Submundo no Telegram ensina homens a vigiar e assediar mulheres
Por Jaqueline Sousa • Editado por Jones Oliveira |

Milhares de homens estão usando os grupos e canais do Telegram para vender ferramentas de hacking e espionagem para assediar mulheres. Essas comunidades também comercializam conteúdos abusivos e compartilham imagens íntimas de mulheres sem consentimento.
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Segundo uma reportagem da WIRED, a análise foi feita por pesquisadores do grupo de auditoria algorítmica AI Forensics com base em 2,8 milhões de mensagens enviadas em 16 grupos italianos e espanhóis no Telegram, que somam mais de 24 mil integrantes ativos. O estudo identificou ainda que foram compartilhadas cerca de 82 mil imagens, vídeos e áudios ilegais ao longo de seis semanas no começo deste ano.
Enquanto uma parte das publicações foca em celebridades e influenciadoras, a grande maioria usa os serviços maliciosos comercializados no Telegram para atacar mulheres conhecidas, como amigas e esposas, que não possuem o conhecimento de que suas imagens estão sendo compartilhadas e manipuladas nesses canais.
Em nota à WIRED, um porta-voz afirmou que a empresa remove “milhões” de conteúdos nocivos diariamente com o apoio de ferramentas de inteligência artificial (IA) e que possui políticas que não permitem a apologia à violência e conteúdo sexual ilegal na plataforma.
Vale mencionar ainda que a pesquisa da AI Forensics surge em meio a uma polêmica envolvendo o fundador da plataforma de mensagens, Pavel Durov, que está sob investigação criminal na França por supostas ações criminosas realizadas no Telegram.
Divulgação não consentida
Analisando os detalhes do caso, a AI Forensics detectou que, entre os vários serviços oferecidos por comunidades criminosas no Telegram, foram encontradas menções a ferramentas para acesso e divulgação de dados sensíveis de mulheres.
Na prática, esses homens coletam conteúdos de redes sociais, como Instagram e TikTok, com as ferramentas ilegais, apostando no doxing, uma coleta não consentida de informações pessoais de um indivíduo na internet para intimidar, assediar e prejudicar a vítima com o compartilhamento de dados como nome, endereço, telefone e dados financeiros.
Uma publicação identificada pelos pesquisadores em um dos grupos do Telegram, por exemplo, afirmava que o usuário poderia ensinar os clientes a obter o “acesso à galeria do celular e extração de fotos e vídeos” ou hackear redes sociais alheias de forma anônima. Outra mensagem ainda dizia ser possível “espionar a conta da parceira” com a recuperação de qualquer mídia social.
Ao todo, os especialistas encontraram mais de 18 mil menções a táticas de espionagem para vigiar mulheres, mas as ferramentas usadas no processo não foram reveladas pela análise. Sabe-se apenas que boa parte dos serviços ilegais contavam com aplicativos de stalkerware e spyware.
Fonte: WIRED