Crítica: Watchmen na HBO ainda não convence na estreia, mas tem potencial

Por Claudio Yuge | 23 de Outubro de 2019 às 10h59
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Watchmen estreou no domingo (20) na HBO. A série tem como premissa explorar o mesmo universo perverso e corrompido introduzido por Alan Moore e Dave Gibbons nos quadrinhos, com influência da adaptação de Zack Snyder, mas sob a ótica de novos personagens. O primeiro episódio tem alguns momentos empolgantes e várias referências para os fãs, mas ainda tem muito a provar para estar no mesmo patamar da obra original.

A trama serviria como uma espécie de “sucessora espiritual” dos eventos da graphic novel, cerca de 34 anos após os acontecimentos da história de Moore e Gibbons. Ou seja, o mundo já se reconstruiu da devastação causada pelo monstro trazido por Ozymandias e depois da despedida do Doutor Manhattan.

(Imagem: Reprodução/HBO)

Vemos um cenário em que os policiais usam máscara e precisam de autorização para uso letal, enquanto recebem ajuda de vigilantes para fazer o “serviço sujo”. Os Minutemen, heróis da velha guarda, são tratados como lendas do passado. Há uma grande ascensão de um grupo de extrema direita, inspirado em Rorschach, em meio a um ambiente de tensão racial. O presidente dos Estados Unidos é o ex-ator Robert Redford, que entrou no lugar de Richard Nixon.

Cuidado! Daqui em diante este texto pode conter spoilers!

Ótima produção e ambientação

A primeira coisa que dá para destacar é a excelente produção (como sempre) da HBO, que caprichou na identidade visual e na recriação do ambiente já explorado em várias histórias — além da graphic novel, temos as prequels em quadrinhos Antes de Watchmen e a atual continuação no universo DC Comics, Relógio do Juízo Final; e, claro, o filme de Zack Snyder.

O visual é um blend disso tudo e o tom é o mesmo da obra original, com discussões políticas e éticas em meio à atuação questionável da polícia e dos vigilantes. É um mundo cínico e sombrio, um prato cheio para teorias de conspiração. Alguns dos subtextos de Moore e Gibbons foram atualizados para o mundo atual, como a ascensão da extrema direita.

(Imagem: Reprodução/HBO)

Já o som deixa um pouco a desejar. A trilha sonora é esquecível, assim como a edição, que poderia favorecer melhor as cenas de drama, por exemplo. Vale destacar que nas HQs não temos músicas e Snyder, por exemplo, usou uma faixa do Bob Dylan para resumir um trecho da história que seria difícil de adaptar — a canção serviu para contextualizar a época e foi uma adição muito bem-vinda. Algo assim poderia ser feito por aqui.

Falta inspiração e… Alan Moore aos personagens

Embora a premissa seja mexer com novas criaturas, é difícil dissociar Watchmen de Rorschach, Coruja, Comediante, Espectral, Doutor Manhattan e Ozymandias. A Sister Night, uma freira carateca vivida por Regina King, é interessante, mas fica difícil gostar muito dela assim de cara, sobretudo quando a comparamos com os personagens anteriores.

(Imagem: Reprodução/HBO)

Além disso, o texto, que é escasso no primeiro episódio, nem de longe chega perto da matriz visceral de Moore — e não me venham falar que é impossível fazer algo parecido, pois Len Wein e Geoff Johns provaram que sim em Antes Watchmen: Ozymandias e Relógio do Juízo Final, respectivamente. Rorschach, que era o fio condutor para destilar poesia viva do caos urbano, não tem um representante semelhante e fica até um pouco confuso saber quem realmente é o protagonista na atração da HBO.

E Jeremy Irons, de quem sempre se espera algo brilhante, não teve muito tempo de tela nessa estreia.

Easter eggs ajudam

Para os mais saudosistas, é possível se divertir um pouco o fan service. Temos várias referências, como uma homenagem à famosa cena que Rorschach mata um presidiário no banheiro; citações aos Minutemen e ao polvo gigante extradimensional que matou milhares de pessoas; o famoso relógio do Doutor Manhattan, o “filho do relojoeiro”, entre outras coisas; os Contos do Cargueiro Negro, a nave do Coruja, entre outras coisas.

(Imagem: Reprodução/HBO)

Isso tudo não chega a mexer na história e a maioria dos easter eggs vêm para povoar melhor a atração. Possivelmente, a maioria das coisas não deve ter muita influência no que veremos mais para frente, contudo valem como um “extra” para os fãs. Aliás, como 34 anos se passaram entre os eventos da trama original, a própria HBO lançou a Peteypedia, que narra os acontecimentos ocorridos entre 1985 e 2019.

Calma, é só o começo

Bem, em um primeiro momento, Watchmen da HBO deixa um pouco a desejar, pois faltam personagens carismáticos e um texto mais redondo e interessante. A trama é curiosa e até nos convida a ver os outros capítulos. Damon Lindelof costuma ser hiperbólico no começo e às vezes é muito pretensioso, com finais bastante decepcionantes — veja o que ele cometeu em Lost e Prometheus.

Para piorar, a estreia acontece em um momento em que Relógio do Juízo Final, que realmente funciona como uma continuação de Watchmen e envolve os heróis da DC Comics no que talvez seja a melhor história do gênero em décadas, está em seu ápice. Fica difícil não comparar o que Geoff Johns e Gary Frank vêm fazendo com o que Lindelof entrega.

(Imagem: Reprodução/HBO)

De qualquer forma, estamos aqui para torcer para que seja uma ótima série. Não queremos ver uma recriação de uma obra consagrada em outra mídia ou apenas mais do mesmo, então a busca por algo original é algo a ser aplaudido. É apenas o começo, depois que ela terminar voltamos a fazer um balanço — e prometo engolir cada palavra caso ela seja realmente um sucesso.

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