Crítica | Mindhunter coloca os aprendizados em prática na segunda temporada

Por Natalie Rosa | 23 de Agosto de 2019 às 10h29
Netflix

Na primeira temporada de Mindhunter, que foi ao ar na Netflix em 2017, aprendemos com Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) como criar o perfil de um assassino. A temática da série — investigação e assassinato — é algo que chama a atenção do espectador e não é de hoje. Quando se trata de casos reais, então, a curiosidade só tende a aumentar.

Esse foi apenas um dos detalhes que fez com que Mindhunter, dirigido por David Fincher, fizesse tanto sucesso. A expectativa pela segunda temporada foi grande e, mesmo com o lançamento acontecendo quase dois anos depois, a continuação da história que nos deixou abismados continua sendo atrativa.

Imagem: Divulgação/Netflix

Atenção: esta crítica contém spoilers da segunda temporada de Mindhunter.

Prática

Agora que o termo serial killer, ou assassino em série, já está imposto, é hora de os agentes do FBI inovarem mais em suas pesquisas e desenvolverem tudo o que aprenderam para evitar novos crimes. Logo no começo da nova temporada, conferimos os oficiais conduzindo entrevistas com assassinos e vítimas, em diálogos de tirar o fôlego. Afinal, o ponto forte da trama são as entrevistas.

A segunda entrevista na prisão acontece com Son of Sam (Filho de Sam), David Berkowitz, interpretado brilhantemente por Oliver Cooper, que inclusive se assemelha muito ao verdadeiro assassino. O objetivo da conversa é tentar entender o perfil do serial killer BTK, então são feitas perguntas com cunhos sexuais, relacionando o prazer à tortura.

Imagem: Divulgação/Netflix

Para tentar estimular as declarações do assassino, Bill Tench conta que BTK se inspira em seu método e o idolatra. No começo da conversa, ele acaba declarando que executava os seus crimes a pedido de um demônio de três mil anos que dominava seu corpo.

Porém, já utilizando as táticas de psicologia adquiridas na primeira temporada, Holden consegue facilmente tocar nos pontos de vulnerabilidade do assassino, que acaba confessando que a história da possessão era uma mentira. Assim, caso algo desse errado, ele teria uma desculpa.

Assim a dupla consegue as informações que precisavam, descobrindo sobre as fantasias sexuais de David e as suas táticas para caçar as suas vítimas, todas mulheres. Ele ainda revela um detalhe importante que é muito bem construído em Mindhunter, e que acaba sendo levado em conta no restante dos episódios: os assassinos costumam voltar ao local dos crimes para reviver o momento.

Mas, antes disso, Holden e Bill se reencontram mais uma vez com Ed Kemper. No fim da primeira temporada, o jovem investigador teve a sua primeira crise de pânico ao descobrir que o criminoso se identificava com ele e, então, ganhar um abraço.

A questão da síndrome do pânico chega a ser abordada na segunda temporada, mostrando mais uma crise, mas nada que tenha sido muito desenvolvido. Inclusive, Holden continuou o seu trabalho firme e forte, sem nenhum momento de crise aparente. A situação acabou sendo apenas um detalhe que com o decorrer dos episódios acaba sendo esquecido.

Imagem: Divulgação/Netflix

Outro ponto alto da temporada é a oportunidade que Wendy Carr (Anna Torv) teve de entrevistar o assassino Elmer Wayne Henley, que, ao contrário dos outros criminosos, optava por assassinar apenas garotos. Carr, que é lésbica, encontra o ponto de identificação com Henley e consegue tirar informações importantes de seu comportamento, mesmo que ele fique em negação em relação a sua homossexualidade.

Este, provavelmente, foi o único ponto de prestígio concedido à personagem. Além de sentir medo de assumir a sua sexualidade para os colegas de trabalho e para a sociedade, ela acaba sendo reprimida pelos superiores para que não tenha as mesmas tarefas que Holden e Bill, mesmo que a sua entrevista tenha sido um sucesso. Eles, inclusive, acreditam que a história contada na entrevista tenha sido inventada como tática.

Além disso, a série se aprofunda por alguns momentos na vida pessoal da personagem, principalmente quando ela conquista uma nova namorada. Porém, mais uma vez, a questão das duas mulheres precisarem se esconder e levar praticamente uma vida dupla acaba trazendo o fim da relação. Quem sabe na próxima temporada, mesmo que na época em que a história se passa a opressão contra mulheres e homossexuais ainda fosse descarada, poderemos ver mais pontos altos da carreira de Carr.

Pareceu que toda a situação, na verdade, foi criada apenas como uma forma de incluir Carr na história, desvalorizando a importância de seu trabalho. Isso poderia ter sido trabalhado mesmo com os empecilhos, como o machismo.

Charles Manson

Outra entrevista que merece destaque é quando Holden e Bill conseguem, finalmente, entrevistar Charles Manson. O ator que interpreta o assassino, Damon Herriman, é o mesmo que atua no papel do serial killer no filme Era Uma Vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino.

Imagem: Divulgação/Netflix

O momento que todos esperavam contou com atuação impecável de Herriman, trazendo um sorrisinho de leve não só no rosto de Holden, como no de quem assiste. Manson, que nunca sujou as mãos de sangue, foi um dos criminosos mais famosos da história, então, mesmo com toda a crueldade envolvendo os seus crimes, não há como não se empolgar em entender o que se passa em sua cabeça e em suas atitudes. A entrevista foi, de fato, um dos pontos mais altos da temporada.

Novo foco

A caça pelo BTK foi interrompida quando, em Atlanta, Holden é chamado para investigar o caso de assassinato de garotos da cidade. Acreditava-se que o crime era relacionado com a Ku Klux Klan, a famosa KKK, grupo supremacista branco, visto que as vítimas eram todas garotos negros. Na época, a polícia local não deu muita atenção ao caso, então qualquer ajuda era bem vinda, principalmente se fosse do FBI.

Imagem: Divulgação/Netflix

Holden logo percebeu que a missão seria mais difícil do que imagina, mas ele não desistiu. Então, começamos a descobrir que o foco da segunda temporada seria na resolução destes assassinatos.

A dupla conseguiu colocar em prática os aprendizados das entrevistas com os serial killers, chegando à conclusão de que se tratava de um homem negro, e não branco, pois só assim os garotos conseguiriam ser coagidos a entrar no carro do assassino.

Imagem: Divulgação/Netflix

Essa conclusão não poderia chegar à mídia, visto que Atlanta é uma cidade conhecida pela vasta comunidade negra, com a história acontecendo em uma época de revolução e reinvindicação de seus direitos. O racismo é tratado com delicadeza na série e respeitando a voz da comunidade, com diálogos e discursos que apresentam o problema e o desprezo dos brancos.

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No fim, os agentes conseguem encontrar e prender Wayne Williams, assasino de dois adultos negros, sem conseguir provar que ele também teria sido o assassino de todas aquelas crianças. O caso dos garotos assassinados de Atlanta nunca foi solucionado.

BTK: Bind, Torture, Kill

Na primeira temporada, somos apresentados silenciosamente a Dennis Rader, conhecido na polícia como BTK, sigla para Bind, Torture, Kill, que em português significa "amarrar", "torturar" e "matar". A expectativa seria de que o assassino fosse o principal elemento da continuação, mas não foi bem assim que aconteceu.

Imagem: Divulgação/Netflix

BTK continua aparecendo em apenas alguns momentos da segunda temporada de Mindhunter, em cenas bizarramente assustadoras, mas em paralelo BIll Tench e Holden Ford estão trabalhando na investigação do caso. O criminoso é um assassino cruel e que está brincando com a polícia, enviando cartas e deixando símbolos.

Para conseguir capturar BTK, Tench entrevista Kevin, um sobrevivente traumatizado. A cena acontece em um local improvável para desenvolver uma conversa: dentro do carro e sem nenhum contato visual entre o entrevistado e a vítima. Kevin também não aparece para quem está assistindo, estando sempre desfocado, virado para o lado ou cobrindo o rosto, sendo possível apenas visualizar a parte de trás da cabeça ou metade da face, também exibindo a cicatriz do tiro que levou.

Imagem: Divulgação/Netflix

A conversa começa calma, mesmo com Kevin mostrando estar muito nervoso por precisar relembrar do trauma, e vai acelerando as batidas do coração de quem está assistindo, seja pela ansiedade, pelos detalhes bizarros dos crimes ou pela empolgante cena em si, aparentemente em sequência.

A história foi interrompida pelo caso dos garotos de Atlanta e há grandes chances de que seja desenvolvida, finalmente, na próxima temporada.

O filho de Bill

Como se não bastasse ter que lidar com crimes de serial killers no trabalho, Bill também enfrenta um problema sério dentro de casa. Seu filho acabou assistindo ao assassinato de um bebê, junto com outras crianças mais velhas, e sugeriu para que ele fosse colocado em uma cruz, um comportamento típico de um assassino em série.

O problema foi abordado apenas com a crise na família em relação a esse assunto, quando tudo começa a desmoronar. Mas nada é mostrado sob a perspectiva da criança, então pode ser que o tema se torne assunto da terceira temporada, possivelmente revelando se o filho de Bill apresenta comportamento homicida.

Mindhunter não é uma série necessariamente de grandes emoções, mas sim uma trama que traz impacto com diálogos fortes e muito bem executados, se tornando mais informação do que entretenimento, e instigando a curiosidade mórbida que todo mundo tem dentro de si.

A história é inspirada em situações reais, mesmo que nada seja representado fielmente à realidade, e traz debates que acabam sendo esquecidos com o tempo, mas que não deveriam. A criação da Unidade de Ciência Comportamental do FBI foi de extrema importância para a história da sociedade e não deve ser deixada de lado.

Até o momento, a terceira temporada de Mindhunter ainda não foi confirmada, mas, com a repercussão e andamento da história, há grandes chances de isso acontecer.

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