China quer construir um império de robôs para trabalhar em suas fábricas

Por Redação | 28 de Abril de 2016 às 07h30

Com olhares frustrados, 15 operários da enorme cidade chinesa de Xangai observam um braço-robótico que simplesmente parou de funcionar como deveria. Nie Juan – uma das responsáveis pelo controle de qualidade na linha de produção – explica que o sistema do robô é mais eficiente do que seres humanos, porém é muito mais difícil de mantê-lo também.

A situação acima exemplifica algo cada vez mais comum nas grandes fábricas da China. Em polos industriais como Xangai, os salários aumentaram e tornaram os robôs muito mais eficientes ao trabalho do que seres humanos, porém eles falham muitas vezes e têm preocupado a economia do país. Um belo exemplo disso é a Cambridge Industries Group, a mesma empresa onde Nie Juan trabalha e que quer trocar cerca de 2 mil de seus 3 mil funcionários por máquinas. O problema é que falhas como essa que descrevemos impedem os planos de instaurar essas chamadas "fábricas escuras" na China, ideia que consiste em linhas de montagem sem funcionário humano algum ou de participação restrita a setores de forma que nem mesmo luz elétrica seja necessária para que o trabalho seja feito.

Além dos precisos cuidados exigidos pelas máquinas, a inflexibilidade delas é outra desvantagem perante aos seres humanos. Digamos que você seja contratado para colar alguns adesivos em caixas numa fábrica: é claro que um robô poderia executar essa tarefa muito bem, porém se tudo em volta dele não estiver perfeitamente preparado para isso ele não realizará o seu serviço corretamente, ou pior, ele irá travar toda a linha de produção e exigir a intervenção de um ser humano. Portanto, diante dessa má integração entre partes automatizadas e partes humanas duma mesma fábrica, a solução encontrada por muitos empreendedores foi inserir robôs de forma integral nas produções; com isso, eles acreditam que as falhas (que supostamente são consequência de uma falta de sincronia com os humanos) cessem ou ocorram com menor impacto financeiro.

Indústrias na China

Wong é CEO da CIG e quer implantar a política de "fábricas escuras" o mais rápido possível (Imagem/Reprod.: MIT)

O MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) fez uma visita às fabricas do Cambridge Industries Group e, além de levantar as informações descritas acima, pôde verificar que a sua administração vê inúmeras vantagens e desvantagens na aplicação de máquinas em alguns processos. O CEO da companhia, Gerald Wong, explica que hoje em dia ainda há tarefas muito difíceis de automatizar; para demonstrar isso, ele dá como exemplo a fixação de um fio a uma placa de circuitos: "Sempre tem de ser fixado duma forma diferente, pois robôs não fazem isso com tanta facilidade," diz um pouco irritado.

Para o executivo, as pessoas serão obrigadas a automatizar os processos de fabricação na China ou então terão de deixar o ramo industrial em um futuro não tão distante.

Os altos e baixos da indústria são a causa do problema e parte dele, também

Indústrias na China

(Imagem/Reprod.: MIT)

Com aproximadamente 100 milhões de pessoas trabalhando em fábricas, a China tem quase 36% de seu PIB vindo das indústrias. Durante o passar dos anos, milhares de trabalhadores sem educação formal aceitaram trabalhar muito por pouco, produzindo infinitos produtos desde sua fase inicial até o momento em que são enviados para as lojas ou outros países. Em 1990, a China só representava 3% da produção mundial; hoje esse mesmo país produz 71% de todos os smartphones, 63% de todos os sapatos e 80% de todos os aparelhos de ar-condicionado vendidos no mundo. Essa explosão econômica também significa eletrônicos mais baratos por aqui e para todo o mundo.

Entretanto, nos últimos anos o gigante asiático tem enfrentado duras estagnações e quedas na sua máquina industrial. Os salários têm atingido níveis razoáveis para a população e, no ano passado, pela primeira vez desde os anos 90, a China exportou menos do que anteriormente. Um reflexo tardio, mas diretamente ligado à crise mundial de 2009, e é aí onde a automação quer entrar como uma resposta promissora.

Embora importem muitos robôs, eles ainda estão bem atrás de competidores asiáticos e europeus; para cada 10 mil habitantes na Coréia do Sul há um equivalente de 478 robôs, no Japão há 315, na Alemanha há 292 e nos EUA 164; já na China esse número é de apenas 36 máquinas para o mesmo número de pessoas.

Indústrias na China

(Imagem/Reprod.: MIT)

O governo do país também parece estar muito interessado nessa iniciativa. No último dia 16 de março, as autoridades oficiais aprovaram um plano formal para os próximos 5 anos. Nele, estão inclusas várias medidas para incentivar a produção tecnológica nacional e adotar da melhor maneira possível as inovações estrangeiras existentes na atualidade. Em 2015, o governo de Guandong, uma província recheada com polos de manufaturação, anunciou planos de investir US$ 150 bilhões com o objetivo de equipar suas fábricas com robôs e máquinas mais modernas.

No final de seu tour pelas linhas de produção de Gerald Wong, o MIT conversou com pesquisadores que têm planos para solucionar o problema com robôs e sua incapacidade de agir em situações não ideais. Os cientistas explicaram que, com os investimentos em automação, é muito provável que esses aparelhos se desenvolvam e se tornem cada vez mais inteligentes, tornando-se também mais adaptados a tarefas que hoje só seres humanos conseguem executar.

Por mais que pareça distante demais para nós aqui no Brasil, vale lembrar que a produção da China impacta todo o consumo mundial, inclusive o nosso. Portanto, a adoção de mais e mais máquinas nesse projeto megalomaníaco de introduzir robôs em fábricas chinesas também nos afeta, sem falar do que deve acontecer com todos os 100 milhões de trabalhadores que num futuro ainda incerto serão substituídos por essas máquinas.

Para a economia, parece certo que a China precisa modernizar-se tecnologicamente, porém será que não estão se esquecendo do que o desemprego pode causar ao país? De acordo com Wong, o CEO da empresa que o MIT visitou, essas pessoas voltarão às suas cidades natais e irão se resolver bem com empregos no ramo dos serviços, em fazendas ou em negócios menores. Se será tão simples assim, nós só podemos esperar para descobrir.

Via: MIT Technology Review