Crítica | Years and Years apresenta futuro distópico possível e assustador

Por Natalie Rosa | 03 de Outubro de 2019 às 10h30
Divulgação: HBO

Imagine um futuro distópico não tão distante assim. Agora imagine acontecimentos surreais dentro desse cenário. Imagine também que esses acontecimentos surreais, na verdade, não são improváveis de se tornarem realidade. Imaginou? Assustador, né? É exatamente esse tipo de reflexão que a série Years and Years consegue causar no espectador.

Escrita por Russell T. Davies, a série não é tão recente assim e é bem curta, com apenas seis episódios de cerca de uma hora cada, e por ser tão chocante continua sendo debatida nas redes sociais, vídeos e podcasts. Years and Years estreou em maio na BCC e pode ser assistida pelos assinantes do HBO GO desde junho.

Atenção: está crítica pode conter spoilers da primeira temporada de Years and Years.

Imagem: Divulgação/HBO

Política, xenofobia e caos

A trama já começa mostrando a candidata à primeira-ministra da Grã-Bretanha Vivienne Rook, interpretada pela incrível Emma Thompson, proferindo um discurso raso, mas impactante e populista, que chega a beirar o absurdo. Suas falas firmes conseguem ser convincentes o suficiente para atrair vários seguidores e, então, ser eleita. Ela chegou a dizer em televisão aberta, ao vivo, que simplesmente não liga para a situação da Palestina e Israel, causando espanto em alguns e admiração em outros por não ter medo de falar o que pensa.

Rook faz um grande espetáculo dizendo o que o povo quer ouvir, mas mesmo para a sua equipe parece improvável que o seu governo resulte em algo realmente positivo. A série tem como cenário principal as questões políticas vividas na Europa, nada muito surpreendente, com rumos que podem ser cruciais para o futuro da população não só de lá, quanto do mundo inteiro. Essa afirmação por si só já é bastante assustadora, mas imagine o que o rápido avanço da tecnologia poderia incrementar a isso...

Imagem: Divulgação/HBO

Assim como o partido The Four Star, Rook, cresce rapidamente e ela logo conquista vários eleitores e admiradores, com a narrativa acontecendo em um período de 15 anos (tudo começa em 2019) que, vamos combinar, é muito pouco para todo o caos que é causado. Antes e depois do governo de Rook vemos a xenofobia e a homofobia em ascensão, a China construindo uma instalação militar em uma ilha artificial, guerra na Ucrânia, Angela Merkel morre, Trump é reeleito, um campo de concentração secreto para "descartar" imigrantes é criado, a economia desanda e a tecnologia alça voos ainda maiores, tudo muito acelerado e fora de controle.

O primeiro episódio da série não poupa no terror psicológico, pois logo no início é impossível não fazer alguma relação com o cenário atual. Imagine, de repente, descobrir que o seu marido acredita nas teorias das conspirações mais absurdas, ou ainda que a sua irmã concorda com os discursos de uma pessoa tão fora de controle como Vivienne Rook... É isso o que vemos em Years and Years.

Tecnologia

Todo o enredo da série é retratado na perspectiva da família Lyons, que é composta pela avó Muriel Deacon (Anne Reid), seus netos e bisnetos. A tecnologia começa a se mostrar assustadora pela primeira vez quando Bethany Bisme-Lyons (Lydia West), uma das filhas do casal Celeste Bisme-Lyons (T'Nia Miller) e Stephen Lyons (Rory Kinnear), usa uma tecnologia bizarra. Em vez de aparecer na tela do smartphone com rosto de cachorrinho ou bebê chorando, por exemplo, a imagem é projetada em cima do rosto físico da pessoa, sendo impossível ver as suas expressões.

Ela usa essa máscara para contar aos pais que quer se tornar uma transumana, ou seja, transferir todos os seus "dados" e consciência para uma máquina, deixando de existir em corpo físico. Mas essa não é a primeira revelação chocante da jovem.

Imagem: Divulgação/HBO

Inconformada com a sua forma de carne e osso, ela quer mais e manifesta o desejo de ter olhos biônicos, um plano que acaba não dando certo em uma situação muito assustadora. Mesmo assim, ela consegue implantar um celular na sua mão e um microchip em seu cérebro, o que a transforma em uma humana-máquina. Ela não precisa mais de um dispositivo. Ela é o dispositivo. Levando em conta o vício em smartphones, redes sociais e o acesso fácil à informação existente nos dias de hoje, não surpreende que uma adolescente anseie ainda mais por isso e aceite fornecer o seu corpo para tal.

Com o dispositivo em seu cérebro, ela consegue hackear computadores, sistemas, documentos, causar apagões, entre várias outras coisas legais e ilegais. O mais assustador de tudo isso é que o governo é quem paga por esses experimentos.

Imagem: Divulgação/HBO

A situação só piora e as coisas começam a acontecer para a família Lyons. Agora que já estamos bem apegados a eles, vemos as consequências os afetando diretamente: banco falindo, refugiados sendo colocados para morrer, homossexuais sendo assassinados e expulsos de seus países, a tecnologia avançando cada vez mais, bombas nucleares, aquecimento global, a economia em recessão, muitos desempregados, entre muitas outras coisas.

A série passa a mostrar a família tentando, literalmente, sobreviver a todos esses problemas, sendo impossível não se colocar no lugar deles. A família de Stephen, inclusive, perde de um dia para o outro a sua casa, avaliada em US$ 1 milhão, após um banco falir e ficar com todo o dinheiro da venda do imóvel. Acompanhamos também Daniel Lyons (Russel Tovey) morrendo afogado após ajudar o namorado refugiado ucraniano Viktor Goraya (Max Baldry) a sair da Espanha e voltar a Manchester, onde a família vive.

Um dos momentos mais impactantes em meio ao cenário político e a situação da família é quando Muriel faz um discurso pesado para os seus familiares, que também serve de alerta para quem está assistindo à série. As coisas estão acontecendo, mas o que você está fazendo para mudar? É muito fácil reclamar... O desabafo é crucial para vermos a revolução acontecer entre os Lyons, decidindo o futuro de onde vivem.

Imagem: Divulgação/HBO

Years and Years tem o propósito de nos mostrar uma realidade que não é tão impossível assim, ao contrário de Black Mirror. A trama possui um ritmo intenso, mostrando os anos se passando rapidamente com uma trilha sonora alta e poderosa ao fundo, capaz de fazer o coração acelerar de nervosismo ou, até mesmo, medo.

Você pode conferir a primeira temporada completa de Years and Years no HBO GO.

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