Golpistas usam programas do governo em anúncios falsos no Facebook e Instagram
Por Marcelo Fischer |
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Golpistas têm usado programas sociais do governo federal como isca em anúncios falsos nas plataformas da Meta. Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ), obtido com exclusividade pelo g1, identificou 860 anúncios fraudulentos publicados por 152 páginas entre janeiro e março de 2026.
O programa mais explorado foi o Valores a Receber, do Banco Central, citado em 345 peças. O Brasil Sorridente apareceu em 230 anúncios, seguido pelo Minha Casa Minha Vida, com 67, e pelo Auxílio Gás, com 62. O Bolsa Família somou 31 ocorrências, e o Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas, teve 19 anúncios enganosos associados a seu nome.
Em 26,3% dos casos, o mesmo anunciante explorava mais de uma política pública na mesma campanha.
Como o golpe funciona
As peças analisadas prometiam valores, benefícios ou serviços inexistentes para atrair as vítimas.
Em 185 anúncios, 21,5% do total, os golpistas simulavam canais oficiais do governo, usando nomes, símbolos e domínios com termos como "oficial" e "org" para transmitir legitimidade. Parte dessas páginas direcionava o usuário a sites que cobravam taxas para uma suposta consulta de benefício.
Os criminosos também recorreram à identidade visual de veículos de imprensa, incluindo o g1, para dar credibilidade às publicações.
Segundo o estudo, 45,8% dos anúncios traziam vídeos gerados ou manipulados por inteligência artificial, muitos com deepfakes de políticos e jornalistas. Uma deepfake do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apareceu em ao menos 16 anúncios e já era usada desde 2025 em golpes ligados ao Pix, segundo o NetLab.
Outros 146 anúncios, 17% do total, utilizaram o recurso de "criativo dinâmico" da própria Meta, ferramenta que combina imagens, títulos e textos gerados por IA para produzir versões diferentes da mesma peça publicitária. Assim, o mesmo anúncio pode exibir conteúdos distintos conforme o usuário alcançado, o que dificulta a identificação do golpe pelos mecanismos de fiscalização.
Alcance e tempo no ar
Os anúncios fraudulentos ficaram ativos, em média, por 4,4 dias, o que indica uma estratégia de renovação constante das campanhas para reduzir as chances de detecção. Ainda assim, 14 peças permaneceram no ar por mais de um mês, e uma delas ficou disponível por 73 dias.
O NetLab também mapeou uma rede de 18 páginas administradas na China, responsável por 67 anúncios enganosos sobre Brasil Sorridente, Bolsa Família e Valores a Receber, alguns publicados também em inglês e espanhol.
Em nota enviada ao Canaltech, a Meta afirmou que não permite atividades fraudulentas e remove anúncios enganosos assim que identificados, medida que diz ter adotado em relação ao Desenrola Brasil.
A empresa recomenda que os usuários nunca compartilhem dados de login e denunciem atividades suspeitas pelas próprias plataformas, e reforça que coopera com requisições das autoridades dentro da legislação aplicável.
Como se proteger deste tipo de golpe
A forma mais segura de consultar benefícios sociais é acessar diretamente os sites e aplicativos oficiais do governo, como o gov.br, sem clicar em links recebidos por anúncios ou mensagens.
Nenhum programa social exige pagamento de taxa para liberar valores ou confirmar cadastro, e qualquer cobrança nesse sentido já é um indício de fraude.
Vídeos com políticos, jornalistas ou outras figuras públicas anunciando benefícios inéditos merecem desconfiança, já que deepfakes têm sido usadas justamente para dar credibilidade a esse tipo de golpe. Dados de login, senhas e informações bancárias não devem ser compartilhados em páginas acessadas a partir de anúncios.
Ao identificar uma publicidade suspeita, o usuário pode denunciá-la diretamente pelas ferramentas do Facebook e do Instagram, o que ajuda a remover o conteúdo e a mapear páginas reincidentes.