Crítica | Marianne: medo de qualidade em pele de terror pasteurizado

Por Laísa Trojaike | 24 de Setembro de 2019 às 22h50
Netflix

O terror vive de mexer com nossos medos primordiais (predadores, desconhecido e escuro, por exemplo) e com nossas crenças. A lista do que causa medo a um grande número de pessoas não é assim tão extensa e a ciência já tratou de desmontar muitas crendices, de modo que, a cada vez que um terror é feito, o gênero precisa ser repensado e refinado. Assustar-nos com sons altos (jump scare) quase sempre funciona, mas o prazer que o espectador sente ao ser submetido repetidas vezes ao mesmo recurso muda (e muito provavelmente para pior). O mesmo pode ocorrer com qualquer outro recurso e esse é um dos maiores problemas que uma narrativa com mais tempo de desenvolvimento pode enfrentar. Nesse sentido, uma série de terror enfrenta um desafio muito mais exigente que o de longa-metragem.

Samuel Bodin, que dirigiu todos os episódios de Marianne (original Netflix), entende bem os mecanismos de susto, medo e imprevisibilidade e consegue manter um bom tom em todos esses quesitos ao longo dos oito episódios, sobretudo no que diz respeito ao requinte imagético, que é o que provavelmente mais envolve o espectador, uma vez que a trama deixa a desejar em diversos pontos.

A partir daqui, a crítica pode conter spoilers!

Isca

Ao contrário de muitas séries, que parecem pedir paciência para conquistar o espectador, Marianne diz a que veio na primeira sequência. Em um ambiente escuro, denso e claramente desiquilibrado, vemos uma mulher amedrontada procurar por sua mãe. A direção de arte é primorosa na criação desse ambiente junto ao departamento de fotografia: embora o mobiliário evoque uma aconchegante "casa de vovó" e as luminárias com luzes amareladas tentem dar conta de aquecer o ambiente, sobreposições de diversas edições da mesma série de livros revelam a insanidade de quem habita aquele local, então invadido por uma luz azul que não lhe pertence, mas que reconfigura os ânimos do ambiente. O corvo na gaiola é a cereja do bolo.

Sem narração, é o ambiente e seus objetos que nos contam a história (Imagem: Netflix)

Ao entrarmos na cozinha junto com a filha, Caroline Daugeron (Aurore Broutin), a iluminação externa dá lugar à luz artificial interna em tons de verde, um alerta ao mesmo tempo para a presença do mal e para algo repugnante. O foley, aqui, também é incisivo e, mesmo antes de sabermos que a Sra. Daugeron (Mireille Herbstmeyer) está arrancando um dente com uma faca, já sabemos que ela está fazendo algo bizarro envolvendo a sua boca.

Se a série tem defeitos, certamente estes não estão na qualidade estética (Imagem: Netflix)

Mireille Herbstmeyer é o grande trunfo de Marianne e são reduzidos os pontos altos após a sua saída da trama. A atriz, que tem um extenso currículo no teatro, é assustadora por sua própria atuação: ainda que possa aparecer acompanhada pela trilha sonora, não é sustentada por ela, e, por mais que suas ações não tenham justificativa no contexto do universo da série, elas são convincentes. O terror está nos seus olhos e no modo como deforma o próprio rosto em um sorriso, habilidade popularizada por Bill Skarsgård como Pennywise. Skarsgård, no entanto, não é páreo para Herbstmeyer.

Uma vez que Marianne possui o corpo das vítimas, é possível imaginar a existência de conflito interno, entre hospedeiro e parasita. A existência desse conflito só é exposto de fato no último episódio, mas, retrospectivamente, é possível notar que nenhum ator conseguiu transparecer tão bem o conflito de emoções como Mireille Herbstmeyer. Marianne, a bruxa, não é louca, embora possa ser se quiser, mas também é forte o suficiente para dominar os corpos que possui. Embora o roteiro não nos entregue elementos suficientes para essa conclusão, gosto de pensar que a Sra. Daugeron é uma mulher forte o suficiente para não se deixar dominar por completo: o padrão de oferecer um chá às visitas, urinar-se como sinal de medo e ao mesmo tempo de presença e a face transfigurada ao exibir quase que simultaneamente medo, tristeza, alegria e satisfação após matar a Sra. Larsimon, mãe de Emma (Victoire Du Bois), são apenas alguns momentos de destaque da sua atuação.

Dá um arrepio só de olhar para ela (Imagem: Netflix)

Concepção Estética

Após nos conquistar com a Sra. Daugeron e com as equipes dos departamentos de arte e fotografia, a série começa a desenvolver a história de Marianne e outros elementos visuais começam a ser inseridos. Desenvolver a história em um local isolado e frio é uma excelente escolha para justificar os momentos de isolamento dos personagens e contribui para o tom sombrio. A inserção do farol, assustador em si mesmo tanto pelo som quanto por funcionar sozinho como se fosse um ser vivo, é, no entanto, uma imagem recorrente que cria a expectativa de que será um elemento central da trama, mas nada mais é do que o palco de uma das mortes.

A simbologia criada para a língua das bruxas é bastante criativa e aparentemente foge do lugar comum de utilizar alfabetos de povos antigos. A presença de curvas, círculos, cruzes e setas revelam que a língua pode ter sido inspirada em glifos como os utilizados na astrologia. No que diz respeito aos feitiços da bruxa, é interessante o saco de pele, mas, ao longo dos episódios, a utilização do mesmo objeto para tudo faz parecer que esse é o único instrumento da vilã, o que parece um tanto sem sentido.

É o símbolo do signo de escorpião ali, não é? (Imagem: Netflix)

Não é nova a utilização de olhos que brilham no escuro em personagens malignos, mas Marianne consegue utilizar esse mesmo recurso inúmeras vezes sem cansar o espectador. O brilho nos olhos deixa de ser um alerta da presença da entidade para o espectador e passa a ser um sinônimo de intenção do mal, ou melhor, a transparência de que Marianne tem prazer ao causar o mal. Com isso, essas sequências passam a ser mais do que assustadoras. Há algo ainda pior do que uma pessoa possuída: a existência de uma espécie de mal que parece inabalável e indestrutível. Ainda com relação a essa característica, vale mencionar o trecho que precede o suicídio do Inspetor Raunan (Alban Lenoir), cujo rosto aparece ora nas sombras, ora na luz, revelando diferentes aparências.

Marianne parece fazer também um tributo ao cinema de horror japonês nas figuras macabras que insere ao longo dos episódios. Ainda que a bruxa de sorriso largo e olhos cobertos pareça uma versão enlatada de fantasmas hollywoodianos, a deformação do seu sorriso é equivalente ao utilizados nos desenhos japoneses como indício de maldade em vilões humanos e não-humanos. A influência oriental é ainda maior no episódio final e pode soar cômica para quem nunca teve contato com espíritos sem pálpebras e línguas enormes. A imagem de uma Marianne esvoaçante e com um rosto que lembra uma máscara do teatro kabuki pode não agradar a todos, mas é um espetáculo visual inesperado e muito bem-vindo.

Você teve medo ou achou engraçado? (Imagem: Netflix)
Marianne parece ter sido extraída diretamente de uma gravura japonesa (Imagem: Netflix)

Tropeços

É uma pena que o roteiro de Marianne não acompanhe a sua qualidade imagética. É difícil acreditar que, apesar de Emma estar em uma cidade distante e pacata, ninguém da mídia deu atenção suficiente para uma escritora famosa que recebe um saco de pele humana com cabelo e dentes durante uma sessão de autógrafos e que presencia o suicídio de uma amiga de infância dentro da sede da sua editora. Ainda que seja possível relevar a não existência de algum paparazzo, é difícil entender como as mortes não trazem consequência alguma para Emma, que seria a principal suspeita de quase todos os homicídios causados por Marianne. Ninguém pergunta pelas pessoas que desapareceram? Ninguém sentiu falta do inspetor? Nem do único padre do local? Emma é a única pessoa viva e sã em uma casa com uma mulher (sua mãe) morta, uma senhora bizarramente cega e uma assessora inconsciente, mas ninguém parece se importar, o que é justamente o oposto do comportamento esperado em uma cidade pequena.

Não é clara também, a mitologia da bruxa. Emma desenvolve a saga de Lizzie Larck durante uma década, mas parece desconhecer completamente qualquer forma de ocultismo, como se escrevesse exclusivamente por iluminação de uma musa. Ao fim, o contrato demoníaco é queimado (será?) e Marianne ganha a forma de um corvo. Posteriormente, Emma se descobre grávida da entidade. Tudo isso, no entanto, não consta na mitologia da personagem, de modo que facilita que o roteiro tire qualquer coisa da cartola. O livro sobre Marianne, que deveria conter essa mitologia, conta apenas uma biografia e é de pouca ajuda para os personagens.

Ainda que o roteiro seja pouco convincente, falho e muitas vezes preguiçoso ao explorar as relações interpessoais em detrimento da lógica da narrativa, o terror de Samuel Bodin é excelente e audacioso. Fica a curiosidade sobre o que será esse bebê que Emma agora carrega.

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