ICQ, Orkut e além: uma história das redes sociais

Por Douglas Ciriaco | 30.06.2016 às 15:53 - atualizado em 30.06.2016 às 16:13

Quando o Orkut desembarcou por aqui no ano de 2004, muita gente entendia pouco do que aquilo se tratava, mas este tipo de plataforma virtual começou bem antes disso, ainda no início dos anos de 1970. Inicialmente restritos e limitados, estes serviços foram evoluindo junto com a informática e se adaptando às novas possibilidades tecnológicas.

Aos poucos, a ânsia comunicacional humana ganhou um tipo de ferramenta poderosa, de longo alcance e com a capacidade de interferir diretamente na vida das pessoas — para o bem e para o mal. Para celebrar mais um Dia Mundial das Mídias Sociais, nós preparamos um especial relembrando algumas das principais plataformas do gênero já surgidas na web e também dando algumas pinceladas no futuro.

(Um lembrete: aqui, nós tentamos nos ater às páginas mais convencionais, sem explorar nichos muito específicos nem englobar tanto os serviços de troca de mensagens neste âmbito — mas não poderíamos deixar de fazer uma breve citação ao ICQ, é claro. Então, boa leitura.)

CompuServe e BBS: os primórdios

Os primeiros sistemas próximos daquilo que chamamos de rede social nos dias de hoje começaram a surgir ainda na década de 1970, com os precursores do sistema chamado de Bulletin Board System (BBS), um serviço computacional que permitia a ligação entre diversos usuários por meio de um terminal.

Nos BBS, as pessoas trocavam mensagens públicas e privadas, e-mails, subiam e baixavam arquivos, liam boletim de notícias e até mesmo compartilhavam uma jogatina. A coisa era meio primitiva e durou até meados dos anos 1990, com o colapso tendo início a partir de 1994, ano em que a conexão discada (mais barata) e a internet começavam a se estabelecer e a oferecer uma alternativa muito mais barata e funcional do que os BBS.

CompuServe

Propagandas do CompuServe em revistas durante os anos 80. (Foto: Reprodução/Apple2History)

A partir da ideia dos BBS é que surgiram outras formas de comunicação e interação online, como o protocolo IRC. Mas a evolução da web nos permitiu alçar voos maiores, chegando finalmente à reta final do século 20 e ao surgimento daquela que é tida como a primeira rede social nos moldes de hoje.

Dividindo o protagonismo dos anos 80 estava o avô disso que hoje chamamos de redes sociais, o CompuServe Information Service (CIS). Lançado em 1969 com foco no mercado corporativo, o CIS tornou-se público ao longo da década de 1980 e consta na lista de antepassados do Facebook e do Google+ porque permitia não somente a comunicação direta entre seus participantes por meio de mensagens privadas e troca de arquivos, mas também o embate discursivo em fóruns.

ICQ e SixDegrees.com

Os anos 90 viriam com a explosão dos serviços AOL, que fizeram mais sucesso lá nos Estados Unidos do que aqui no Brasil, mas que ofereciam uma espécie de rede social precursora. Ali, você poderia criar um perfil de usuário e também participar de comunidades criadas por outros assinantes do serviço para trocar informações.

O desenvolvimento da internet, que já podia ser acessada de forma mais simples por meio de conexões discadas, trouxe consigo algumas ferramentas clássicas de interação social. A principal delas a partir da segunda metade da década de 90 foi, sem dúvida, o ICQ, um mensageiro instantâneo que redefiniu a forma como se conversa via internet, reunindo diversos recursos e a possibilidade de se encontrar pessoas online por meio de um sistema de busca não tão intuitivo, mas muito eficaz.

SixDegrees.com

A primeira rede social nos moldes atuais. (Foto: Reprodução/Social Media Programming)

Contudo, se tivéssemos que apontar qual foi a “primeira rede social tal qual conhecemos atualmente”, esta seria a SixDegrees.com. Baseada no conceito dos seis degraus de separação, o qual afirma que nós estamos a no máximo seis pessoas de distância de qualquer outra pessoa do mundo. O site foi ao ar em 1997 e durou até 2001.

A plataforma funcionava com base na conexão entre amigos, então, você poderia criar seu próprio perfil e partir em busca de rostos conhecidos (ou não) para se comunicar. Se esta empreitada não foi bem-sucedida, ela deixou sementes que seriam cultivadas por páginas como Orkut, MySpace e Facebook.

MySpace, Orkut e Fotolog: um passo adiante

Aos poucos, o ramo das comunicações instantâneas foi dominado pelo MSN Messenger, lançado pela Microsoft em 1999, que reinou soberano por muitos anos até definhar diante da incorporação dos chats às redes sociais modernas, Em termos mais típicos do que chamamos de mídias sociais, o começo dos anos 2000 foi dominado por basicamente duas plataformas: MySpace e Orkut.

Se aqui no Brasil o MySpace era apenas aquele site onde os artistas postavam suas músicas, portanto era legalzinho de entrar e ver de vez em quando (ou então atuar de forma mais direta caso você tivesse uma banda), nos Estados Unidos a plataforma foi o “Facebook do seu tempo”.

Lançado em 2000, o MySpace levou um passo adiante a ideia de mídia social, podendo ser enquadrado talvez como a “primeira rede social moderna”. Inúmeros recursos multimídia conviviam com o ainda surpreendente ato de adicionar pessoas conhecidas ou não e criar círculos de amizade virtual.

Se lá fora o MySpace reinava, aqui, foi com a chegada do Orkut a partir de 2004 que o brasileiro começou a entender o que é, de fato, uma rede social. Perfil, fotos, informações pessoais e as amadas comunidades: isso era o Orkut. Uma compilação com milhares de fóruns e a possibilidade de trocar mensagens rápidas e deixar recados para os seus amigos conquistaram o brasileiro de uma maneira arrebatadora.

Orkut

Orkut: sucesso basicamente apenas no Brasil. (Foto: Reprodução/Blog do Orkut)

O sucesso estrondoso do Orkut, porém, não foi o suficiente para mantê-lo na crista da onda. Com uma estrutura até certo ponto rígida, aos poucos, a rede foi perdendo espaço para uma rival criada no mesmo ano de 2004 e que conseguiu transformar a vida de milhões de pessoas em fonte de lucro — sim, estamos falando do Facebook. A debandada geral da rede obrigou o Orkut a fechar as suas portas, mas os saudosos podem ao menos conferir um memorial com tudo o que havia postado na rede no momento em que ela deixou de existir.

Vale destacar ainda que o Fotolog, de 2002, foi outra plataforma de grande sucesso por aqui no início da década passada. Conectando pessoas de diversos lugares por meio de fotografias, a rede foi uma espécie de precursora do Instagram e de basicamente qualquer outra rede social dedicada ao compartilhamento de imagens.

Facebook e Twitter: a vida em tempo real

O Facebook foi ao ar em 2004 e a história da rede você já conhece bem. Com uma ajuda do cinema, o seu criador se tornou uma espécie de pop star, o que também impulsionou consideravelmente o crescimento da rede em várias partes do mundo e, aos poucos, ela se tornou o epicentro de um estilo de uso da internet que é, ao mesmo tempo, preocupante e maravilhoso.

Diferente do que acontecia no Orkut, quando as pessoas precisavam ir atrás da informação, o Facebook logo trouxe a informação para a página pessoal de cada um. Assim, quando você faz login na rede, vê de cara aquilo que os seus amigos estão postando e compartilhando.

Facebook

Interface original do Facebook, então chamado de 'The Facebook'. (Foto: Reprodução/Buffering App)

O grande trunfo da rede de Zuckerberg, soberana na atualidade e seguida de longe por Twitter e Instagram e também por nomes como o das chinesas Qzone, Baidu Tieba e Weibo e da russa VK, foi reunir em um único espaço basicamente tudo aquilo que as pessoas buscam na internet: comunicação instantânea, notícias, vídeos, compartilhamentos de fotos, fóruns de discussão, publicação de textos, memes, jogos, notas, calendário de eventos e aniversários e muito mais. Enfim, o Facebook leva ao extremo a ideia de uma rede de contatos interagindo sob as mais diversas formas.

Por sua vez, o Twitter chega a uma década de existência enfrentando problemas, mas não sem trazer uma grande contribuição ao debate das redes sociais. O foco nos 140 caracteres parecia bizarro quando a plataforma foi lançada em 2006, mas, hoje, é mais do que compreendido por quem a utiliza. Aliás, não é incomum ver que a troca dos “textões” reflexivos, típicos do Facebook, por mensagens curtas e pensamentos mais concisos seja apontada como um dos principais trunfos de quem mais utiliza a rede.

Snapchat: a graça do efêmero

Poderíamos gastar algumas linhas aqui falando sobre o Instagram, a rede social adquirida pelo Facebook e que reúne mais de 400 milhões de usuário, mas, bem, ela não apresenta nenhum recurso de fato inovador que mereça tantas menções assim. Porém, ainda no âmbito das imagens, a rede social mais comentada do momento é, sem dúvida, o Snapchat.

Snapchat

Snapchat tem conquistado muita gente. (Foto: Amir Idris/Flick)

A ideia de fazer fotos e vídeos que durarão por no máximo 24 horas parece algo na contramão das possibilidades oferecidas pela internet, que é justamente a de perpetuar as coisas. Porém, essa coisa de conteúdos efêmeros é o grande destaque do Snapchat, que oferece uma plataforma na qual as pessoas podem ser mais elas mesmas sem aquele temor de como aquilo vai parecer daqui um tempo. E o seu sucesso é tanto que outras redes já tentaram (e ainda tentam) implementar recursos semelhantes.

E o futuro?

É difícil cravar qual será o futuro das redes sociais, mas nós podemos arriscar. Olhando para o passado, reparamos que grandes nomes se tornaram imensos nadas e caíram no ostracismo — estão aí MySpace, Fotolog e Orkut para comprovar esta tese —, e os números de hoje também podem indicar algo assim.

O sucesso de uma rede pode ser temporário e não há uma fórmula certa para definir o quanto ela pode ou não dar certo. O Twitter já pareceu ser a rede do momento, mas hoje enfrenta sérios problemas financeiros que podem comprometer a sua existência — não se espante se em breve alguma outra gigante da web comprar a rede do passarinho. O Facebook pode ser considerado um caso a parte justamente por ter desenvolvido uma fórmula de negócios bem-sucedida que transforma seus usuários em cifras, oferecendo um campo fértil para a publicidade na web.

Mas tudo ainda depende das pessoas, então, no dia em que um bom número delas achar melhor partir para outra, o reinado de Zuckerberg pode chegar ao fim. O ser humano é um ser da comunicação, portanto, é fato que novas redes vão surgir e algumas vão ficar pelo caminho, mas o conceito de mídias sociais dificilmente será abandonado. Pelo contrário, ele deve se tornar cada vez mais parte de nossas vidas.