Crítica | The Big Bang Theory termina bem, mas desliza com nerds que não crescem

Por Wagner Wakka | 25 de Maio de 2019 às 08h45
Divulgação/CBS

Quando The Big Bang Theory nasceu lá em 2007, a cultura considerada nerd era bastante diferente e a própria série reconhece isso. Os amigos pesquisadores Leonard e Sheldon, com sua trupe, são desenhados como os CDFs desajustados superinteligentes, cada um com sua inaptidão particularmente social. Se Leonard é aquele que quer flertar sem saber como, Sheldon foge pela tangente sob a máscara do desinteresse, enquanto Howard finge experiência e Raj, bem, nem consegue falar com mulheres.

Toda essa gama de estereótipos seria ainda mais alimentada com Penny, a jovem atriz em início de carreira que se muda para o apartamento da frente. Ainda com dificuldades para engatar na profissão, ela fazia bicos em um restaurante para viver. Ela ocupava ali o papel da mocinha sem intelecto, mas que entendia de relacionamentos muito mais que todos os outros personagens.

Claro que esse discurso foi caindo em desuso, com uma fórmula que poderia muito bem levar The Big Bang Theory ao ostracismo não fosse uma boa mudança de rumo. Foi assim que a série passou a integrar Penny ao mundo altamente complexo daqueles doutores e eles deixaram de ser tão inaptos socialmente.

Toda essa mudança é o mote essencial dos 12 anos de série, a linha narrativa que se inicia em 2007, quando Sheldon se apavora ao saber que havia uma menina nova no pedaço e que ela viria para ficar.

The Big Bang Theory não só mudou a si mesma, bem como colaborou para que um universo novo relacionado aos termos “geek” ou “nerd” tivesse um significado novo. Esta produção fez no ramo das séries o que Senhor dos Anéis, Harry Potter, e até o Universo Cinematográfico da Marvel fizeram no cinema. De repente, ser o nerd deixou de ser inaptidão e passou a significar escolha.

É nesta toada que o barco de Big Bang Theory chega ao seu último episódio. Leonard e sua trupe estão (quase) todos casados, muito bem acompanhados e até com filhos. A inaptidão social perde contornos românticos e ganham pinceladas do prosaico: afinal, quem nunca esteve sem saber o que fazer em uma situação constrangedora?

Junto disso, as mulheres da série também deixam de ser minimizadas e ganham sua força, sobretudo intelectual. Amy é tão ou mais inteligente que Sheldon. A Bernadette tem Howard nas mãos. Já Penny, se não passa a ter os conhecimentos daquele grupo, ao menos é integrada a eles, sem ser renegada ao papel de orelha para as explicações dos demais.

O episódio duplo final de Big Bang é uma boa celebração de 12 anos de série, com seus melhores e piores pontos.

Atenção, a partir daqui há spoilers do último episódio da série!

A trama final consiste em Sheldon e Amy concorrerem e ganharem o prêmio Nobel de Física pela descoberta da antiassimetria. O momento ápice do casal é muito bonito e emocionante, um ponto lógico, mas que é gostoso de ver naquela comemoração.

A linha narrativa desta primeira parte é a mudança. Sheldon não sabe lidar com o assédio de repórteres e fica extremamente frustrado ao perceber que sua vida seria completamente diferente dali em diante. Logo ele que odeia mudanças.

Do outro lado, Amy se mostra desgostosa sobre como o marido trata tudo aquilo e como solução vem o primeiro erro do episódio. A cientista usa seu prêmio em dinheiro para cair no banho de loja.

No ápice da carreira da cientista, é exatamente no âmbito estético que a série a joga. Amy se transforma em uma ferramenta simples de narrativa somente para que Sheldon fique ainda mais furioso a respeito de mudanças.

Ammy e Sheldon no discurso derradeiro do Nobel (Foto: Divulgação/CBS)

Apesar de tudo isso, o episódio revive alguns pontos muito interessantes, como o elevador que, finalmente, é arrumado após 12 anos de descidas e subidas daqueles andares a pé.

Esse é o desenho que se arruma para a segunda e derradeira parte da trama. Agora, todos precisam viajar para Europa e acompanhar a celebração junto com Amy e Sheldon. A construção do episódio também é muito bonita.

O grande problema aqui é como segurar o ego do personagem de Jim Parson diante de sua maior realização. Às vésperas do grande dia, a série revela mais uma vez um Sheldon totalmente egoísta e inconsciente do esforço de seus colegas em apoiá-lo.

Ele só muda na hora do discurso, de forma bem repentina, para agradecer o apoio dos colegas, elencando as qualidades de cada um deles. O momento é bem bonito, embora bastante incoerente com o personagem. Será que após seu casamento, sexo e toda sorte de sentimentos de sua vida, é só no Nobel que ele realmente descobre a amizade? Como série de comédia, o texto funciona para emocionar.

Já o discurso de Amy, como mulherão que é, com certeza é o melhor momento desse desfecho. A atriz Mayim Bialik, conhecida também por ser a única do elenco a efetivamente ter um doutorado, sobe ao púlpito fictício diante de um prêmio Nobel de física para passar um recado, embora óbvio, de extrema importância em uma série de estereótipos como Big Bang Theory. O recado é às meninas: “Se alguém disser que este não é o espaço de vocês. Não aceitem”, incentivando a participação feminina na ciência.

O deslize com Penny

O fim da principal mulher da série também é controverso. A personagem de Kaley Cuoco sempre foi bastante clara em vocalizar com propriedade que não queria ser mãe. Isso é tema constante de debate entre ela e Leonard durante vários arcos da série.

Mesmo assim, é no fim que ela se descobre grávida. Os diretores, em entrevista ao Hollywood Reporter, falaram que esta era uma forma de “honrar com este relacionamento”, o qual é o eixo inicial da trama.

A tristeza disso é que o argumento de homenagem não condiz com o desejo da personagem. Algo como a imposição do que o público gostaria de ver, à revelia do desejo feminino de manter a sua vantagem. Mais um ponto fora da curva.

Microcosmo

Como resumo, o último episódio de The Big Bang Theory se mantém como um belo simulacro atual, o que pode não ser exatamente bom. De um lado, se tem a ascensão de mulheres fortes, como Amy, ganhando destaque no discurso feminista diante de uma série reconhecidamente voltada ao público masculino. O que é um ponto altíssimo deste seriado.

Por outro, ainda mantém, de forma até que real demais, a figura do nerd tóxico normalizado pelo pano muito bem passado a eles. A figura que mais se sobressai é a de Sheldon, o egoísta sem amarras que diminui tudo aquilo que não é minimamente capaz de dialogar com ele.

Casal é o pivô da trama no último episódio (Foto: Divulgação/CBS)

Contudo, é Howard o bastião do nerd tóxico. Faltando poucos minutos para o fim de 12 anos de uma série com constantes deslizes do personagem, ele ainda vê mais uma oportunidade de constranger a todos. O astronauta (informação que precisa reforçar a cada segundo diante de sua insegurança) dá a entender em uma “piada” que teria tesão em ver Bernadete e Penny tomando banho juntas. O comentário inadequado do personagem, em pleno 2019, é reprimido por um singelo olhar desapontado da esposa. Pena barata para ele. A ideia de que esse tipo de piada ruim ainda possa ser considerada boa na atualidade é só uma prova de que estas Capitus ainda vivem em um mundo de Bentinhos.

O caminho ideal para uma piada ruim é o ostracismo, não o destaque do texto de uma das série de comédia de maior sucesso da atualidade. Ponto erradíssimo.

A conjunção destes dois fatores, de evolução das personagens femininas, a revelia da manutenção machista, egocêntrica e infantil de parte do elenco masculino chega como um microcosmo atual do universo nerd. Um atual cenário cada vez mais diverso, mas que insiste em vocalizar os piores sentimentos possíveis.

O episódio duplo de The Big Bang Theory já foi apresentado nos Estados Unidos e será transmitido pela Warner Channel no Brasil somente em 2 de junho. O Canaltech o assistiu antecipadamente a convite da Warner.

Com informações do The Hollywood Reporter

Fonte: The Hollywood Reporter

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