Funcionários do Facebook se opõem à nova política de fake news da plataforma

Por Rafael Arbulu | 29 de Outubro de 2019 às 14h00
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Recentemente, o Facebook anunciou uma mudança em sua moderação de anúncios de cunho político, ressaltando que posts com informações falsas seriam claramente rotulados como fake news, mas continuariam em exibição na plataforma. Mais além, os autores por trás dos anúncios não sofreriam nenhum impeditivo ou punição por postagens reconhecidas como falsas.

Sabe quem não gostou nada da ideia? O Facebook. Bom, ao menos, uma boa parcela dos funcionários da empresa, que pediram em carta aberta para que o CEO Mark Zuckerberg e o comitê de direção da companhia repensassem a estratégia. O documento foi obtido pelo jornal The New York Times e tem a assinatura de mais de 250 colaboradores, que pensam que a nova abordagem está “transformando o Facebook em uma arma” e que ela contraria aquilo que a plataforma se define: dar uma voz às pessoas.

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, recebeu críticas à nova política de fake news da plataforma quando elas partem de figuras políticas

“A desinformação afeta todos nós. Nossas atuais políticas de checagem de fatos no ofício político são uma ameaça ao que o Facebook se define. Nós fundamentalmente nos opomos a esta política como ela é hoje. Ela não protege as vozes, mas ao invés disso, permite que políticos façam de nossa plataforma uma arma ao transformar em alvos as pessoas que acreditam que o conteúdo postado por figuras políticas é confiável”.

A carta recebeu o apoio de algumas figuras proeminentes do cenário político norte-americano: a congressista Alexandria Ocasio-Cortez, do Partido Democrata, elogiou a publicação do texto pelo jornal, chamando os colaboradores do Facebook de “corajosos por fazerem frente” à política de Zuckerberg, à qual referiu-se como “perturbadora”.

Ocasio-Cortez recentemente também tomou as manchetes internacionais quando, durante uma audiência com congressistas de Nova York na última semana sobre a criptomoeda Libra, que o Facebook pretende implementar no mercado, ela questionou a validade da moeda frente ao comportamento passado do Facebook — e de Mark Zuckerberg — em relação ao caso Cambridge Anaytica:

“Sr. Zuckerberg, eu acho que você, de todas as pessoas, deve apreciar o uso do comportamento passado de uma pessoa para determinar, decidir ou prever o comportamento futuro dessa pessoa, e para que nós possamos tomar decisões sobre a Libra, eu acho que precisamos cavar um pouco no comportamento passado seu e do Facebook, em respeito à nossa democracia. Sr. Zuckerberg, em qual mês e ano o senhor tornou-se pessoalmente ciente da Cambridge Analytica?”.

O ponto que a congressista levantou recebeu apoio da internet em geral, haja vista que, desde o depoimento original de Zuckerberg sobre o escândalo de privacidade vivido pelo Facebook, em 2018, muitos novos fatos vieram à luz: Zuckerberg foi evasivo, dizendo não saber ou não se lembrar da ocasião específica. “Esse foi o maior escândalo de vazamento de dados em respeito à sua empresa, que trouxe impactos catastróficos às eleições de 2016...e você não sabe?”, respondeu Ocasio-Cortez.

Alexandria Ocasio-Cortez, congressista americana pelo estado de Nova York, questionou a confiabilidade do Facebook em audiência recente

A carta dos funcionários, publicada pelo Times, adiciona gasolina ao incêndio: “Permitir que a desinformação cívica paga seja veiculada na plataforma em seu atual estado tem o potencial de ampliar a desconfiança do público nela, ao permitir que conteúdos similares pagos e orgânicos se posicionem lado a lado — uns com checagem dos fatos, outros sem ela. Mais além, ela passa a ideia de que nós estamos confortáveis em lucrar com campanhas deliberadas de desinformação veiculadas por aqueles que buscam posições de poder”, diz outro trecho do documento.

Os funcionários então providenciaram sugestões junto às reclamações: restringir a abrangência de público para publicidades de cunho político, redesenhar a expressão visual destes anúncios específicos e, talvez a mais prioritária de todas, fazer com que os autores de anúncios políticos mentirosos sejam sujeitos às mesmas regras e penalidades que anúncios pagos comuns.

Vale citar que, no segundo semestre de 2020, os Estados Unidos novamente passarão por uma eleição presidencial. Donald Trump, atual presidente dos EUA, já anunciou que pretende se reeleger, enquanto o Partido Democrata ainda não determinou seu candidato. Ambos os partidos deverão passar pelas eleições primárias, onde candidatos internos deverão debater entre si a validade de suas respectivas candidaturas. Em 2016, Bernie Sanders e Hillary Clinton disputaram a candidatura pelos Democratas, com Hillary alçada ao embate contra Trump. Ela saiu derrotada.

Fonte: The New York Times (requer assinatura); The Guardian

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