi atingido. A automação completa garantiu produtividade e redução de custos, proporcionando equilíbrio. Estamos buscando esse equilíbrio na healthtech, visto que os investimentos em programação são altos e payback alongado", disse.

Além do e-commerce para o consumidor final, a empresa ainda conta com o Testfy Professionals, que usa uma interface totalmente diferente em que o profissional de saúde pode acompanhar o evolutivo do paciente. Eles também têm um sistema de EAD dentro da plataforma para ajudar os profissionais nos testes genéticos, já que alguns deles somente o laboratório da startup faz no Brasil.

"Há poucos anos descobriram e sequenciaram parte do genoma humano, cerca de 6% foi mapeado. Com isso, os testes genéticos ganharam força. Hoje conseguimos dizer qual é a suscetibilidade de uma pessoa ter Alzheimer, por exemplo. Mas poucas pessoas na comunidade científica ainda têm esse tipo de especialização. Por isso que nosso trabalho com o ensino à distância é importante", finalizou.

O CEO ainda lembra que um diferencial dos testes realizados no Brasil é que usam a base do DNA do brasileiro, o que tornam os resultados mais assertivos.

Matéria atualizada em 25/05/2020

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