Uma criança posta em média 70 mil vezes até a maioridade; conheça os riscos

Por Wagner Wakka | 09 de Novembro de 2018 às 18h29

Você já deve ter presenciado essa cena: uma criança nem bem nasceu e já há um vasto álbum de fotos do pequeno ali publicado nas redes sociais. Este é um pequeno exemplo de um fenômeno para o qual pesquisadores da Comissão para Defesa Infantil na Inglaterra chama atenção. O perigo de criar dados sobre uma pessoa antes mesmo de ela entender sobre aquele universo.

O documento é feito pela comissária Anne Longfield, que levanta dados alarmantes sobre o tema. Em média, já aos 13 anos, uma criança tem pelo menos 1300 fotos e vídeos publicada em redes sociais. “A quantidade de informação explode quando a própria criança começa e engajar nestas plataformas: uma criança comum posta em média 26 vezes por dia na rede social, um total de aproximadamente 70 mil posts até os 18 anos”, alerta Longfield.

Isso é essencialmente um problema? O estudo aponta que pode ser. Segundo a comissária é preciso pensarmos em educar as crianças sobre o quão suas informações são importantes.

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Como os pequenos não são críticos sobre isso, aplicativos voltados a jogos e outras funções para estão coletando dados sobre seus comportamentos “como nunca”, defende a pesquisadora.

Ela ressalta, claro, que há uma série de benefícios para este tipo de acompanhamento de dados sobre as crianças. Por exemplo, é possível fazer pesquisas sobre seus comportamentos que antes não se imaginava por questões práticas como observar uma criança 24 horas por dia.

“Contudo, uma pesquisa da equipe liderada por Sonia Livingstone, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, observou que há uma razão específica para se preocupar com a privacidade de dados das crianças, pois elas são muitas vezes as primeiras a adotar novos dispositivos, serviços e conteúdos digitais. Por isso, eles são o bode expiatório para sociedade mais ampla, enfrentando os riscos antes que muitos adultos tomem consciência deles ou desenvolver estratégias para mitigá-los”, defende.

Anne Longfield, autora do trabalho (Foto: Governo Inglês)

Outro ponto levantado por ela é que este acúmulo de dados nesta idade pode trazer problemas para o desenvolvimento na infância. Um dos motivos é que ter a sua privacidade protegida é um dos parâmetros para que uma criança se desenvolva. “Por exemplo, sobrepor limites é uma parte normal do crescimento. Isso pode se manifestar em um número de maneiras: como ir cada vez mais longe de casa do que permitido por seus pais, por exemplo, ou olhando conteúdo inapropriado. Mas para as crianças que estão cientes de serem monitoradas — seja por ter localização acompanhada por um relógio com GPS, ou histórico de navegação lido ou com um aplicativo espião — ultrapassar limites é menos possível. Coletar tantos dados sobre crianças levanta questões importantes sobre sua liberdade e independência, mesmo se for coletada com boas intenções”, ela defende.

Por fim, ela defende o impacto que isso pode ter ao longo da vida. A infância e, sobretudo, a adolescência são momentos de construção de caráter e, segundo a comissária, também o espaço para que se cometa os primeiros grandes erros da vida. “Dados coletados na infância podem fazer parte das evidências usadas para fazer o perfil das pessoas. A criação de perfis é um processo em que os dados sobre uma pessoa são analisados usando algoritmos e aprendizado de máquina para analisar ou prever aspectos relativos ao desempenho da pessoa física no trabalho, situação econômica, saúde, preferências pessoais, interesses, confiabilidade, comportamento, localização ou movimentos”, ela explica. Com isso, uma pessoa pode ser rotulada por problemas na infância e adolescência e nunca ser dada a ela a oportunidade de se transformar em um adulto responsável.

Para isso, ela sugere alguns passos que acredita ser melhores para a saúde digital dos pequenos. O primeiro é parar e pensar sobre todos os dados que você compartilha sobre seu filho. “Será que eu preciso compartilhar isso? Esta é sempre a primeira pergunta a se fazer”, defende Longfield.

Ainda, ela explica que é importante evitar postar fotos que possam identificar informações pessoais sobre a criança. Por exemplo, nunca mostrar o pequeno em uniforme da escola onde estuda, falas sobre a rotina ou mesmo dizer onde mora. Tudo isso pode ser usado contra você e contra a criança por pessoas mal intencionadas.

O trabalho completo está disponível no site do comitê do governo inglês.

Fonte: Governo Inglês

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