Estudo mostra que Facebook é culpado por aumento da violência contra imigrantes

Por Redação | 21 de Agosto de 2018 às 20h50
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Um novo estudo pode ajudar a mudar o modo como vemos os famosos trolls da internet. Segundo estudo realizado pela Universidade de Warwick, na Alemanha, o uso do Facebook está intimamente ligado a atos de violência contra imigrantes no mundo real.

Conduzido pelos pesquisadores Karsten Müller e Carlo Schwarz, o estudo chegou à conclusão de que, longe de serem apenas trollagens ou expressões isoladas de opiniões controversas, o aumento de posts anti-refugiados na rede social acompanhou o também aumento da violência contra esse grupo de imigrantes.

O método usado pelos pesquisadores para chegar a essa conclusão foi o seguinte: eles escolheram duas páginas do Facebook com alto índice de interação, sendo que uma delas seria específica de grupos da extrema-direita alemã e outra alguma página de sucesso com o público em geral. Como representante dos grupos de direita eles escolheram a página Alternative for Germany (em português, Alternativa para a Alemanha), que é o grupo anti-imigração mais popular do país, além de ser conhecido por não fazer nenhuma tentativa de conter a violência de seus seguidores. Já para monitorar o público em geral foi escolhida a página alemã da Nutella.

Assim, foram monitorados centenas de milhares de posts e comentários nessas páginas, que foram então separados por regiões. Isso possibilitou que os pesquisadores encontrassem padrões do uso das mídias sociais, além de permitir isolar qualquer sentimento anti-refugiados existente neles.

Com base nos resultados, pôde-se constatar que os crimes contra refugiados cresceram desproporcionalmente na áreas onde, durante um determinado período, existiu alta atividade de posts e comentários com sentimentos anti-refugiados sendo propagados pelo Facebook. Pior ainda, esse efeito levou a um aumento dos crimes mais graves cometidos contra refugiados, como incêndios criminosos e linchamentos.

Uma estimativa feita pelos pesquisadores é de que a influência das mídias sociais pode aumentar em até 13% os crimes de ódio contra refugiados. Müller e Schwarz defendem que esse não é um número preciso, mas apenas uma estimativa rápida para mostrar que o aumento dos casos de violência acontece numa quantidade bem expressiva.

Apesar dos resultados, os cientistas pedem cautela na hora de interpretar os dados. Eles garantem que não estão dizendo que as mídias sociais causam um aumento dos crimes de ódio contra imigrantes por si só, mas sim que elas podem agir como um mecanismo de propagação dos sentimentos de ódio e xenofobia já presentes na sociedade. Eles ainda explicam que o que o estudo mostra são evidências de que o aumento aleatório da exposição desses sentimento de ódio a refugiados nas redes sociais pode aumentar a incidência de crimes contra essas minorias.

Correlação x causa

Com certeza muita gente vai tentar discordar dos resultados logo de cara. Afinal, existem muitos fatores que podem ocasionar esse aumento da violência, e eles podem não estar diretamente ligados ao uso das redes sociais. Será que tudo não passou de uma coincidência? Felizmente, os pesquisadores já previram essas questões e foram bem claros na delineação do estudo, não só no método utilizado para ter a certeza de se encontrar uma relação direta entre redes sociais e violência, mas também no esforço de responder todas as possíveis explicações alternativas para o efeito.

Por exemplo, existe a possibilidade de que os ataques simplesmente ocorram em maior número nas áreas onde existem mais usuários de mídias sociais. Afinal, esses conflitos costumam ocorrer em áreas com maior densidade populacional, que, por sua vez, costumam ser áreas onde o uso da internet e das redes sociais é mais acentuado.

Os pesquisadores alegam que esse não é o caso porque o monitoramento deles foi feito considerando áreas específicas, e não o país como um todo. Isso quer dizer que o padrão do aumento de posts de ódio contra imigrantes sendo refletido no aumento da violência sobre esses grupos pode ser encontrado tanto nas grandes cidades, onde o uso de Facebook é maior, quanto nos pequenos povoados, onde o acesso à internet é mais complexo, o que resulta num menor uso das mídias sociais.

Outro fator a considerar é que a página da Nutella garante um grupo de controle que não possui nenhum posicionamento político claro, o que permite identificar um padrão de interação do usuário em todo o país que costuma estar conectado a assuntos como mudança da estação, chegada de feriados e outros assuntos do momento. Pelo modo como a pesquisa foi elaborada, é possível identificar esse comportamento não só no país como um todo, mas também em cada região específica. Então, se em alguma região há uma maior de incidência de comentários fugindo desses assuntos, é possível ter a certeza de que há algo dentro daquela comunidade ocasionando essa mudança na preocupação das pessoas.

Outro ponto importante (e que não é possível ser controlado pelos pesquisadores) é como as variadas quedas nos serviços de internet e do Facebook afetam esses padrões. Foi descoberto que interrupções no acesso ao Facebook eliminam por completo o aumento da violência contra grupos de imigrantes, que retorna aos patamares normais. Enquanto isso, o aumento no sentimento de ódio online contra outras minorias, como os judeus, também não causa nenhum efeito na violência e nos crimes de ódio contra imigrantes.

Por último, os dados também mostram que o aumento da cobertura de questões relativas a imigração por veículos de mídia tradicionais influencia o aumento de protestos existentes em cada região, mas não causa o aumento da violência contra refugiados.

E, como já explicado pelos pesquisadores, não é que o Facebook magicamente causa um aumento da violência contra imigrantes em um determinado local. Os lugares onde esse aumento aconteceu são regiões que historicamente possuem uma grande população de militantes da extrema-direita, além de uma grande incidência de crimes de ódio no passado. Mas, não obstante, o Facebook tem se mostrado uma ótima ferramenta para espalhar o sentimento de ódio contra os refugiados, visto que o aumento em violência simplesmente não existe nos períodos em que a rede social ficou fora do ar.

A conexão é bem clara: se a população de uma região utiliza o Facebook para espalhar o sentimento de ódio contra imigrantes, essa mesma região terá um aumento significativo nos índices de violência contra essas minorias. E, ainda que não haja muita coisa que o Facebook possa fazer quanto a isso — afinal, essa é apenas uma consequência natural do próprio funcionamento de uma rede social —, ter a comprovação de que seu negócio tem responsabilidade direta no aumento da violência não é o tipo de propaganda que qualquer empresa gostaria de ter.

Fonte: TechCrunch

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